Rio Grande do Norte, segunda-feira, 25 de julho de 2016

Carta Potiguar - uma alternativa crítica

publicado em 4 de fevereiro de 2013

Silas Malafaia e a Teologia da Estupidez: Homossexuais e Bandidos?

postado por Alyson Freire

Não há surpresas ou novidades quando o pastor Silas Malafaia fala. Cada vez em que é entrevistado ou empresta sua voz para algum programa de natureza política ou religiosa, assistimos e ouvimos o mesmo desfile de preconceitos, inverdades e sofismas. Bem sabemos que os disparates e infâmias habituais de sua retórica convicta e fundamentalista enojam e irritam. Entretanto, convém não perder a capacidade, e a paciência, de nos chocarmos e nem “acomodar com o que incomoda”, como diz a letra de uma bela canção.

E por que não devemos nos calar ou tão simplesmente dar de ombros, ignorar a ignorância? Porque o silêncio nos torna cúmplices da ignorância. Aliás, se é verdadeiro que em certas circunstâncias o silêncio pode ser mais eloquente do que a palavra, em outras o silêncio é o adubo fértil para o crescimento da ignorância e da barbárie. Por isso, cabe não calar. Falar a verdade ao poder e criticar os preconceitos é combater incansavelmente contra o silêncio que naturaliza ambos.

Voltemos, pois, a Malafaia, este paladino e missionário do ódio. Coube a jornalista Marília Gabriela a hercúlea tarefa de suportar o discurso de Malafaia, entrevistando-o em seu programa “De Frente com Gabi”. E se a jornalista por vezes se exaltou com as afirmações do pastor ou por este a atropelá-la em suas perguntas e raciocínios, penso que ela aguentou em nome de um compromisso com a verdade e com a sensatez; afinal, a mentira para ser desmascarada deve ser antes exposta.

O que disse o pastor desta vez? Num exemplo cristalino de homofobia cordial, disse que amava os homossexuais da mesma forma como ama os bandidos: “Eu amo os homossexuais como amo os bandidos”. Este amor misericordioso que Malafaia afirma cultivar não passa de um ardil ideológico que finge aceitar e acolher mas apenas para tentar “corrigir”, “reorientar”, “ajustar”. Em outras palavras, domesticar e “curar” a homossexualidade segundo os “meus valores” e “minha verdade”. Não creio que os homossexuais precisem deste amor denegador da liberdade e da autonomia individual. O amor de Malafaia é um amor tutelar, de correção moral e interesseiro.

A correlação valorativa entre “homossexuais” e “bandidos” é odiosa. Ela objetiva reforçar o vínculo entre homossexualidade e desvio, sustentando, sorrateiramente, a ideia de que a homossexualidade assim como o fenômeno da delinquência atenta e prejudica a sociedade. Em outros termos, a analogia diz o seguinte: os bandidos existem, são um fato social, mas precisamos mudá-los, puni-los e “ressocializá-los” para que não lesem a sociedade. Sem afirmar diretamente, Malafaia pensa o mesmo sobre os homossexuais; eles são um fato social, existem, mas precisamos corrigi-los para que não lesem à família, os bons costumes, às leis naturais, à palavra de Deus etc..

A piedade e a compreensão amorosa do pastor são, com efeito, estratégias retóricas para a normalização pastoral e sexual. Nesse ponto, Malafaia se serve abundantemente de preconceitos e concepções de gênero, família e sexualidade que não se sustentam, nem do ponto de vista do conhecimento científico nem socialmente – haja vista todas as transformações culturais, sociais e jurídicas das últimas décadas.

Tentando atenuar os aspectos mais, digamos, etnocêntricos e interessados de suas opiniões, o pastor recorre a ciência em vez da religião pura e simplesmente; refugia-se em argumentos pseudo-científicos e pesquisas que nunca cita a fonte, Malafaia busca, com isso, preencher de autoridade, poder de verdade e neutralidade os seus preconceitos e sua intolerância. À bem da verdade, Malafaia achincalha a ciência – mais uma razão para não nos calarmos.

