Rio Grande do Norte, sexta-feira, 29 de março de 2024

Carta Potiguar - uma alternativa crítica

publicado em 9 de janeiro de 2015

Etnocentrismo e liberdade de expressão: por que não sou Charlie

postado por Lázaro Barbosa
E daí?

E daí?

 

Atentado contra o Charlie Hebdo, na França. Jornal satírico, que tira o sarro de todo mundo. Tá todo mundo falando em liberdade de expressão, de ataque à extrema-esquerda (1)… E tem uma coisa que me preocupa muito nisso tudo. Não, não é Diogo Mainardi sugerindo o alinhamento de Dilma ao fascismo (2). Também não é Felipe Moura Brasil defendendo que Dilma não é Charlie (jura?) (3). É bem verdade que a direita, em sua atual escalada política no Brasil, não poderia deixar de aproveitar essa tragédia e vender seu peixe, insinuando um suposto alinhamento político aos jornalistas assassinados. Sim, é ridículo pretender que o inimigo de meu inimigo é meu amigo. É como um liberal, que li esses dias, citar Hannah Arendt em um texto sobre Ludwig von Mises porque a pensadora alemã se punha contrária ao totalitarismo e identificava política e liberdade. Segundo essa mesma lógica, Walter Benjamin (e Jacques Derrida, e Girgio Agamben, e tutti quanti) poderiam facilmente ser acusados de alinhamento ao nazismo (4) – o primeiro por trocar correspondências com Carl Schmitt (sim, aquele jurista maldito, mas de grande interesse para os filósofos citados), os demais por se apropriarem de seu pensamento para discutir problemas de filosofia política. Mas aí, é que tá: a imprensa de esquerda, até onde tenho lido a respeito (incluindo aqui a Carta Potiguar), também tem martelado em cima dessa liberdade de expressão. Mal há espaço para tratar de outra coisa, a não ser uma cruzada contra o fundamentalismo islâmico sem cair na islamofobia. Quer dizer, a esquerda tem tantas ferramentas conceituais pra escapar dessa discussão e acaba caindo nela, entrando numa disputa de ego com a direita. Mais do mesmo.

***

Li, por esses dias, “1984”, de George Orwell. Já tinha ouvido falar dele em diversos contextos, citações, comentários sobre o teor do romance. Mas só agora, 2015 (31 anos após o cenário do romance, 66 após sua publicação), é que senti o horror da trama. Uma das coisas mais desesperadoras que já li na vida – “O Exorcista” é café pequeno perto do texto de Orwell. Não vou resumir a trama (procure se te interessar), mas parece que a esquerda não tá dando a mesma atenção que dava antes à mensagem do romance. A galera tá usando, basicamente, as mesmas armas que a direita (o discurso da liberdade de expressão) – como se liberdade de expressão fosse uma coisa genuinamente de esquerda, né? E foi basicamente esse perigo que foi a perdição de Winston Smith: aceitar as mesmas táticas que o inimigo para lutar contra ele. Parece que tá faltando algo mais (maior até que o 11 de setembro, ouso dizer) pra deixar a esquerda desesperada.

