Rio Grande do Norte, segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Carta Potiguar - uma alternativa crítica

publicado em 5 de maio de 2012

Triste submissão do futebol nordestino

postado por Carta Potiguar

Por Irlan Simões, na coluna Futebol além da mercadoria
(sítio Outras Palavras)

 

Imagem: nixxphotography

Basta fazer uma rápida pesquisa pra entender por que o futebol nordestino, apesar de possuir imensas torcidas e grandes jogadores, sempre esteve no segundo escalão nacional. Dois fatos históricos trazem luz a essa discussão.

Ambos estão ligados à inviabilização forçada dos laços entre os clubes da região. Entre ‎1968 e 1970, o Torneio Norte-Nordeste agregava mais de vinte equipes. Em 1971, contudo, foi desfeito a pretexto do início da disputa do Campeonato Brasileiro. O segundo momento é uma sequência de torneios regionais bem-sucedidos, entre 1997 a 2002. O Campeonato do Nordeste era sucesso de publico, reunindo torcidas acima da média de todas as demais competições nacionais. Mas em 2003, a pressão de diversos setores da imprensa esportiva, somada ao momento político que Ricardo Teixeira atravessava no comando da CBF, modificou a estrutura do Campeonato Brasileiro (que passou a ser disputado pelo sistema de “pontos corridos”) e fez o regional acabar novamente.

À Confederação Brasileira de Futebol (CBF, ex-CBD), nunca interessou o fortalecimento das equipes nordestinas. Os torneios regionais sempre foram o espaço que os clubes da região acharam para crescer, já que eram preteridos de diversas maneiras, em âmbito nacional. Em todos os casos, a confederação interveio para tolher esse crescimento indesejado.

Vale lembrar que a maior fonte de recursos dos clubes foi, por muitas décadas, a renda de venda dos ingressos para os jogos. No Nordeste, eram muito comuns os torneios “caça-níqueis”, para os quais convidavam-se equipes de prestígio de outros estados: nos anos 1960 e 70, Santos e Botafogo, principalmente. No curto período em que existiram, os torneios regionais conquistaram tanto prestígio que eliminaram a necessidade destes artifícios. Mesmo sem o reconhecimento da CBD o torneio transnordestino José Américo de Almeida Filho foi realizado outras três vezes, após o início do “Brasileirão”. Em 1976, ultima edição, contou com a presença da maioria dos campeões estaduais.

De pouco acreditado a surpresa desagradável

A relação CBD x Clubes Nordestinos era tão mascarada, que a forma de agradar os clubes da região, juntamente com os clubes do Norte (principalmente os paraenses, com grande expressão), foi promover o Campeonato Nacional Norte-Nordeste, em 1971. O torneio tinha a intenção de selecionar os representantes da região para a final do Campeonato Brasileiro… da Segunda Divisão.

Outro caso de “redução dos danos sofridos” pelos clubes nordestinos, devido ao fim dos torneios regionais, foi a Taça Almir de Albuquerque, oferecida pela CBD ao melhor retrospecto dentre os clubes do Norte e Nordeste, durante a primeira fase do Campeonato Brasileiro de 1973. Teve como vencedor o América de Natal, 25º colocado num torneio com 40 equipes. Dentre os concorrentes dessa “taça”, o Vitória (BA) foi o melhor da região, conquistando a modesta 10ª colocação geral.

O mesmo tipo de “compensação” se deu no advento do torneio nacional por pontos corridos, em 2003. A CBF “sugeriu” aos clubes que extinguissem os torneios regionais para dar espaço a seu novo calendário. Sucumbiu na investida o único destes campeonatos que realmente tinha sucesso: o “Nordestão”. Havia voltado em 1997, após muito esforço dos clubes nordestinos, e era disputado em paralelo a outros torneios regionais, como o Rio-SP, o Sul-Minas e o do Norte.

O argumento da falta de um calendário que permita estas competições sempre foi capenga. Os grandes torneios de 1968-70 aconteciam paralelos aos Zonais Norte-Nordeste, que classificavam os clubes da região para as fases finais da Taça Brasil. Nas mesmas temporadas aconteciam campeonatos estaduais de dois ou mais turnos. Mas a CBF amparou-se no falso argumento e exigiu o fim do torneio, mesmo que isso significasse descumprimento de contrato que garantia sua realização por alguns anos.

