Rio Grande do Norte, sábado, 25 de outubro de 2014

Carta Potiguar - uma alternativa crítica

publicado em 9 de maio de 2012

Resenha: Frankenstein (Mary Shelley)

postado por Uiara Nunes

A palavra “Frankenstein” certamente chegou à maioria de nós através dos mais variados filmes e desenhos inspirados na obra da escritora inglesa Mary Shelley (1797 – 1851). Ela suscita imediatamente a imagem clássica e já caricaturada de um monstro verde, gigantesco e que, por vezes, pode até ser simpático. E a grande difusão deste personagem, assim como da imagem do cientista louco, não foi por acaso. Considerada uma das primeiras obras de ficção científica, “Frankenstein; ou o Prometeu Moderno” (1818) constitui mesmo uma história de horror emblemática para os tempos atuais. Apesar disso, a começar pelo fato de que o nome do monstro não é Frankenstein, e outros tantos pontos importantes, esta obra trágica ainda pode surpreender o leitor moderno.

Imagem: twm1314

O jovem Victor Frankenstein, um dedicado estudante de Filosofia Natural, desejava “explorar poderes desconhecidos, e desvendar para o mundo os mistérios mais profundos da criação”¹. Numa busca cega e inconsequente, acaba por descobrir o segredo da vida e criar um monstro a partir de restos mortais de seres humanos. De quase 2,5 m de altura, pele amarelada e insuficiente para cobrir seus músculos, suas feições eram tão horríveis que nenhum ser humano suportaria ver. A criatura e o terror provocado por ela eram inomináveis. Frankenstein, ao dotá-lo de vida, percebe quão abominável era a criação e foge aterrorizado.

Abandonado à própria sorte, a criatura passa por um doloroso processo de descoberta de si mesmo e do mundo que o circunda. Inicialmente bom e puro, ele descobre paulatinamente que suas feições monstruosas o impedem de ter qualquer contato com o ser humano, que será sempre um monstro solitário, anômalo à natureza e violentamente repudiado até mesmo pelo próprio criador – “Maldito criador! Por que formaste um monstro tão horrível que até mesmo você me deu as costas em desgosto?”¹.

A dor do monstro é a do trágico conhecimento da sua condição. Ele é um excluído que se encanta com a beleza do mundo e dos homens e que, ao mesmo tempo, é tomado pela fúria por ter vedada a entrada naquilo que seria o Paraíso. Este é o conhecimento que vem à tona no seu despertar, o que o faz voltar-se contra o seu criador e levar ambos à danação.

Neste sentido, a criatura aproxima-se do Satã do “Paraíso Perdido” (John Milton), como ela mesma afirma para Frankenstein: “eu sou tua criatura; Eu deveria ser o seu Adão, mas eu sou o anjo caído (…). Em todo lugar vejo bem-aventurança, da qual apenas eu sou irrevogavelmente excluído. Eu era benevolente e bom; o tormento me fez um demônio”¹.

Imagem: Wikipedia Commons

Apesar de ser o monstro o autor de crimes terríveis, ele não é o único culpado: “Serei eu a ser o único criminoso, quando toda a humanidade pecou contra mim?”¹. O verdadeiro e maior crime de Frankenstein, além do excesso contra Deus ou contra a Natureza (afinal, ele é o Prometeu), é o de não compadecer-se por sua criatura². Ele que, ao abandoná-la, transformou-a em um demônio – “Você me fez miserável além da expressão”¹. Por isso, Frankenstein também padece com o fardo da culpa. De acordo com Mary Shelley, não há um monstro na obra – “trate alguém mal e ele se tornará mau”, afirmava. Na verdade, faltou em Frankenstein a capacidade de sensibilizar-se, ou seja, faltou nele uma das pedras de toque do movimento romântico (sim, Frankenstein é uma obra romântica).