***

Ainda sobre a liberdade de expressão: a galera defende o Charlie Hebdo com base nessa bandeira não só pela liberdade de expressão em si, mas também pela linha humorística adotada. Dizem também que Stéphane Charbonnier, diretor de redação, “não poupava sátiras a todas as religiões” (Peschanski, link abaixo) em seu trabalho de chargista.  Essa mesma linha é adotada por Alyson Freire em seu texto a respeito (5), ao final do qual sentencia: “A sátira revela a essência da liberdade de pensamento. Por isso, devemos defendê-la contra o belicismo e as censuras dos fundamentalismos religiosos, não importa o grau de violência que utilizam nem a confissão e credo que abracem.” Mas aí existe uma falsa equivalência. Sátira (ou melhor, o humor em geral) e liberdade de pensamento não se equivalem, ou pelo menos não se equivalem enquanto coisa enquadrada em limites predefinidos, que é o pressuposto da liberdade de pensamento. Você não pode sair dizendo tudo o que pensa. A galera de esquerda não se cansa de admoestar a direita com esse papo. O humor, nesses termos, prescinde tranquilamente (epa) da liberdade de pensamento. Não quero dizer que jornalistas de verve humorística não precisam lutar a favor da liberdade de pensamento, para que todo mundo possa desfrutar dela. Mas a equivalência entre uma coisa e outra não existe, e uma coisa não depende da outra. Se isso fosse verdade, seria mais difícil ao “Pasquim” sacanear com a ditadura do que realmente foi. O humor é tão independente da liberdade de pensamento que o humorista pode dar munição ao inimigo – como Peschanski afirmou brevemente, o próprio Charb, malgré lui, fazia em relação à galera de direita (Le Pen e companhia), que aproveitava suas charges para descarregar o ódio em cima dos imigrantes e seus descendentes, além dos próprios muçulmanos.

***

Mas vamos deixar a liberdade de pensamento e expressão de lado e façamos mais um retorno no tempo. Dois anos depois de “1984”, saiu “As origens do totalitarismo”, de Arendt (a mesma que os liberais gostam de citar). Só que, antes de cair no totalitarismo propriamente dito, ela destrincha o antissemitismo e o imperialismo. Ainda vou pra segunda parte (a do imperialismo), mas, para os efeitos do que abordo aqui, a discussão sobre o antissemitismo basta. Basicamente, Arendt desmente a ideia de que os judeus não possuíram papel na construção do antissemitismo na Europa. Pelo contrário: a falta de integração política e cultural, aliada a uma série de privilégios concedidos a judeus (dispensadas a apenas alguns deles – os mais ricos, naturalmente) também os torna responsáveis por um perigo que eles deveriam ter antecipado. Quando alguns deles começaram a tomar providências nesse sentido (incluindo, na Alemanha, a criação de um partido destinado à participação deles nas eleições), já era tarde: Hitler e seus cupinchas estavam dominando tudo. Arendt fala também sobre o Caso Dreyfus, aquele militar judeu que supostamente vendeu segredos militares aos alemães no final do século XIX. Esse antissemitismo tinha, no contexto francês, o apoio do catolicismo, sequioso de recuperar o poder político que se perdeu progressivamente ao longo da história francesa. Diferentemente da Alemanha, no entanto, o antissemitismo na França não teve a força necessária para a criação de um movimento totalitário, mesmo com o governo de Vichy na Segunda Guerra. Já nas colônias, as pessoas não tiveram a mesma sorte; numa época em que havia alguma integração entre judeus e muçulmanos na Argélia, o governo francês foi decisivo para a destruição desse quadro harmônico, e os judeus se ressentiram de uma série de proibições, da escola ao trabalho.

