Rio Grande do Norte, quinta-feira, 28 de março de 2024

Carta Potiguar - uma alternativa crítica

publicado em 29 de julho de 2016

A teoria conspiratória do Projeto Montauk na série “Stranger Things”

postado por Wilson Ferreira

A nova série Netflix “Stranger Things” (2016) faz um mergulho em um subgênero dos anos 1980 que levou as teorias conspiratórias aos blockbusters: “ET”, “Contatos Imediatos”, “Os Goonies”, “Viagens Alucinantes”, “A Coisa”, etc. Mas também leva a sério a mãe de todas as conspirações, aquela que os pesquisadores da área chamam de Teoria da Conspiração Unificada (TCU) por explicar todos os paradoxos científicos atuais: o chamado “Projeto Montauk”. A série “Stranger Things” (que originalmente se chamaria “Montauk”) se inspira nas especulações em torno desse nebuloso projeto do Departamento de Defesa dos EUA dos anos 1970-80 envolvendo guerra psicológica e psíquica, além de controle da mente à distância. Mas parece que produziu algum efeito colateral que fez o Projeto terminar abruptamente em 1983. E agora esse efeito ameaça uma pequena cidade dos EUA.

Desde que um OVNI caiu em Rosswel, Novo México, em 1947 o mundo não foi mais o mesmo. Seu resultado foi um imaginário que juntou a Área 51, testes nucleares no Deserto de Nevada e os decorrentes fantasmas da contaminação radioativa e Guerra Fria. E tudo amplificado por Hollywood e seus filmes sci-fi de monstros radioativos e invasões da Terra por discos voadores e ETs prontos para ocupar os corpos humanos.

A indústria do entretenimento irradiava a paranoia para todo o planeta e o seu personagem correspondente: o moderno detetive, aquele que não mais resolve crimes, mas agora conspirações. O detetive virou um arquétipo contemporâneo, cujo personagem Fox Mulder da série Arquivo X é o seu maior representante.

Mas o Detetive soma-se ao arquétipo do Estrangeiro, personagem que vê no deserto a melhor metáfora para a condição de estranhamento e alienação com esse mundo – não é à toa que todo a paranoia contemporânea se originou no Deserto de Nevada. Com isso, o Detetive, a paranoia e as conspirações se associaram a todos os “estranhos”: freaks, geeks, losers e outros habitantes dos undergrounds.

A nova série do Netflix Stranger Things dos irmãos Matt e Ross Duffer faz um mergulho retro a uma época que viveu mais um pico desse clima conspiratório: os anos 1980 da Era Ronald Reagan onde a Guerra Fria foi reavivada. 

Lançada nesse mês, a série faz uma verdadeira arqueologia de um subgênero que prosperou naquela década e que levou o imaginário da paranoia e conspirações ao nível do entretenimento: Contatos Imediatos, ET, Viagens Alucinantes (Altered States), Os Goonies, Indiana JonesA Coisa. Tudo embalado pelo som sync-pop da época.

Mas na sua pesquisa arqueológica daquela década, Stranger Things vai resgatar a mãe de todas as conspirações, considerado por muitos a Teoria Conspiratória Unificada (TCU) capaz de explicar todos os mistérios e paradoxos do mundo atual: o chamado Projeto Montauk, a verdadeira Área 51 dos anos 70-80.

E o que torna a série um marcante exemplo da sensibilidade pós-moderna atual é que seus autores, os irmãos Duffer, nasceram nos anos 1990. Ou seja, a série é atravessada por uma paradoxal nostalgia de uma época que não foi vivida pelos autores. Por isso, Stranger Things é ainda mais arquetípica: os Duffer fazem uma reconstituição detalhista de um subgêneros dos anos 1980 para tentar expressar um imaginário (detetives e estrangeiros) ainda atual.

A Série

A ação ocorre em 1983 numa pequena cidade de Indiana onde uma dos nerds locais chamado Will desaparece abruptamente quando retornava para casa à noite em sua bike BMX depois de jogar “Dungeons e Dragons” com seus amigos. Sua mãe Joyce (Winona Ryder) fica histérica e pressiona o relutante xerife Jim Hooper (David Harbour) a iniciar uma busca. Para Jim, numa cidade como aquela nada verdadeiramente ruim poderia acontecer.