Além de o monstro estar sempre entre as condições de Adão e de Satã, ele também é comumente interpretado como “a outra metade” de Frankenstein. Uma das ideias mais importantes do Romantismo está expressa nas seguintes palavras do poeta inglês Percy Shelley: “A criação (…) é uma expansão, é um fluxo da alma direcionado para fora”³. A criação, considerada uma emanação da alma, seria, portanto, a massa caótica e latente das emoções tomando uma forma definida. E como emanação, a criação seria também uma parte solipsista do ser que cria. Por isso, Frankenstein e seu monstro são interpretados como metades do mesmo ser. O monstro seria o poder criativo de Frankenstein encarnado, a sombra do eu².

“Frankenstein; ou O Prometeu Moderno”, embora tenha algumas falhas apontadas pelos críticos, é um bom representante do ideal romântico em que estava inserido. Faz também o leitor revisitar a eterna condição prometéica do homem e condoer-se da tragédia indissolúvel daqueles que são culpados e, concomitantemente, dignos de pena. Por fim, é profético para nossa era cientificista. Da obra, Mary Shelley faz ecoar até os nossos dias um questionamento a todos aqueles que mergulham numa busca cega pela ciência sem limites éticos: “Como te atreves a brincar assim com a vida? (…) Homem, quão ignorante tu és na tua soberba da sabedoria”¹.

 

1 SHELLEY, Mary. Frankenstein. Lodon: Penguin Books, 1994.

2 BLOOM, Harold Bloom. Introduction. In: BLOOM, Harold (ed.). Bloom’s Modern Critical Interpretations: Mary Shelley’s Frankenstein. New York: Infobase Publishing, 2007.

3 ABRAMS, M. H. The Mirror and the Lamp. London: Oxford University Press, 1953.

TROPP, Martin. The Monster. In: BLOOM, Harold (ed.). Bloom’s Modern Critical Interpretations: Mary Shelley’s Frankenstein. New York: Infobase Publishing, 2007.

 

Imagem: reprodução/capa

Título: Frankenstein

Autor: Mary Shelley

Editora: L&PM

Páginas: 256

Preço sugerido: R$ 15, 50

 

 

 

 

 

 

Uiara Nunes

Uiara Nunes estuda literatura, é colunista e integrante do conselho editorial da Carta Potiguar. E-mail: uiaranunes@gmail.com

3 Responses

  1. Thiago Leite disse:

    Faz tempo que li esse livro e sua resenha me fez entender que, na verdade, o monstro é a própria humanidade, que transforma a criatura num ser cruel. Lembro das tentativas da criatura de encontrar alguém que o tratasse bem, mas nem mesmo uma criancinha deixou de sentir horror ao ver um ser tão diferente. Só mesmo um velho homem cego poderia sentir compaixão pela criatura. Foi a inclemência dos humanos (a começar com a do próprio Frankenstein, que não conseguiu adotar como filho sua própria criação) que o transformaram num monstro.

    Gostei da seu artigo.

    • Uiara Nunes disse:

      Acho que é por aí mesmo, Thiago. E é legal você ter mencionado a cena da criança. Ora, se exatamente no Romantismo a criança passou a ser retratada como um ser puro, pois mais próximo da natureza e ainda não moldada pela artificialidade da sociedade, Mary Shelley parece não ter sido nada otimista em relação à humanidade (detalhe: a criança sente o horror, mas é uma tremenda de uma malcriada com a criatura, rsrsr). Pessoas simples, normalmente camponeses, também eram os preferidos dos poetas românticos. No entanto, a família do velho cego, que estava bem próximo desse ideal, rechaçou a criatura. Enfim, nem mesmo o estereótipo idealizado da época parece ter sido uma esperança para salvação do homem. 

  2. Douglas Fernandes disse:

    Muito boa sua resenha, vai me ajudar bastante, futuramente vou escrever uma com enfoque nas questões filosóficas do seculo XVIII.
    Quem quiser acompanhar seria um prazer.

    http://www.facebook.com/PortalAlexandria

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