***

Seriam, então, os muçulmanos os novos judeus? Não creio que seja abusivo comparar uns aos outros, principalmente se notarmos que o clima político desse início de terceiro milênio é tão tenso (ou mais, vai saber) que o clima do início do século XX. No entanto, a luta muçulmana por reconhecimento é, ao que parece, mais notória e visível que a de seus companheiros abraâmicos. E, por outro lado, os governantes franceses recentes não aprenderam com a história, insistindo pra valer na força da laicidade – a ponto de proibir o uso do véu por mulheres muçulmanas. Se considerarmos, como Alípio de Sousa Filho (6) e Carlos Freitas assinalaram em seus textos (7), que o islamismo é mais refratário à secularização do que o judaísmo e o cristianismo, então temos um aríete avassalador (a secularização) sendo arremessado contra uma muralha inquebrantável (o islamismo) – e ambos saindo ligeiramente amassados após o choque. De quem seria a culpa, então? Dos franceses, por não terem se empenhado na integração dos muçulmanos? Ou dos fundamentalistas muçulmanos, resistentes a essa integração? E aí discordo de Alípio quando afirma que “[é] fazer a política do algoz creditar a ocidentais a razão de atitudes de fanáticos cujos pensamentos e práticas têm origem em suas [dos fundamentalistas] próprias disparatadas crenças ou delírios, alimentados como ‘revelações’, verdades divinas’, e levados a efeito por agrupamentos violentos como alternativas de vida ao ‘estilo pecaminoso do Ocidente’.” É bem verdade que temos aqui no Brasil nossos fundamentalistas – a galera pentecostal -, mas daí a dizer que os ocidentais não têm culpa… Ora, a emergência do totalitarismo (e, a fortiori, do fundamentalismo em seus mais diversos matizes) se deu, entre outra coisas, devido à falência da democracia liberal como modelo democrático por excelência; e a democracia liberal, com todos os valores que carrega consigo, é basicamente uma invenção ocidental. Se assim não fosse, os próprios franceses (e alemães, e quem quer que seja) dariam passos ainda maiores na emancipação humana. Ou seja, Charb possui sim sua parcela de culpa, na medida em que seu trabalho se aproveitava de preconceitos racistas e islamofóbicos – justamente porque deu munição aos adversários de direita. Ou pior: usando esses elementos em seu trabalho, ele próprio se denunciava com pensamentos semelhantes à direita que tanto criticava. Ainda que não tenham sido os ocidentais a criar o inventário verborrágico do fundamentalismo islâmico, eles deram ferramentas para que esse e tantos outros fundamentalismos emergissem – e não apenas nos países muçulmanos.

***

Do que quero tratar, então? Já adiantei que não dava pra tratar o tema como um ataque à liberdade de expressão. Tampouco isso deve ser tratado como ataque à extrema-esquerda. Não devemos denunciar o fundamentalismo islâmico. Tudo isso já é feito, na verdade; os ataques à liberdade de expressão, à esquerda, bem como a denúncia do fundamentalismo islâmico, JÁ são feitos. Mas aí reside o nó górdio: os problemas são atacados sem que se perceba uma outra coisa que os contamina. E essa coisa é, basicamente, o etnocentrismo. E esse etnocentrismo é alimentado de cabo a rabo pela imprensa marrom, pela imprensa de esquerda, pelos fundamentalistas… No caso do Charlie Hebdo, esse etnocentrismo alimenta, de modo sub-reptício, alimenta o discurso de liberdade de expressão do jornal, o riso da galera de direita e a apropriação de suas charges pela galera da extrema-direita (8). A coisa foi tão bem explorada pela ~grande imprensa~ que outro atentado, em Sanaa (capital do Iêmen), matou mais de trinta pessoas no mesmo dia (9) e ninguém saiu compartilhando. Só soube do acontecido ao ler um outro texto (10), que trata de algumas teorias da conspiração em torno do atentado, mas sublinha o seguinte problema: a ambiguidade dos detalhes do atentado o tornam ainda mais poderoso, por sugerir que os autores do atentado não eram fundamentalistas islâmicos. E isso, em termos políticos concretos, significa muita coisa; significa que alguém se empenhou mais do que simplesmente colher caricaturas pra vomitar xenofobia contra os muçulmanos – basicamente, deixá-los sob o fogo cruzado da direita e da esquerda, ambas motivadas por etnocentrismo. Agradeço se alguém me enviar o texto de algum intelectual muçulmano comentando o ocorrido (11).

***

"Não é pra rir!" - De uma piada sem graça como essa?

“Não é pra rir!” – De uma piada idiota como essa? Não mesmo!

