Rio Grande do Norte, quinta-feira, 23 de maio de 2013

Carta Potiguar - uma alternativa crítica

publicado em 22 de fevereiro de 2012

Mordidos pelo ciúme: os homens e a fantasia de traição

Fala-se muito dos ciúmes, quando este se coloca presente na vida amorosa das mulheres. Entretanto, parece ser nas escolhas objetais dos homens (quando este tem como objeto a mulher) que o ácido sentimento aparece muitas vezes como condição de escolha, como um modo particular de gozo.

Para Freud, pai da psicanálise, o ciúme se coloca como algo fundamental nas escolhas amorosas dos homens, sendo este (o ciúme) portanto, herdeiro da trama edípica vivida pelo sujeito. O conhecido Complexo de Édipo teorizado por Freud, e mais tarde reeditado por Jacques Lacan (psicanalista francês), em síntese, trata-se no caso dos meninos a um apaixonamento pela figura materna e reações hostis para com o pai. Este “romance” que é vivido de forma inconsciente, tem seu fim quando o menino dar-se conta da impossibilidade e dos riscos de seu apaixonamento, então abre mão de seu desejo, aceitando que esta mulher (a mãe), pertence a um outro homem. O menino desiste do amor da mãe e o entrega “de mão beijada” a um terceiro.

A rivalidade, a hostilidade, a conquista e os ciúmes parecem ser desta época reeditada na vida adulta dos homens, questões que fazem-se necessárias em suas posteriores escolhas. Em “Contribuições a Psicologia do amor”*, Freud fala, no que se refere as escolhas de objeto feita pelos homens, de “quatro condições necessárias”. A primeira delas seria a do “terceiro prejudicado”, diz que um homem interessa-se por uma mulher sobre a qual um outro homem lhe reivindique a posse (marido, pai,amigo), seria uma mulher que pertença a um outro homem. O que lembra a trama edípica. Comumente ouço no discurso de homens, esse gozo em existir na vida da mulher um outro, sobre o qual ele triunfe. Seja um amigo, primo, um ex, que ele por exemplo, lhe sugira o afastamento. Como ilustração, apresento um fragmento da literatura, “O animal agonizante”** “E gratuito. Ciúme até mesmo quando ela me diz que vai patinar no gelo com o irmão dela de dezoito anos. Será ele o homem que vai roubá-la de mim?”

A segunda condição combina-se com a primeira, e a mulher lhe aparece enquanto leviana, uma mulher a qual o homem coloque sua fidelidade em dúvida. Ele observa que aquela mulher de reputação inquestionável não exerce aos homens atração, é esta outra, que o faz montar cenas (em que a infidelidade está presente), e lhe faz despertar a paixão do ciúme, que faz parte de sua condição erótica. Novamente utilizando-me da literatura para ilustrar, temos o clássico Bento Santiago, de “Dom Casmurro”***, tentando provar ao leitor, por “A+B” a culpa de Capitu, em relação a um suposto adultério (que possivelmente aconteceu apenas na fantasia de Bentinho). “Bento Santiago percebe o desvio do olhar, e o interpreta como desvio de conduta, como traição”, escreve Marília Arreguy.

A terceira condição trata-se da escolha de uma mulher de alto valor, e a última refere-se ao desejo de salvar essa mulher. Onde ele ocupa uma posição de ser “tudo” para ela, de que esta precise dele, de sua ajuda, de sua força, sua virilidade, seu amor. E salve-a por não abandoná-la, já que sem ele, esta mulher estaria perdida.

Ele resumo, dizendo que as condições que se impõe ao homem seria de que, sua amada não fosse desimpedida, e que lhe deixe duvidar da fidelidade, que possua o alto valor que lhe atribuiu, e que responda a sua necessidade de sentir ciúmes, de rivalizar com um outro homem.

(Este texto não toma como respaldo a experiência clínica das fantasias masculinas, mas sim uma combinação de observações da vida cotidiana, algumas considerações psicanalíticas teóricas, bem como exemplos da literatura, com uma finalidade ilustrativa.)

 

*Cinco lições de Psicanálise, Leonardo da Vinci e outros trabalhos (Volume XI)

** Phillip Roth

*** Machado de Assis

professor-running
Sociedade e Cultura

Pesquisador que só "Lattes" não "morde"

evolucao_do_concurseiro_maior
Sociedade e Cultura

HOMO CONCURSEIRUS