Rio Grande do Norte, domingo, 26 de junho de 2016

Carta Potiguar - uma alternativa crítica

publicado em 11 de janeiro de 2016

O bom oponente e o mau oponente (ou Elogio da Boa Guerra)

postado por Wagner Uarpêik

                                                                     *  *  *

No fundo, aquele que nos combate ou hostiliza pela frente é um amigo em potencial, assim como, pela Lei da Sombra, toda inimizade declarada nos oferece (quase sempre sem saber) uma promessa de amizade verdadeira. Só um tolo permite que um adversário (mesmo o mais fraco dentre os fracos!) o encontre em circunstâncias desconhecidas e desvantajosas, mas, por outro lado, falta generosidade em quem tranca a porta da amizade para um inimigo sincero, um adversário franco – mesmo quando o pobre diabo tenta abri-la a gritos, insultos e pontapés.

samurai3Os grandes samurais e certas ordens guerreiras chinesas, escandinavas e ameríndias chegavam a tratar seus maiores inimigos com tanta elegância que não é difícil compreender que essas culturas encaravam a guerra também como uma estranha e terrível maneira de fazer amigos. Sem dúvida, mesmo o guerreiro mais impiedoso e brutal sabe que é mais fácil abraçar com honestidade alguém que você já enfrentou e feriu, do que alguém que você não atacou por medo, covardia ou pena.

Ora, mas esse nível de valentia cada vez mais raro exige um tipo de decência que só os inimigos sinceros e ostensivos são capazes de cultivar. Nossos piores adversários exteriores (os interiores são ainda mais implacáveis!) jamais subirão num ring espiritual ou literal conosco e por um motivo lógico e extremamente coerente: eles não amam a grande guerra e os gloriosos desafios que ela guarda para os guerreiros leais; eles só querem nos ver derrotados – e, aliás, quando você quer mesmo arruinar alguém, seja como for, os códigos morais e as regras de combate mais atrapalham que ajudam.

Portanto, enquanto você enfrenta seus adversários visíveis no ring, seja ele qual for (arte, política, literatura, comércio, esporte, universidade, lutas, ciência, sexo, religião…), tenha em mente que seus piores inimigos externos estarão sempre sentados nas arquibancadas laterais, esperando que você desande ou caia na arena para lhe vaiar, cuspir ou chutar a cabeça. Jamais se esqueça que o covarde sempre bate depois dos outros, nunca primeiro; essa é sua moral ganguista e traiçoeira, seja numa rede social, numa eleição, numa briga de bar, no mercado sexual local ou num artigo acadêmico internacional.

Quanto ao adversário decente, ele nunca compete por inveja: de fato, um bom oponente prefere derrotar sobretudo aqueles que admira. Quanto ao adversário ideal, esse admirável!, ele não guerreia com fúria: um bom oponente deseja superar, não destruir o adversário – na verdade, a existência deste o honra, desafia e agrada. Mas o mau oponente é um poço venenoso transbordando de inveja, dissimulação e fúria; espreite com calma cada um dos que lhe combatem e não resultará difícil reconhecer o pior dentre todos, apenas mire-o dentro dos olhos: o olhar dele será o primeiro a lhe cravar e se evadir, e sua face empalidecerá primeiro que as outras.

É mais fácil enfrentar sete titãs num mesmo ring do que um único covarde discreto, astuto e paciente.

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Wagner Uarpêik

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