Não sou Charlie. Nem quero ser. O atentado ao Charlie Hebdo foi uma tragédia, e precisa ser investigado. Mas isso é tudo. A equipe do jornal é composta de homens brancos, que se valia da liberdade de expressão como álibi pra descarregar racismo e xenofobia para atacar todo mundo por igual (12). Liberdade de expressão não significa, como vi num comentário ao texto de Jacob Canfield (link 12, abaixo), se livrar da responsabilidade de se exprimir. Isso não quer dizer que a culpa do atentado deve recair sobre a equipe do Charlie Hebdo, mas eles são culpados de querer apagar o fogo com gasolina. Com a desculpa esfarrapada de que atacam todas as religiões, os jornalistas assassinados tentaram justificar a posição onde se situam para alimentar os ódios multiculturais e deram, por tabela, sempre munição à galera da extrema-direita. Mais ainda: eles se valeram da liberdade de expressão, tal como é concebida, pra supostamente lutar contra o fundamentalismo e outros preconceitos; deem uma olhada em algumas capas e ilustrações da Charlie Hebdo, só pra sentirem a pressão (mais uma vez, remeto vocês ao texto de Canfield). Só que essa mesma liberdade de expressão é reivindicada (e posta em prática) pela direita que eles tanto criticaram. Tanto as charges do Charlie Hebdo quanto a galera da Frente Nacional estão alinhadas em um mesmo plano: “Essa história de perseguições e negação sistemática de reconhecimento às comunidades religiosas mulçumanas não pode ser negligenciada, pois é nela que germina todos os dias novas raízes do fundamentalismo religioso” (texto de Carlos Freitas, linkado abaixo). Além disso, é perfeitamente possível atribuir  “ações e reações a processos e dinâmicas históricas e sociais, no continente europeu e em outras partes, que envolveriam relações conflituosas entre muçulmanos e cristãos ou judeus” (Alípio) aos franceses e demais nações ocidentais (no caso, europeias) sem vitimizar os fundamentalistas (se eles forem os criminosos, de fato – ninguém sabe ao certo) nem tirar sua responsabilidade pelo ato, se o houver cometido.

***

Etnocentrismo, finalmente, possui um outro nome: civilização. Quem não se encaixa nos modelos ocidentais (no caso, franceses) não conta. Esse conceito de civilização está associado a outro: tolerância, que não se resume a suportar o outro desde que ele não me mate, xingue ou zombe de mim, mas inclui exercer tutela sobre seu background cultural. Ou seja, atrelar liberdade de expressão e tolerância significa exercer tutela sobre o outro, restringindo seu lugar de fala. Já tá mais do que na hora de a esquerda abandonar esse papo.

 

 

(1) “Atentado contra a extrema-esquerda na França”, de João Alexandre Peschanski: http://www.revistaforum.com.br/blog/2015/01/atentado-contra-extrema-esquerda-na-franca/

(2) “Dilma e os assassinos do Charlie Hebdo”: http://www.oantagonista.com/posts/dilma-e-os-assassinos-do-charlie-hebdo

(3) “Dilma não é Charlie”: http://veja.abril.com.br/blog/felipe-moura-brasil/2015/01/07/dilma-nao-e-charlie/

(4)  Olavo de Carvalho fez basicamente isso em “O método Derrida”: http://www.olavodecarvalho.org/semana/060112jb.htm

(5) “Charlie Hebdo: e se fosse contra o Porta dos Fundos?”: https://www.cartapotiguar.com.br/2015/01/08/charlie-hebdo-e-se-fosse-contra-o-porta-dos-fundos/

(6) “O combate ao fanatismo religioso islâmico não é islamofobia!”: https://www.cartapotiguar.com.br/2015/01/08/o-combate-ao-fanatismo-religioso-islamico-nao-e-islamofobia/

(7) “O Islã e as tentativas do Ocidente em esquecer a história”: https://www.cartapotiguar.com.br/2015/01/07/o-isla-e-as-tentacoes-do-ocidente-em-esquecer-a-historia/

(8) Um internauta escreveu este texto, por ocasião das discussões em um fórum: “Je ne suis pas Charlie. Et croyez-moi, je suis aussi triste que vous” (“Não sou Charlie. E acreditem, estão tão triste quanto vocês”) (http://www.arretsurimages.net/articles/2015-01-08/Je-ne-suis-pas-Charlie-Et-croyez-moi-je-suis-aussi-triste-que-vous-id7366).