Além disso, os campeonatos estaduais ocupam hoje quase quatro meses do ano. Poderiam ser facilmente ser reduzidos, abrindo espaço para um campeonato nordestino. O problema é que certas federações, principalmente a pernambucana, têm receio de perder poder e controle sobre o futebol. Afinal, reúne três clubes de grande porte. Para compreender o papel que cumpre Carlos Alberto Gomes de Oliveira, presidente da entidade, vale ler uma entrevista que concedeu à Tribuna do Norte.

Mais recentemente, alguns clubes voltaram a se empenhar pelo resgate do Campeonato do Nordeste. Mas o fazem de forma atropelada e desorganizada e enfrentam o boicote de federações temerosas de entrar em atritos com a poderosa CBF.

Em 2010, quanto ressurgiu aos trancos e barrancos, o torneio nordestino foi desprezado pelos clubes pernambucanos. O Sport nem ao menos participou. A atitude estendeu-se à Bahia, cujos clubes disputaram com elencos de atletas abaixo de vinte anos (“sub-20”). Tudo poderia ter sido diferente, se as federações e clubes nordestinos ousassem, por exemplo, cobrar a dívida que a CBF contraiu com a Liga do Nordeste em 2003, por conta da quebra do contrato. Ao invés disso, abriram mão dos recursos a que tinham direito e não reuniram nem organização, nem coesão política para promover o torneio regional de forma eficiente.

Uma estrutura de dependência

Esta sequência de insucessos tem raiz em fatores estruturais. Alguns dos maiores clubes nordestinos – Bahia, Vitória (BA) e Sport (PE) atrelaram-se ao chamado Clube dos 13, fortemente controlado pelo eixo Rio-São Paulo. Tornaram-se reféns: sem disposição de se articular de modo autônomo, seguem uma lógica segundo a qual é melhor participar do grupo de modo submisso (o que lhes dá acesso a certas verbas) do que estar ausentes (como os pernambucanos Náutico e Santa Cruz). Ao paulistas e cariocas do Clube dos 13, obviamente não interessa o fortalecimento dos nordestinos. Já basta dividir influência e poder com mineiros e gaúchos.

Com o afastamento de Ricardo Teixeira na CBF, abriu-se um espaço de barganha e de disputa política – mas isso apenas comprovou a fraqueza dos clubes “fora do eixo”. Os dos nordeste mostraram-se inaptos a qualquer influência, mesmo no jogo sujo da politicagem cartoleira. Para acalmar qualquer possível rebeldia, José Maria Marín, o substituto de Teixeira, assinou documento que reconhece a Copa do Nordeste, mesmo que a Liga da região ainda não tenha consenso sobre praticamente nada referente ao futuro torneio.

Se a ideia for fortalecer o futebol, não faltarão alternativas. Elas incluem: 1) acabar, ou ao menos reduzir os estaduais deficitários, de vergonhosa qualidade e extensão injustificada; 2) substituí-los por um torneio regionalizado, resgatando as rivalidades inter-estaduais (baianos x pernambucanos, paraibanos x pernambucanos, alagoanos x sergipanos, cearenses x potiguares).

A mudança trocaria campeonatos estaduais desinteressantes e de baixíssimo nível técnico por uma competição capaz de inflamar torcidas, de colocar em confronto (e, portanto, estimular) equipes que têm importantes qualidades. As vantagens são claras. Mas o interesse pessoal dos cartolas nordestinos, exacerbado e ilógico, dificilmente permitirá o ressurgimento de um grande torneio esportivo regional.

Repare que a rearticulação do Nordeste seria lógica até mesmo se você tirar os interesses esportivos do horizonte. Há sete federações estaduais no Nordeste, da Bahia ao Ceará (já que Maranhão e Piauí articulam-se com a região Norte). Na eleição para presidência da CBF, votam os presidentes das federações. O Nordeste é o segundo maior “colégio eleitoral” do país – atrás apenas do próprio Norte, ainda mais desassistido.

Se a região é tão grande, por que não se fortalece em torno de uma unidade, como a Liga do Nordeste? Ela teria enorme capacidade de barganha na CBF. Caso essa pergunta ainda lhe pareça sem respostas, peça esclarecimentos a Virgílio Elísio, ex-presidente (até 2008) da Federação Baiana de Futebol. Virgílio é amigo pessoal de Ricardo Teixeira e atual Diretor de Competições da CBF. Sua presença e comportamento no posto encarnam a posição subalterna a que o Nordeste ainda se conforma.

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