Quando prenuncia, num claro julgamento moral e especulativo, que a formação de famílias homoparentais ou a criação de filhos por casais homossexuais terá consequências sociais e psicológicas nefastas e nocivas, Malafaia esquece que, segundo Freud, a família independentemente das orientações sexuais do casal é a origem e o palco da maior parte dos problemas emocionais e psíquicos por conta dos conflitos subjetivos que envolvem a constituição do eu nas relações e identificações familiares. Aliás, a grande maioria das psicoses estudadas por Freud era produto das dinâmicas emocionais, repressivas e traumáticas da família vitoriana.

O artigo “Desconstruindo preconceitos sobre a homoparentalidade” dos psicólogos Jorge Gato e Anne Maria Fontaine cita diversos estudos psiquiátricos, psicológicos, sociológicos e antropológicos que desmentem as pré-noções estigmatizantes de que a criança em famílias homoparentais sofreria danos em seu desenvolvimento psicológico. Todos os estudos mencionados pelos autores foram unânimes na constatação da não-existência de uma excepcionalidade ou de diferenças substanciais que tornem a homoparentalidade especialmente danosa para o desenvolvimento emocional, cognitivo e sexual da criança em comparação às famílias heteroparentais. Inclusive, em algumas casos, de mães lésbicas, por exemplo, estudiosos verificaram um ambiente familiar no qual as crianças sentiam-se mais a vontade, livres e confiantes em discutir temáticas de caráter emocional e sexual, ocasionando um efeito positivo no desempenho escolar.

Em contrapartida, as dificuldades das crianças criadas em famílias homoparentais aparecem exatamente no plano das relações sociais, ou seja, os obstáculos na aceitação e reconhecimento social por conta de contextos sociais discriminatórios como a escola. Mas, ainda assim, os estudos mostraram variações importantes nesse ponto a depender do país e região.

O que podemos concluir sobre os resultados das pesquisas científicas é que os problemas que estas crianças enfrentarão no futuro decorrem precisamente  de pessoas como Malafaia. Quer dizer, do preconceito, da intolerância e da ignorância que Malafaia pratica, semeia e propaga.

Portanto, o que atrapalha e lese o desenvolvimento psicológico e social é o preconceito e a intolerância, os quais Malafaia transforma em bandeira. As religiões se tornam nocivas à humanidade quando são eivadas de ódio e ignorância por profetas fundamentalistas e intolerantes que alimentam incompreensões.

Por mais que canse, devemos continuar a combater e criticar os absurdos odiosos do pastor Malafaia, pois ele, por sua retórica e status, goza de um poder de interferência na vida social capaz de favorecer violências simbólicas e físicas contra grupos e minorias sexuais que já tem de enfrentar práticas homofóbicas em seu cotidiano. Se não quisermos cair presas da retórica do preconceito e sua violência simbólica, devemos sempre exercitar a crítica pública. É com ela que podemos cultivar uma cultura de direitos humanos e de reconhecimento capaz de transformar uma esfera pública refratária ao debate racional dos direitos e das violências sofridas por minorias e grupos vulneráveis em uma esfera pública refratária a estupidez, a barbárie e ao preconceito. Para essa transformação ocorrer, então, é preciso jamais se cansar de se contrapor ao preconceito.

___________________

Artigo “Desconstruindo preconceitos sobre a homoparentalidade”: Leia-o aqui.

Entrevista de Silas Malafaia no Programa De Frente com Gabi: assista-a aqui.