Mas coisas ruins e estranhas estão acontecendo. Há uma perigosa criatura à solta em meio a flashs de luz. E enquanto os adultos demoram para reagir, um trio de garotos e o irmão adolescente de Will juntam-se para encontra-lo.

No meio de uma das buscas na floresta local, encontram uma misteriosa e lacônica menina: Eleven. Ela está suja, descalça e tem a cabeça raspada. Parece estar fugindo de algo ou teme por alguma coisa muito assustadora. Logo descobrirão que ela tem fortes poderes psíquicos telecinéticos.

Eleven está sendo perseguida por misteriosos agentes – com suas maletas e ternos aparentam fazer parte de alguma agência secreta do Governo. Tudo parece girar em torno do prédio do Departamento de Energia e Luz da pequena cidade. Logo de cara descobrimos que não é apenas um mero departamento municipal: esconde-se nos subterrâneo um complexo de laboratórios onde são realizadas estranhas experiências (entre elas, tanques de privação sensorial) das quais Eleven foi a principal cobaia e de onde conseguiu escapar.

Esses misteriosos agentes são frios e inescrupulosos e farão de tudo para recuperá-la. Quem é Eleven? Para onde Will foi levado? O que há no Departamento de Energia e Luz da cidade? Qual o propósito das experiências realizadas lá? O que é aquela estranha criatura à solta? Essas serão as perguntas que essa primeira temporada da série responderá.

Muitos críticos comparam a série ao filme Super 8, uma grande homenagem a Steve Spielberg, fundador desse subgênero blockbuster com ET e Contatos Imediatos. Mas Stranger Things é mais sombrio: a mãe de Will, Joyce, é separada e vive a típica situação de mãe ausente pela necessidade de trabalhar como caixa. Culpa-se pelo desaparecimento do filho. Enquanto o trio de garotos (os “goonies” da série) são hostilizados na escola como nerds e perdedores. 

Stranger Things tem um evidente appeal pelos “estranhos” (os atores infantis parecem ter sido escolhidos a dedo para dar essa sensação), os estrangeiros – somente aqueles que vivem essa condição de estranhamento com o seu ambiente é capaz de perceber aquilo todos não percebem porque prisioneiros da mentalidade limitada pelo senso comum.  

Mas ao mesmo tempo os irmãos Duffer rendem homenagem a todos os clichês que compõem a narrativa desse subgênero: um grupo de crianças normais se encontra com o sobrenatural; todos os personagens vivem em uma típica pequena cidade norte-americana; uma das crianças tem uma mãe solteira/separada; mistura do estranho com o familiar (por exemplo, o buraco na parede que vira um canal de comunicação com o “mundo invertido”); o adolescente que vive um triângulo amoroso aparece para ajudar o grupo de crianças.

O Projeto Montauk – alerta de potenciais spoilers

Originalmente a série Stranger Things se chamaria “Montauk”, obviamente inspirada na famosa lenda do Projeto Montauk.

Montauk foi supostamente uma série de projetos secretos do governo norte-americano localizado em Camp Hero, na Estação da Força Aérea de Montauk, Long Island, Nova York, entre final dos anos 1960 até 1983. Pesquisadores sustentam que secretamente o projeto pretendia desenvolver um conjunto de armas de guerra psicológica visando a supremacia na Guerra Fria entre EUA e URSS. A ideia era direcionar pulsos eletromagnéticos contra o inimigo para induzi-lo a sintomas de esquizofrenia.

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Wilson Ferreira

Jornalista e professor na Universidade Anhembi Morumbi/São Paulo na área de Estudos da Semiótica. Pesquisador CNPQ do grupo de pesquisas "Cinema e Sagrado no Cinema e Audiovisual e autor dos livros "O Caos Semiótico" e "Cinegnose" pela Editora Livrus. Editor do blog "Cinema Secreto: Cinegnose" sobre confluências entre Gnosticismo e Sagrado no Cinema, Audiovisual e Cultura Pop em geral.

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