Rio Grande do Norte, quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Carta Potiguar - uma alternativa crítica

publicado em 11 de novembro de 2015

O Carteiro e o menino

postado por Daniel Daniel Valença

 

“O Carteiro e o Poeta” conta a história da amizade entre Pablo Neruda e um rude italiano do interior, que termina por se transformar em seu carteiro e amigo íntimo. Ao longo de suas confidências aparece, antes de tudo, a beleza extraordinária que pode brotar do ser humano.

O mesmo Pablo, em outro momento histórico, se deparou com a barbárie promovida pelo homem e morreu de desgosto ao ver o sonho de seu país livre ruir frente ao processo político que assassinaria mais de trinta mil chilenos.

Essa semana, no Rio de Janeiro, novamente um carteiro revelava o potencial de mulheres e homens. Ao ser roubado, ele correu e deteve o adolescente. Ao contrário do sentimento de vingança e ódio diuturnamente construído pelos meios de comunicação, reverberado pela turbamulta que o acompanhou, resolveu por proteger o rapaz de um linchamento e decidiu ir até a delegacia. Ao se deparar com um jovem sem pai, mãe, teto, mas de currículo com várias passagens na polícia, se viu no garoto ao descobrir ser também ele do Bairro da Mangueira. O Carteiro conseguiu se aperceber que ali não existiam naturezas humanas distintas, “o bom” perante o “mau”, o “perverso”, mas realidades econômicas, sociais e culturais que, como por um fio de navalha, poderiam inverter os papéis daquela trama.

Resolveu, pois, “seguir” ironicamente a tese de Rachel Sheherezade e “adotar seu bandido”. Ao fazê-lo, transformou uma mera ação individual num fato político sem precedentes. Ao desabafar em seu Facebook, atingiu mais de 27 mil “curtidas” e quase cinco mil compartilhamentos.

O Carteiro nos mostrou que, se a esquerda brasileira não fundou nova sociabilidade pautada em valores e cultura distintos das do período neoliberal, ainda há substrato social para tanto. A solidariedade a Patrus Ananias, o debate em torno do Enem e da questão de gênero, vários outros episódios recentes de embate entre uma via solidária ou a barbárie que se avizinha, apontam para essa possibilidade. O Carteiro demonstrou mais: estamos em um momento único e decisivo em que ações individuais frente a toda manifestação cotidiana de conservadorismo e ódio, mas, sobretudo, uma ação coletiva, política, que imponha ideias-força para a superação do neoliberalismo e seus valores, permanecem prementes e possíveis.

Redução de políticas públicas e direitos sociais ou tributação de grandes fortunas; redução da maioridade ou desmilitarização da polícia e legalização das drogas; Pré-sal para as multinacionais ou petróleo do povo brasileiro; etc. Várias são as ideias-força a se disputar para se conquistar as grandes maiorias da sociedade brasileira. E, entre a grandeza humana ou a barbárie, entre o Carteiro ou Pinochet, há apenas ação humana como determinante para qual lado a sociedade caminhará.

Daniel Araújo Valença, professor de Direito da UFERSA, doutorando em direitos humanos pela UFPB.

Ps: singela homenagem à ação do carteiro Deivid Domênico, descrita em: <http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2015/11/151109_salasocial_adoteumbandido_rs>

Daniel Daniel Valença

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