(9) “Atentado contra academia de polícia deixa mais de 30 mortos no Iêmen”: http://g1.globo.com/mundo/noticia/2015/01/atentado-contra-academia-de-policia-deixa-mais-de-30-mortos-no-iemen-20150107151012118730.html

(10) “O atentado ao ‘Charlie Hebdo’ foi um filme mal produzido?”, de Wilson Ferreira: http://cinegnose.blogspot.com.br/2015/01/o-atentado-ao-charlie-hebdo-foi-um.html

(11) O mais próximo que encontrei disso foi este texto (que, aliás, leio com um certo #recalque por não ter escrito ele): “Por que  não sou Charlie Hebdo – Je ne suis Charlie”, de Zuni: http://descolonizacoes.blogspot.com.br/2015/01/por-que-nao-sou-charlie-hebdo.html. Ele vai direto na pereba: “Aqueles que ostentam orgulhosos o slogan ‘Eu sou Charlie’ se dizem advogar pela liberdade de expressão, porém não questionam o que significa essa liberdade de expressão nem tampouco quem tem direito a essa liberdade. Ninguém se preocupa com a censura à liberdade de expressão religiosa islâmica na França.”

(12) “In the wake of Charlie Hebdo, free speech does not mean freedom of criticism”, (“Depois do Charlie Hebdo, liberdade de expressão não significa liberdade de criticar”) de Jacob Canfield: http://www.hoodedutilitarian.com/2015/01/in-the-wake-of-charlie-hebdo-free-speech-does-not-mean-freedom-from-criticism/

Lázaro Barbosa

Nômade, cosmopolita, nerd e chato.

6 Responses

  1. mirna disse:

    vai aprender a escrever,homi! sugiro que leia o texto de Alipio de Souza. Muito mais vitaminado que essa reflexao idiota.

  2. Gabriel E. Vitullo disse:

    Bom texto! Meus parabéns!
    Sugiro a leitura deste outro, que aponta para a mesma direção que o teu: http://www.tercerainformacion.es/spip.php?article79645

    • Lázaro disse:

      Obrigadíssimo, Gabriel! Não garanto a clareza de meu texto, mas é bom saber que existem outras pessoas (e em vários idiomas) denunciando o etnocentrismo do Charlie Hebdo.

      • Carmen Lobato disse:

        Concordo inteiramente com o que você diz, pois a Europa, quando precisou, estimulou os imigrantes a virem trabalhar em seus países. Agora, em crise, querem vê-los longe… E a intolerância, e o desrespeito com uma outra cultura – tão diferente, é verdade, mas tão legítima quanto qualquer outra?E os valores dos outros, não contam? E a religião dos outros, pode ser desrespeitada?

  3. Alyson Freire disse:

    Olá Lázaro

    Ótimo texto. É gratificante e prazeroso ler na Carta Potiguar diferentes pontos de vistas e análises sobre este episódio, cada qual enfocando determinadas dimensões, uma vez que é muito difícil dizer tudo e abordar tudo o que se gostaria – ainda mais no caso do atentado ao Charlie Hebdo em que são várias e significativas as nuanças a serem pensadas e ponderadas. Os textos acabam se complementando, mesmo que não própria e integralmente concordem entre si.

    Em meu texto, o principal consistia em defender a relevância indispensável da crítica da religião, sobretudo a crítica da intolerância e do fundamentalismo religioso, por conta do papel civilizatório e histórico que tal prática teve na formação das liberdades individuais e sociais modernas. Não defendo uma liberdade de expressão absoluta, irrestrita e indistinta contra tudo e todos. Por isso afirmei que a sátira é a inimiga máxima do poder ou dos que creem possuí-lo e que se valem dos seus meios para se sobrepor e governar os outros. Ela nos permite ridicularizar e ri do poder, desvela a megalomania e a insensatez do poder, do dogma. Poucas atitudes são tão liberadoras como a sátira.

