Rio Grande do Norte, quinta-feira, 30 de junho de 2016

Carta Potiguar - uma alternativa crítica

publicado em 17 de fevereiro de 2016

Carta para São Longuinho

São Longuinho, bom-dia!

Temos um problema, pois de material já perdi muito. Abandono alguma coisa, por grande descuido, em algum lugar, e nunca mais revejo o objeto. Borrachas, lápis, canetas Bic ficam nos recônditos inexplorados do mundo para nunca mais. Além desses, perco com frequência contas pagas (felizmente!), papéis de toda qualidade e miseráveis botões que saltam das minhas roupas. Hoje, porém, estimado santo, o fato é diverso: perdi uma palavra!

Deu-se que acordei nem cedo nem tarde, com a primeira frase, do que viria a ser um conto, na mente. Uma frase nem bonita nem feia, mas justa. Cabia certinho onde eu queria. Dali, o conto rolaria ladeira abaixo e eu só deveria desenvolvê-lo ajustando miudezas que, porventura, merecessem maior cuidado. Qual era a palavra, então, meu Deus? Lembro-me das outras três – que sem a anônima não têm força alguma.

Frase tem disso, na verdade todo texto tem disso: precisa de uma palavra que dê força, que envolva o leitor em pesado mistério ou que o convide para debulhar uma história. Perdi justamente esta: a palavra-Biotônico, a palavra-espinafre, a palavra-cabelos-de-Sansão da minha frase. Que angústia, São Longuinho! Ajude-me, São Longuinho!!! Será você, tão respeitada entidade no ramo dos achados e perdidos, capaz de localizar para mim tão infeliz material? – uma palavra. Não importa, santinho, trate de empreender busca porque meu conto depende desta palavra. Espalhe, também, além das fronteiras celestes, um recado meu: a palavra é o perigo e por uma apenas põe-se a perder uma vida inteira antes erigida sobre firmes alicerces. São Longuinho, ouça bem: por uma palavra perde-se um conto, quem sabe até um livro inteiro!

Você consegue apreender o tamanho do meu desespero? Acordei com a frase, “A Frase”, dela nasceu outra… Ainda consigo lembrar, mas de nada me serve se eu não resgatar a palavra perdida que, como preciosa arca, oculta-se de mim sob a fofura das areias do esquecimento. Saiba, então: minha memória nunca foi digna da mais bondosa confiança. Sacana!, precisava sumir justo com “A palavra”? Sou capaz de barganhar as duas frases inteiras pelo desaparecido vocábulo, pois sei que ele brilhará como grande incêndio engolindo a penumbra da mata escura, que é minha terrível (des)memória. Sou capaz de elevar ao cubo os três pulinhos que são o pagamento do seu trabalho. Sou capaz de, sob grande esforço físico e matemático, multiplicar esses pulinhos o quanto você desejar. Veja só, santo detetive, negociemos: sou capaz de escrever uma crônica inteira só com agradecimentos e louvores se houver sucesso na sua busca.

Tenho de aprender de uma vez por todas: escrever logo! Nada de escovar os dentes, recorrer ao vaso sanitário ou distrair-me com tolos afazeres domésticos. Escrever é mais urgente, já que minha memória dá provas de sua incompetência e você, São Longuinho, deve estar muito ocupado tentando resgatar minhas canetas, borrachas e contas. Esqueça-as, santo homem!, a palavra é minha matéria mais importante, é substância de talhe, por vezes, certo. E, confesso, preciso agora da paz e do conforto da palavra encoberta. Não me venha com dicionários e seus sinônimos, cuide em dar conta da primeira, da dona do texto, daquela que, até da distância do meu esquecimento, é a minha senhora.

Em estágio de desespero metalinguístico,

Guilherme Henrique Cavalcante.

 

Guilherme Henrique Cavalcante

Guilherme Henrique Cavalcante, 20, matutropical: meio sertão, meio litoral — Natal/RN

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