Rio Grande do Norte, quarta-feira, 27 de julho de 2016

Carta Potiguar - uma alternativa crítica

publicado em 18 de janeiro de 2016

Os 10 mais interessantes escritores potiguares vivos

“Os critérios norteadores da lista são a inteligência, criatividade, originalidade e beleza no trabalho com a linguagem, não importa se em poesia, conto, ensaio ou artigo, se em literatura, ciência, filosofia, ou as três em diálogo, sem fronteiras claras, tal sucede com parte dos autores listados.”

Adoro procurar e ler escritores brasileiros. Às vezes também o faço por trabalho, como sucedeu anos atrás: fui contratada por uma editora paulista para compor um grupo de sondagem das “novas literatura(s) do Nordeste do Brasil”. Procurar novos talentos é um trabalho árduo, porém recompensador. No meio do caminho, claro, me deparei com autores do Rio Grande do Norte, principalmente da capital e Mossoró. O serviço editorial foi concluído. Minha admiração por determinados escritores do Rio Grande do Norte, contudo, prosseguiu.

De lá para cá, pela internet, por indicações de pessoas da área ou presencialmente, me deparei com mais autores interessantes. Pude filtrar minha lista de preferidos, agregados novos nomes. Extrapolando o campo mais detidamente literário, vale frisar, encontrei escritores extraordinários no campo das ciências, da filosofia e do jornalismo literário.

Os critérios norteadores da lista são a inteligência, criatividade, originalidade e beleza no trabalho com a linguagem, não importa se em poesia, conto, ensaio ou artigo, se em literatura, ciência, filosofia, ou as três em diálogo, sem fronteiras claras, tal sucede com parte dos autores listados. Escrever bem, nunca é demais recalcar, não é privilégio apenas dos – bons – poetas, contistas e romancistas.

Desconsiderei enquanto critérios em si mesmos válidos a visibilidade pública e o número de livros publicados pelos escribas. Penso que, enquanto analistas ou críticos, temos a obrigação de julgar o escritor pela qualidade da escrita em si, afinal, o que mais importa, o maior legado. Alguns dos listados abaixo publicaram somente um livro (um ou dois deles, segundo me consta, nenhum), porém, em minha opinião, redigem com esmero, fator mais significativo.

Foram priorizados os autores atuantes ou residentes em Natal (daí a exclusão do brilhante romancista Estevão Azevedo, quem tive o prazer de entrevistar há pouco tempo), e não só por que me cativaram mais desde o começo, senão em função das dificuldades temporais para vasculhar melhor os demais autores potiguares.

Reconheço ser uma lista pessoal, não se pode negar, mas tentei ser impessoal. Constam, abaixo, autores natalenses, forasteiros “naturalizados” natalenses, ou potiguares, em grande maioria jovens, e para meu espanto, dois muito jovens. Em tempo: não esqueci de ler os mais maduros.

Vamos ao que mais interessa. Esta é minha lista dos 10 mais interessantes escritores potiguares vivos. Vale muito a pena conhecê-los:

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literatura potiguar* Ilza Matias de Sousa

Veterana pensadora da literatura, o currículo da respeitada professora universitária conta com diversos ensaios importantes sobre artistas e pensadores. Possui escrita ágil, severa, fluida.

Uma pérola (trecho de ensaio):

Se a mulher não se pusesse a escrever textos literários, ela teria a própria carne para fazê-lo.”

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literatura potiguar* Pablo Capistrano

Talento mais estável da editora Jovens Escribas, o professor logra fundir temáticas filosóficas e astrofísicas com uma pegada literária açucarada e pop. Toques de comédia e a clara influência ginsbergiana deixam os livros de Capistrano ainda mais surpreendentes.

Uma pérola (trecho de conto):

O que gera o alcoolismo é a nostalgia sem fim daquele inquietante sentimento épico que toma conta da alma de todo bêbado quando ele dá a primeira mijada no banheiro do bar”.

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literatura potiguar* Nivaldete Ferreira

Formada em artes e pedagogia, a escritora desponta entre as poetas mais habilidosas do RN. Estilo mais clássico. Chamam a atenção a sutileza e a sertanejidade implícita nos poemas.

