Rio Grande do Norte, terça-feira, 24 de maio de 2016

Carta Potiguar - uma alternativa crítica

publicado em 14 de março de 2016

Conto do Rodrigo, o chato

postado por Paulo Emílio

Rodrigo é conhecido como o chato, o do contra e tudo demais pela família, amigos/amigas etc. Quando era adolescente sofria “bullen” por não gostar de música. Claro que ele não gostava, a única referência que tinha era o “molejão”. Ele não entendia como as pessoas escutavam as músicas, tinham ela de cor, mas não conseguiam compreender a falta de nexo nas letras. “Ora, o que importa é a música”, diziam. Ainda sim, ele achava ruim, pois analisando a música, achava um um som poluído cheio de batucada e só entendia a letra, se tivesse acompanhando, pois o vocalista cantava todo troncho com a língua pra fora.

Conheceu um povo estranho que se vestia de preto, com umas “pulseira de espinhos” e olhar malvado. Pronto. Era o que queria para ser diferentão. Pegou logo um álbum do Mayhem, uma banda da Noruega bem malvadona. Ficou vibrado pela banda, passou a andar com essa galera e a externar seu ódio contra “os preiboi do molejão”. Adorou essa galera.

blackAlguns anos mais tarde, se pegou num dilema. Ora, ele não gostava do povo do “molejão”, porque se exibiam com roupas de marca, a música era poluída demais, as letras eram supérfluas e não entendia nada que o vocalista falava. Bem, o povo do metal que ele andava se exibia com camisas de bandas, spikes e corpse paint, a música era bastante poluída, as letras eram idiotas e ele só entendia o que era cantado, mesmo tendo fluência em inglês, quando acompanhava a letra no encarte.

Parou o mundo. Quando questionou isso, foi duramente criticado e quase apanhou, afinal, comparar as atitudes dos true com os pagodeiros era uma heresia imperdoável. Ficou assustado com essa violência e acabou fazendo amizade com uns “doidos” que também andavam nos mesmos becos do underground da cidade.

Punks e anarquistas

Por ter referências “pesadas” em música, fez logo amizade com a galera do punk e anarquista. Bem politizado, organizado e dedicado nos estudos, passou a discursar contra formas de opressão, principalmente o machismo, a homofobia e o preconceito de classe. Adorou esse novo universo.punks

Com um tempo, conhecendo bem as pessoas que estavam ao seu redor, foi se surpreendendo com as atitudes. Os amigos homens, os que mais discursavam e apareciam na “cena” eram aqueles que… sim, se exibiam por usar roupas rasgadas e sujas, escutavam uma música poluída. As letras eram consistentes e bem questionadoras, mas a galera não entendia inglês, pois “era língua do país opressor”. De qualquer forma, cantava todas…. acompanhando no encarte. Isso, sem contar que, apesar de ter um discurso na ponta da língua contra a homofobia, faziam muita chacota com “o Fernanda”, amigo de infância deles que assumiu a transexualidade já adulto e, por isso, foi ferrenhamente criticada — o que a fez parar de andar com a galera.

Mais uma vez questionou as atitudes, foi duramente criticado, quase apanhou e, desta vez, foi chamado de “anarquista de shopping”, porque adorava jogar fliperama lá — pois é, nada a ver, nem ele entendia a relação.

Skate e hardcore

Como o punk precedeu o hardcore, as galeras das “duas tribos” — haha, ele odiava esse termo — , não andavam juntas, mas se respeitavam. Por isso, ele conhecia algumas pessoas. A adaptação foi tranquila, foi bem aceito pela galera, aprendeu a andar de skate e a remendar rasgão do tênis com “silver tape”. Adorou o povo.i shot

Certo dia, conheceu uma banda de São Paulo bem legal: I Shot Cyrus. Ficou louco quando viu a letra da música “Na lâmina da faca”, apesar de só entender acompanhando o encarte. Mostrou para todo mundo e logo a banda caiu na graça. A internet começava a se popularizar e, logo, mais e mais textos anti-machismo eram produzidos e reproduzidos.