Imagem: Divulgação/O DIA

Alyson Freire

Sociólogo e Professor de Sociologia do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia (IFRN). Mestre em Ciências Sociais - UFRN. Pesquisador do NUECS-DH (Núcleo de Estudos Críticos em Subjetividades e Direitos Humanos UFRN). Editor e integrante do Conselho Editorial da Carta Potiguar. Contato: alyson_thiago@yahoo.com.br

8 Responses

  1. Lucas disse:

    sobre o pastor e religiao, fico com duas noticias do uol. Noticia boa, uma fiel arrependida conseguiu recuperar 70 mil reais doados a universal sob forma de dízimo, ah se a moda pega, noticia ruim, a proxima novela das 9, a dita heroína sera evangelica, vale lembrar que um mes antes, em uma visita de varios pastores entre eles malafaia a rede bobo, o mesmo solicitou da diretora artistica da globo que a personagem principal da novela das 9 fosse evangelica, pelo visto o pedido foi prontamente atendido.

    Sobre o tema homoparentalidade, sou a favor da uniao estavel de homosexuais, sao direitos civis individuais que nao tem motivo para serem negados, porem a homoparentalidade sou contra, sobre os estudos citados, temos varios casos de pesquisas que tiveram seus dados alterados para caber dentro da tese do pesquisador, nao tenho como afirmar se esse é o caso, so sei que adotados de casais homosexuais, sofreriam um bullying na escola, na rua, entre amigos, que talvez esse estudo nao tenha levado em consideração, e essa é a realidade dos fatos, criança nao perdoa e tenha certeza, nao perdoariam filhos de casais homosexuais, tenho la minhas duvidas se esse tipo de adoção ou criação realmente nao traz um mal para a criança

  2. Parabéns excelente artigo e análise crítica

    • Ivan Regis disse:

      A argumentação realmente ficou excelente, muito rebuscada e até poética em alguns pontos. Mas, a analise crítica elaborada para “combater e criticar os absurdos odiosos do pastor Malafaia” ficou incompleta…

      Ora, por que motivo o autor não comentou os seguintes pontos do debate: Os gêmeos homozigóticos onde um é gay e outro não, os pares de cromossomos (masculino e feminino), e o caso da lésbica que foi reorientada por Freud e passou a ter práticas heterossexuais?

      Onde está a homofobia e a religião nestes assuntos?

      Diga ao autor para criticar isso! Se ele conseguir, daí sim lhe darei os parabéns e direi que este foi um “excelente artigo e análise crítica”…

      Passar bem!

  3. Benedito disse:

    Sobre o texto, apenas aplausos.

    Sobre o comentário do leitor Lucas, entendo o ponto de vista dele. Principalmente se a intenção dele é realmente evitar sofrimentos para a criança por causa do bullying, e não por ele duvidar sobre a capacidade de pais homossexuais de educar e dar amor para os filhos.

    Porém, a forma de acabar com o bullying não é essa. Seguindo o mesmo raciocínio dele, então os pais estão em uma situação econômica diferente dos outroa pais, ou se eu tenho um filho gordo, ou negro, ou com qualquer outra característica que possa transformá-lo em vítima dos outros coleguinhas, não deveriam matriculá-lo em escolas e privá-lo de convívio social?

    O bullying não é praticado apenas contra crianças que tem pais do mesmo sexo. Inclusive, acredito que seja uma minoria, visto que não é tão comum famílias homoparentais com filhos.

    Pensar assim só reduz a problemática. E pior, pode ser entendida como uma forma preconceituosa de prejulgar uma situação. Como se combate o bullying? Com educação. Com firmeza. Com atitude. Dos pais da vítima (ensinando ao seu filho que ele não tem problema algum, que sua cor, suas características físicas, sua capacidade econômica, ou seus pais, não tem nada de errado); dos pais do agressor (não aceitando esse comportamento, educando-o para respeitar os outros, para saber conviver com o diferente e ser uma pessoa de bem); e da escola (tolerância zero para a violência, pois trata-se de um ambiente de formação muito importante para o futuro das crianças).

