Rio Grande do Norte, quarta-feira, 01 de junho de 2016

Carta Potiguar - uma alternativa crítica

publicado em 30 de dezembro de 2015

Passo-a-passo: como sair da prisão

postado por Alice Carvalho

O título parece notícia de blog sensacionalista, eu sei, mas é que esses dias fiquei com esse sentimento de precisar perdoar e pedir perdão preso na garganta – ali entre as cordas vocais e o goto. Não tá fazendo muito sentido, aqui dentro de mim, levar uma âncora pro réveillon. É réveillon, sabe? Pra que peso? É a virada de esperança quando o relógio bate 00h, é esse sentimento bobo de “agora vai” que nos invade subitamente, é o instante em que todo adulto vira criança brincando com as possibilidades futuras. Como “agora ir” se você carrega uma âncora pra essa cerimônia tão simples e importante?

Porra boy, o universo tá quase dando a luz à  um novo ano e é sério que você vai atravessar esse portal cheio de rancor no peito? Me explica aí, campeão, qual a lógica de manter um elo feito de rancor que liga você a quem lhe magoou se, naturalmente, queremos as pessoas que nos magoam bem longe? Se afastar sem perdoar é manter distância física aproximando do coração. Seu ex que lhe traiu, sua ex que lhe trocou por algo melhor, seu pai desleixado, seu irmão ganancioso… Eles vão estar dentro de você pra sempre até que algo que de fato importa seja feito.

Faz assim: não precisa daquela pompa toda do “mea culpa” se você for orgulhozinho. Manda um “coração” pelo Whatsapp ou um áudio pelo Whatsapp ou, sei lá, chega como quem não quer nada e fala “what’s up?????”. Compra um chocotone, aparece com um vinho, dá umas flores (pode parecer piegas, mas dar flores pra alguém é o melhor pedido de desculpas. Não dá pra ser falso dando flores porque é a coisa mais complicada de se comprar, tem sempre muita pressão ao redor, é um lacinho que não combina, é um copo-de-leite que não abriu direito…). Sempre dou flores pras pessoas que eu amo – quando faço merda ou não. É uma forma de deixar claro que você se importa.

Supondo que você tá seguindo essa crônica como um passo-a-passo, esse é o momento do “após”. Agora é a hora do resto da vida. Foram aceitas? Olha aí que maravilha! Não? Nem a pau? Olha que sensacional!

Seja grato e acate o que vier. Pedir perdão é, antes de qualquer coisa, um ato de amor próprio. O que acontece depois foge do seu controle, então é seu dever se colocar na posição do outro, subverter seu julgamento de valor. Você está pronto pra perdoar e pedir perdão, mas tempo emocional é uma coisa tão relativa… Tem gente que se atrasa quando o assunto é esquecer um mal-desentendido, mas o curso natural das coisas segue e você não deve ficar preso também.

Pra algumas coisas na vida a gente lamenta e pra outras, as que importam, a gente sente muito. Sinta o que tiver de ser sentido praquele momento e cruze o portal da renovação em paz.

Abre os braços e, como o Canto de Ossanha brada bem, “vai, vai vai, vai viver”.

Agora é liberdade plena. Comemore alto: você não é mais refém de si mesmo.

 

Alice Carvalho

Atriz, comediante stand-up e escritora, Alice escreve às terças (e também em terceira pessoa).

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