Rio Grande do Norte, quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Carta Potiguar - uma alternativa crítica

publicado em 12 de fevereiro de 2016

Pensem bem, Abecedistas!

postado por Rafael Morais

imageInteressante a fala do Vice-Presidente de Futebol do ABC, Leonardo Arruda, na coletiva de imprensa, realizada hoje pela manhã, no Complexo Vicente Farache. A informação dá conta que a gestão anterior do ABC antecipou R$ 280 mil da cota de R$ 505 mil pela participação na Copa do Nordeste de 2016.

Segundo Arruda, foram duas parcelas distintas. A primeira no montante de R$ 200 mil em outubro/2015 e outra de R$ 80 mil em dezembro, pasmem, um dia antes da eleição para o triênio atual. E mais, apurei que, também em outubro, foram antecipados mais R$ 200 mil dos R$ 240 mil oferecidos pela disputa da Copa do Brasil.

Infelizmente essa prática é bastante comum entre as milhares e milhares de agremiações de futebol existentes nessa “terra dos 7 a 1”. O mais comum é montar elencos que custem acima da capacidade orçamentária do clube e, contando com antecipações de receitas dos anos e campeonatos seguintes, cobrir os rombos deixados pela irresponsabilidade de quem tem o poder em suas mãos.

Até aqui, tudo bem. Nada irregular. Apesar de ser um exemplo claro da incompetência e do amadorismo administrativo gerencial que predomina no futebol brasileiro, não é um ato proibido por lei, decreto ou coisa parecida da linguagem juridiquês. Mas, convenhamos, dependendo das circunstâncias e condições em que ela acontece, pode ser extremamente prejudicial ao clube.

No caso alvinegro, a antecipação foi efetuada às vésperas de um pleito eleitoral altamente conturbado e acirrado. Não havia a mínima certeza de continuidade de gestão. A possibilidade de mudanças era eminentemente razoável, frente aos péssimos resultados obtidos nos últimos anos.

A questão maior é entender que antecipar uma cota de patrocínio àquela altura do campeonato foi, minimamente, um ato antiético. São R$ 480 mil a menos na conta. Antes mesmo de iniciar um ano que prometia imensas dificuldades, criou-se um desfalque relevante nos cofres para formar o time atual e manter as demais despesas em dia. Some-se a isso a ausência de patrocínios agravadas pela crise político-financeira do país, a perda da receita proveniente do televisionamento da Série B e as dívidas acumuladas pela própria gestão anterior.

Além disso, existe outro dado importante e que foi assassinado por eles, os cartolas, nesse episódio. De acordo com o Estatuto Social do ABC, qualquer proposta de antecipação de receita orçamentária a ser efetuada, precisa da apreciação e aprovação do Conselho Deliberativo. Ato que, sem justificativa até o momento, não foi consumado.

Resumindo em uma frase curta, direta e objetiva, a gestão Rubens-Rogério-Paiva se apossou, sem aprovação prévia, de receitas que deveriam ser administradas pela gestão do ano seguinte, de Judas-Leonardo-Flávio.

E o prejuízo poderia ser ainda maior. A lei de Responsabilidade Fiscal do Esporte, popularmente conhecida como Profut, a qual o próprio ABC aderiu no final do ano passado, proíbe essa prática, quando a antecipação atinge receitas de períodos posteriores a gestão vigente. A lei permite apenas a antecipação de 30% da receita bruta anual do ano seguinte. Faz parte do pacote batizado de fair play financeiro. Se descumprido, é passível de punição, inclusive, para os gestores – prática de gestão temerária – e para o clube – exclusão do Profut.

Nesse caso, a falta de publicização de dados financeiros do clube não me permite afirmar que o valor antecipado ultrapassou o limite de 30% imposto pela lei. ABC e gestores, legalmente, saem ilesos. Não sofrerão sanções, pois as contrapartidas pela adesão ao Profut ainda não estão sendo cobradas à risca. Coisas do Brasil. Quase mais um gol da Alemanha. Mas, para um bom entendedor, não precisa nem comer carne de macaco pra ficar inteligente, como faziam alguns povos africanos, é clara e evidente a prática antiética cometida. Excessivamente irresponsável.

Dois-mil-e-dezesseis começou assim, com um time fraco, retalhado e sem grandes investimentos. Sem querer tirar o peso dos erros do início da gestão atual, é fato que os resultados do passado recente continuam assombrando a Frasqueira.

Eu sei, os torcedores, aqueles partidários, movidos pela paixão, pelo coração e pelo amor, altamente críticos, exigentes e que, na imensa maioria das vezes, vêm apenas o que lhes é favorável, não irão aceitar as derrotas tão facilmente.

Mas, relembro o que escrevi em “Não é chororô”, em 19 de janeiro, que “em curto prazo, a saída é pela gestão transparente e participativa. Compartilhar para poder cobrar participação do torcedor. E como bem disse o jornalista Vicente Serejo, nesses tempos de hoje, então, quanto mais transparente, mais forte é qualquer instituição”.

A estratégia é boa. Acredito nesse caminho de compartilhar a verdade com o torcedor, aquele que pode, ainda, ser o respiro da sobrevivência. De positivo nessa história toda, apenas o fato da diretoria atual ter aberto “a caixa-preta” das contas e tornado isso público.

Pensem bem, Abecedistas: quando foi a última vez que vocês ouviram falar em cifras no ABC Futebol Clube?!

Rafael Morais

Comunicador Social pela UFRN. Experiência em assessoria de imprensa esportiva e atuação em televisão. Áreas de interesse: literatura e esportes em geral, com ênfase no futebol como a "teatrialização das relações humanas".

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