Tudo caminhava bem e Rodrigo, finalmente, achava que tinha encontrado seu lugar. Até que um dia, uma conhecida que ficava com o Clebão, um dos mais ativistas, comentou que sofreu coação psicológica para ficar com ele. Rodrigo ficou sem acreditar, claro, era homem e Clebão era um de seus melhores amigos. Desta forma, ficou calado até que outras histórias foram surgindo de outros amigos.

Primeiro foi o Letício que tinha muito ciúmes da namorada, a vigiava 24 horas por dia, tinha todas as senhas delas nas redes sociais. Porém, era só passar uma garota na frente dele que ele assediava. Com Geraldinho foi pior. Ninguém dizia que aquele menino franzino, com fala fina e calma, tinha uma “tara” de bater de cinto sua namorada — por isso que ninguém entendia o porquê dela sempre andar de camisa manga comprida com a temperatura da cidade beirando os 35ºC. E o Jeferson? Ah, ele era ferrenho defensor da legalização do aborto, afinal dizia que usar camisinha era coisa de “viado” e que se a mulher ficasse grávida, que abortasse. De fato, quatro fizeram isso… depois que ele disse: “te vira!”.

Novamente questionou todas essas atitudes, foi bastante hostilizado e começaram a soltar boatos de que ele tava com inveja porque não “pegava mulher nenhuma”. Ficou desolado e triste, mas estava feliz com a aprovação na universidade federal.

Universitários alternativos de esquerda

“Calouro-réi-abestalhado-burro” de cabelo raspado foi logo acolhido pela esquerda partidária da universidade. Uma galerinha light, que levantava as mesmas bandeiras que as galeras do punk/anarquista e hardcore, mas que escutava música alternativa. Adorou as pessoas.

hippiesRodas de conversas, ativismo na rua, panfletagem, textos longos. Tudo isso fascinava o Rodrigo, porque ele não via nada de estranho que fizesse questionar as atitudes. Porém, numa festa, resolveram fazer um sambão. Então ele soltou sem querer: “Ué, pagode?”

Para que ele fez isso? Foi uma enxurrada de violência: “COMO ASSIM ISSO DAQUI É PAGODE? TÁ LOUCO? ISSO É SAMBA, DE RAIZ!”. Ele ficou assustado, pois nunca tinha visto os olhares de ódio da galera que pregava “paz e amor” e fazia o “v” com os dedos. Ele prontamente pediu desculpas e, então, solicitou que as pessoas explicassem a diferença.

Disseram: pagode é coisa popular, que fala de amor etc. Samba é diferente, fala sobre problemas sociais e faz críticas ao governo.

Na hora rebateu: “e essa música “Taí” do Noel Rosa? Fala sobre amor também”.

Olhos de ódio para ele e argumentação: “Rodrigo, preste atenção numa coisa, pagode é coisa de pobre, de gente que não tem instrução musical, que escuta forró, funk e sertanejo. Samba exige grau de compreensão, de estudo, de educação”. Novamente rebateu: “quer dizer que lutamos contra o preconceito de classe, mas somos classistas na música?”. Rodrigo foi “convidado a se retirar” da festa e depois, aos poucos, foi sendo boicotado da galera.

Após a mais um fracasso, passou a se isolar das pessoas. Chamaram o coitado até de misantropo.

Moral da história e conclusão Tostines:

Rodrigo é chato, do contra, misantropo porque as pessoas são muito idiotas, contraditórias e hipócritas ou as pessoas muito idiotas, contraditórias e hipócritas que o fizeram ser chato, do contra e misantropo?

Paulo Emílio

Gosta de Educação, Geografia, Sociologia, política (a partidária também), veganismo, quadrinhos, videogame, cerveja, debater (procrastinar?) no facebook...

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