Uma pérola (trecho de poema):

O que se gera no vácuo

Inexoravelmente cumpre

A lei do habitar-se dele”

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literatura potiguar

* Wagner Uarpêik

O conceito de singularidade é indispensável para definir esse antropólogo cuja medicinal escrita transpassa os muros da ciência, filosofia e literatura, com requintes. Já confessei em outras oportunidades minha admiração por ele. Nomadismo, contundência, ironia e polifonia se entrosam no pensador-poeta que desponta entre os melhores jovens escritores do país.

Uma pérola (trecho de aforisma):

Tudo pode ser dito – a escrita facilitou demais as coisas. Mas o espetáculo foi a gota d’água, colonizando os signos à imagem do vírus: tudo poderá ser inoculado. E no princípio era o verbo…e no final o virbos.

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literatura potiguar* Daniel Liberalino

O jovem filósofo oriundo de Mossoró escreve crônicas e contos de franqueza cínica, poética, minuciosa. Tudo bem, não agrega nenhuma nuance extraordinária ao pessimismo ético e à sociopatia marcantes em parte significativa da literatura “realista” moderna, porém, isto sim: exibe sintaxes idiossincráticas e formosas na maneira de tratá-las.

Uma pérola (trecho de conto):

O sol morria como um cristo hiperplástico diluindo na broncodilatação do ocaso, a quietude litorânea reprocessada.”

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tribunadonorte.com.br* Márcio Simões

Editor (do selo artesanal Sol Negro) elogiado por escritores de peso, as obras do poeta esbanjam surrealidade, oralidade e encantaria. Apostas libertárias e xamanísticas investem os versos de força, frescor.

Uma pérola (trecho de poesia):

sonho em morrer assassinado & despedaçado por um bando de meninos e meninas seminus num assalto Violento & Inesperado tendo em seguida minha carne devorada num Grande & Alegre repasto comunitário.”

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literatura potiguar* Themis Lima

Revelação disparada da editora Tribo, que lidera, Themis pratica jornalismo literário com uma desenvoltura de botar muitos veteranos no bolso. Bandeira de Trapos é, sem dúvida, um livro debutante acima da média.

Uma pérola (trecho de crônica):

Cada indivíduo conta ao seu próprio modo um pedaço daquilo que os livros escolares sempre falharam em nos narrar.”

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literatura potiguar* Jota Mombaça

Agitador e controverso, Jota passeia em várias praias do saber. No que se refere aos poemas e ensaios do jovem escritor (que, pasmem, não deve ter mais de 23 anos) dado a codinomes, a abertura sensitiva e agudeza intelectiva impressionam.

Uma pérola (trecho de prosa poética):

Sou a restinga luminosa de uma estrela há muito morta, dissipando-se suavemente na superfície da retina até o momento do grande desaparecimento. A verdadeira palavra revolucionária jamais poderá ser escrita.”

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literatura potiguar* Lucas Fortunato

Juntamente com Edson Gonçalves e Lisandro Loreto, o sociólogo de verve poética e filosófica produziu uma das obras filosóficas brasileiras mais intrigantes dos últimos anos: o livro Machinapolis e a Caosmologia do Ser. A forte influência deleuzeana, o rigor rebuscado, próprio dos pensantes que não se esquecem de buscar a beleza na escrita, perpassam o trato com a palavra.

Uma pérola (trecho de ensaio):

Será o cinza a cor expressiva para pintar a Terra e os seres integrantes do grande absurdo que se reconhece como a própria contemporaneidade?”

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literatura potiguar* Victor H

O novíssimo poeta anuncia um futuro promissor. Tal qual a maioria dos escritores adolescentes, carece de consistência (como diz um ditado editorial, “nem todos podem ser Rimbaud”), mas, em que pese a falta, natural, não seria exagerado afirmar que está entre os cinco melhores poetas adolescentes do país. Versos singelos, despretensiosos e ao mesmo tempo recheados de sensibilidade apurada.

Uma pérola (trecho de poema):

você cheirava a loteria
e seus olhos me lembravam prismas
apontados para o lampejo de príncipes
e camas mestiças”

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Hanna Flávia Saito

Jornalista e filósofa. Tradutora e parecerista editorial. Casada com Sampa, arrebatada por Natal. Missão na Carta: entrevistas e artigos sobre literatura, cinema, música e vida cultural em geral. Não encontrou motivos convincentes para ter uma conta no Facebook.

One Response

  1. Boa safra! Senti falta da delicadeza iluminada e astuta de Michelle Ferrer “é difícil ser vela num mundo eletrificado”

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