Rio Grande do Norte, quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

Carta Potiguar - uma alternativa crítica

publicado em 29 de dezembro de 2014

Ditadura Militar e Psicanálise: recordar, elaborar e ressignificar

postado por Anderson Soares

ditaImportante saber que o país vive um momento propício para se tocar num dos episódios mais tenebrosos de sua história: a ditadura civil-militar (1964-1985) que produziu inomináveis traumas e profundos atrasos no desenvolvimento civilizatório e republicano do país. Em dias atuais temos a possibilidade de olhar o tema com um poderoso viés psicanalítico, que nos proporcionará a consciência das gerações mais jovens sobre o significado e efeitos de regimes arbitrários, fascistas e ditatoriais (de todas as tinturas e retóricas).

Ao utilizarmos como referência um artigo de Sigmund Freud (“Recordar, Repetir, Elaborar”, 1914), procuramos entender que o país carrega imensos resquícios e traumas relacionados ao período ditatorial. Por isso, que, ao invés destes traumas ficarem submersos fomentando repetições inconscientes (compulsão à repetir), é altamente necessária uma “recordação” que seja capaz de produzir elaboração e ressignificação diante dos dias presentes e futuros.

São inúmeras questões relevantes que o país precisa recordar e elaborar sobre este tema, por exemplo, que a ditadura e todas as suas violências e arbitrariedades se solidificaram por conta de um significativo apoio civil-empresarial (a TV Globo parece ser o caso mais explícito e vergonhoso). Uma parcela significativa da sociedade que achava necessário a manutenção de seu poder, promovendo violações de direitos humanos e arbitrariedades inomináveis.

Outra importante questão à ser apresentada às novas gerações é do sadismo praticado por agentes do Estado, que se deleitavam com o martírio dos corpos de prisioneiros políticos, em sessões de torturas inomináveis. Indivíduos de comportamento patológico, não sentiam culpa pela crueldade, mas que curiosamente levavam um cotidiano comum (esposa, filhos, futebol, horários, cerveja, etc). Respostas que podemos encontrar na tese de banalização do mal de Hannah Arendt.

Mesmo aqueles que não tinham nenhum envolvimento com a luta armada, mas que eram considerado opositores também foram levados para tortura, banimento ou assassinato, conforme cada contexto. Bastava algum cidadão dizer que a ditadura era algo arbitrário e desumano para logo ser taxado de comunista ou defensor de ditadura castrista/maoísta (A JUSTIFICATIVA MAIS PRECIOSA DA SEGURANÇA NACIONAL). Pois, a partir do AI-5 (1968), os agentes do Estado tinham “direito” de sequestrar e sumir com indivíduo sem dar nenhuma satisfação, já que os direitos civis foram suspensos em nome da “segurança nacional”.

Quando não havia sustentação e respaldo, os próprios ditadores propuseram uma anistia que os beneficiava  para promover silenciamento e ESQUECIMENTO mútuos (como se isso fosse possível em termos psíquicos e emocionais). E como se não houvesse desproporção absoluta entre as forças: a violência clandestina de contestação diante de governo ilícito, arbitrário que cometia crimes com o aparato do Estado.

Por isso que hoje podemos ouvir de apoiadores da ditadura (detratores da comissão da verdade: “isso é revanchismo, já houve a anistia”.) coisas do tipo: “Não foi uma guerra? Então que se investigar crimes dos dois lados”. Um raciocínio bastante conveniente para quem não é capaz de reconhecer que recursos, servidores e prédios públicos foram utilizados sistematicamente para promover perseguições, torturas. Crimes contra humanidade foram cometidos e as violações dos direitos humanos não foram atos isolados ou excessos de alguns truculentos, mas, política de Estado que tinha conexão com outros governos fascistas e importante apoio dos EUA.

Podemos afirmar que a ditadura civil-militar conseguiu cumprir sua missão, que foi a de manter a ordem burguesa e impedir qualquer tipo de mobilização política que comprometessem os privilégios econômicos dos grupos civis que apoiaram o golpe. Grupos, que, hoje, por pura conveniência, são “democratas” e envergonham-se (alguns) de terem apoiado uma ditadura.

psique Neste momento é importante estes crimes virem à tona e os seus responsáveis punidos. Os que foram vitimados, ao elaborarem suas memórias relativas ao trauma, devem ter o direito à verdade e reparação (mesmo que tardia) para que possam, em fim, ter uma relação ressignificada com seus traumas (processo subjetivo e singular).

As décadas de ditadura militar precisam ser discutidas e compreendidas. Caso contrário o país corre grande risco de não superar, apoiar e repetir as arbitrariedades. O silêncio que tanto querem os militares e fascistas, proporciona o convívio doentio com fantasmas e possibilidade que sempre estarão rondando as instâncias psíquicas coletivas (o que em psicanálise conhece-se como retorno do recalcado).

Os que estão nas ruas (ou nas redes sociais) com cartazes pedindo volta de ditadura militar, parecem resultar de um misto de desinformação com parco senso civilizatório. Carrega em seus imaginários a fantasia de que governo ditatorial tem melhor controle sob a corrupção e violência. Não querem saber, por exemplo, que as décadas de ditadura apenas reforçaram o poder das elites econômicas e combatia a violência com seus critérios de “limpeza social” muito bem direcionado.

Todas as ditaduras (seja do “proletariado” ou da ordem burguesa: arbitrárias e incivilizadas) precisam ser combatidas. Sejam elas de qualquer tintura e discurso (Fidel, Stalin, Médici, Vargas, Hitler ou Mao), sempre significará atraso civilizatório, exaltação da bestialidade e barbárie humana.

Anderson Soares

Educador, Psicanalista e mestre pelo PPGH-UFRN (área de concentração: corpo, sexualidade e política do comportamento).

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