    Não é porque integram uma minoria étnico-religiosa, profundamente marginalizada e violentada socialmente na França que grupos fundamentalistas não representam projetos de poder e de relações de dominação. A crítica contra o fundamentalismo e outros autoritarismos intolerantes deve, a meu ver, ser uma crítica radical e sem temores cujos limites não devem ser outros que não aqueles que garantem e definem claramente o que e quem se está criticando. Ou seja, os perigos do generalismo e do reforço da estigmatização. Portanto, a crítica do fundamentalismo e dos fundamentalistas – o que, no caso, não significa necessariamente concordância e adesão às práticas e concepções do Charlie -, não a crítica dos muçulmanos, dos imigrantes ou mesmo do islamismo em sua totalidade. Isso ficará mais claro no meu próximo texto em que discutirei o que pode a liberdade de expressão e pensamento, nesse caso. Abraços,

  4. Lázaro disse:

    Boa noite, Alyson,

    Obrigado pelo comentário. O grande problema é que existe uma discrepância entre recorrer à liberdade de expressão e à sátira para criticar algo (no caso, o fundamentalismo islâmico). Os limites da liberdade de expressão são mais ou menos consensuais, porque tem a lei a conformá-la. Já o mesmo não se pode dizer da sátira (e do humor em geral), porque ela precisa transgredir esses limites. Além disso, desconfio de palavras mágicas como “tolerância” e “civilização” – pois é em nome delas que o Charlie Hebdo e tantos outros se organizaram em um coro de ódio contra o Islã. A liberdade de expressão, tal como conhecemos, se ampara nessas palavras mágicas, e dá a falsa ilusão de que aqueles que as advogam são superiores aos que as criticam. Em último caso, amparar-se na liberdade de expressão (como fez a galera do Charlie) significa não admitir que se pretende exercer uma tutela (no caso, sobre a população muçulmana) e, por tabela, considerar-se superior. Por isso que afirmei, em meu texto, que falar em ataque à liberdade de expressão é um erro – pois os ataques à liberdade de expressão são feitos todos os dias.
    A questão, portanto, não é se a liberdade de expressão está sendo atacada, mas (como você fez em seu texto mais recente) o que pode a liberdade de expressão. E o grande paradoxo de seu texto (vou escrever a respeito) é que a galera (não sei se você também) quer redimensionsar a liberdade de expressão sem descartar palavras mágicas como “tolerância” e “civilização” – e, no que me diz respeito, são palavras gastas que já deram o que tinham que dar. Quanto ao fundamentalismo religioso, fico com Slavoj Žižek: “No entanto, será que os fundamentalistas religiosos realmente se encaixam nessa descrição [de que os fundamentalistas são indivíduos cheios de intensidade apaixonada e, por isso, são inferiores aos liberais]? O que obviamente lhes carece é um elemento que é fácil identificar em todos os autênticos fundamentalistas, dos budistas tibetanos aos amistas nos EUA: a ausência de ressentimento e inveja, a profunda indiferença perante o modo de vida dos não-crentes. Se os ditos fundamentalistas de hoje realmente acreditam que encontraram seu caminho à Verdade, por que deveriam se sentir ameaçados por não-crentes, por que deveriam invejá-los? Quando um budista encontra um hedonista ocidental, ele dificilmente o condena. Ele só benevolentemente nota que a busca do hedonista pela felicidade é auto-derrotante. Em contraste com os verdadeiros fundamentalistas, os pseudo-fundamentalistas terroristas são profundamente incomodados, intrigados, fascinados pela vida pecaminosa dos não-crentes. Tem-se a sensação de que, ao lutar contra o outro pecador, eles estão lutando contra sua própria tentação (http://blogdaboitempo.com.br/2015/01/12/zizek-pensar-o-atentado-ao-charlie-hebdo/)”.
    Bom, é isso por agora. Um abraço!

Política

Ditadura Militar e Psicanálise: recordar, elaborar e ressignificar

Política

O atentado ao Charlie Hebdo foi um filme mal produzido?