    Eu fui bolsista no Colégio Marista aqui em Natal. Meus pais, na época, não tinham condição de pagar uma escola particular de qualidade para mim e para os meus 2 irmãos. Todos nós 3 sofremos bullying devido a situação financeira da família, e por sermos bolsistas. Muito. Inclusive por parte de alguns professores e alguns membros da diretoria. Mas agradeço aos meus pais por não terem pensado que me tirando dessa escola, me segregando do convívio da escola particular, ou se envergonhando da situação econômica deles, iriam me proteger. Aguentei firme e forte. Aprendi valores dentro de casa que me fizeram enfrentar tudo de cabeça erguida. Não foi fácil. E nunca tive na minha cabeça que eu estava errado. Muito menos meus pais. Errado eram os outros.

    • Lucas disse:

      Benedito, concordo que a educação que se oferece em casa independe da forma como o casal é constituído, so estou levantando a tese de que enfrentar a adoção por casais homosexuais vai muito mais alem do que so considerar a educação que se possa oferecer em casa, é preciso considerar se a sociedade esta preparada para receber essa forma de adoção, porque essas crianças vao passar por problemas que é facil dizer vamos combater com educação, dificil é conseguir essa consciencia.

      Olha conheci crianças que passaram o mesmo que voce, e nao aguentaram, se voce conseguiu parabens, parabens mesmo porque deve ser muito dificil, mas sera que seu caso é regra ou excessao? Outros casos de bullying sao mais faceis de serem combatidos porque pelo menos a um certo consenso da sociedade que isso deve ser combatido, mas sera que filhos de pais evangelicos que aceitam a lavagem cerebral feita pelos pastores vao querer educar seus filhos para aceitarem essa situação e assim nao bulinar essas crianças? mesmo hoje em dia, com tantos dias do orgulho gay, com passeatas, com presença na tv, ainda é dificil para homosexuais assumirem sua condição, imagina como sera enfrentar uma situação que ainda é nova como é no caso de crianças adotadas por pais homosexuais, sinceramente nao sei se o estado e a sociedade como um todo estao preparados para tanto.

      Todos os fatores precisam ser amplamente discutidos, para que os problemas sejam minimizados, levar essa proposta a ferro e fogo é perigoso demais, e nao considerar os estragos que essas crianças podem sofrer ou simplesmente deixar acontecer e transformar essas crianças em cobaias para saber se é possivel ou nao essa forma de adoção é inadmissivel no meu ponto de vista.

  4. Ótima matéria, argumentos muito claros e objetivos. Espero que seja esclarecedor para todos que não tenham uma opinião formada ou que venham a cometer qualquer tipo de preconceito contra essa minoria. O comentário do Benedito foi uma conclusão e uma experiência que sintetizam muito bem a ideia. Valeu a leitura ^^

  5. Ivan Regis disse:

    As vezes, me pergunto se há algo errado em descobrir q a homossexualidade não é uma herança genética, mas sim um comportamento, um gosto, uma prática como outra qualquer (como a heterossexualidade, por exemplo)…

    O que há de errado em afirmar que um homossexual pratica a homossexualidade não por que nasceu assim, mas porque aprendeu este comportamento (assim como aprendeu a falar e andar, vendo e assimilando outras pessoas fazendo o mesmo)? Acredito que se um homossexual descobrir que aprendeu a ser gay ao invés de ter nascido gay não faz diferença alguma. É irrelevante!

    Eu serei menos ou mais gay se algum dia a genética descobrir que ninguém nasce gay, mas se torna um?… Acredito que essa questão deve ser analisada sem paixão e sem emocionalismos tanto por religiosos como por homossexuais.

    Não estou aqui defendo pastores (alguns me dão asco). Estou aqui tentando fazer uma observação sobre uma questão fundamental que se encontra no bojo de toda essa discussão. A questão é essa: Eu nasci homossexual ou me tornei um homossexual? Essa é a questão!

  6. Ivan Regis disse:

    Os ativistas gays não estão lutando contra o Malafaia… Eles estão lutando contra a Bíblia… Analise a história e veja o que aconteceu com quem tentou essa façanha!

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