Rio Grande do Norte, segunda-feira, 01 de maio de 2017

Carta Potiguar - uma alternativa crítica

publicado em 8 de março de 2017

A vida é um campo de batalha

postado por Beatriz Madruga

A vida é um campo de batalha. Foto por Pedro Andrade.

Sobre ficar menos difícil

A primeira vez teve um disparador óbvio. Foi impossível diferenciar o momento do quadro completo, da doença inteira, do que poderia me esperar dali em diante. Quem estava ao meu redor me fez acreditar que seria passageiro, e eu ouvia repetidamente de que “iria passar”.

Nunca passou.

Foi embora e voltou. Várias vezes. Até hoje vai embora e volta várias, inúmeras vezes. E não tem periodicidade certa. Um ciclo pro outro pode durar três meses, seis meses, às vezes só umas cinco semanas. Um ciclo sozinho pode durar várias semanas, pode durar um mês, pode durar alguns dias. Alguns são absolutamente apáticos; outros são verdadeiramente sombrios, sendo que acho esse adjetivo quase péssimo para descrever o que se passa. Não existe um bom adjetivo para descrever o que se passa; não é nem um pouco possível descrever o que se passa.

Quando eu estava na segunda grande queda fui sugerida pela psicóloga que procurasse ajuda de medicamento também. E meus dias e semanas eram preenchidos por consultas psicoterápicas e psiquiátricas e agora havia um remédio antes de dormir e um ao acordar. Como se um para aguentar a noite e outro para sobreviver ao dia. Quando um estivesse próximo de expirar, eu tinha um outro para me colocar no eixo apático outra vez, e funcionar quase que normalmente.

Fui desencorajada por pessoas próximas que me julgavam fraca demais, sucumbindo a isso, usando remédio, fingindo que estava doente. Acreditei que fingia estar doente assim como acreditei que iria passar, um dia.

Não passou. Foi e voltou inúmeras vezes. Não deixei de estar doente outras vezes. Mas deixei de conversar sobre isso.

Aconteceu que para minha sorte descobri alguns detalhes que devem fazer parte da vida antes, durante e depois do ciclo depressivo, para que a gente não sucumba (tanto) mais. Eles são quase clichês, mas não cheguei a lê-los em lugar nenhum, nem ouvir explicitamente de ninguém. Mas ter colocado em prática e mantido o orgulho das minhas escolhas tem permitido me respirar com calma, sem desejar parar de respirar quando mais um ciclo vem.

Quando houve a primeira vez, e a segunda vez, a mais difícil, eu fazia uma faculdade que detestava e convivia com pessoas que também não me faziam bem. Eu fingia que meu futuro seria aquela profissão e eu lidava com sujeitos que confiavam que eu estava ali para eles. Eu já estava morta antes mesmo do ciclo começar a acontecer; e passava a desejar isso quando ele vinha.

Se há algo que me segura e me salva agora, a cada nova queda, é a certeza de que não faço algo que detesto; melhor, a convicção de que faço exatamente o que quero para mim, o que gosto, a despeito dos contínuos comentários familiares sobre eu dever ter uma profissão que não necessariamente me faça feliz, mas me traga dinheiro. Eu lembro com muita clareza como é viver uma queda depressiva em uma semana (ou mês ou ano) enquanto se é obrigado a trabalhar com o que não gosta. Lembro lucidamente de como a infelicidade pode ser desesperadora, de como gritar por um fim abrupto pode acontecer cotidianamente – enquanto todos pensam que sua vida vai bem só porque existe um bom salário.

Eu não posso me dar o direito de fazer o que gosto somente nas horas vagas. Eu preciso que minhas horas de trabalho e também as vagas sejam preenchidas somente com o que gosto, e há alguns anos isso me acalenta – mesmo que, em quedas piores, nem essas tarefas eu queira fazer.

A segunda descoberta que também é remédio e no meu caso funciona, principalmente nas quedas mais longas, é cancelar ou simplesmente deixar de olhar as redes sociais. As pessoas as fotos as conversas os comentários. Porque às vezes provoca insônia ou um momento passageiro de ansiedade, e lidar com mais de um sintoma durante o ciclo torna o cotidiano mais difícil também – paro de me concentrar, não fico tranquila, e acordo no meio da noite com lembranças ruins.

Uma terceira e muito particular, que não cabe aos casos mais graves, só aos mais brandos e sob controle, é a de não contar a quase ninguém quando cada ciclo vier. É a escolha de não conversar sobre isso, sobre já ter tido uma duas dez vezes, de não dividir uma dor que pouquíssimas pessoas entenderiam e sobre a qual a grande maioria diria que “vai passar”. Nunca me ajudou muito conversar sobre. Me fazia criar expectativas de que haveria pessoas ao meu redor quando eu precisasse, mas isso não acontece todas as vezes. Ficar em silêncio e cultivar a tranquilidade de que, sim, não vai ser fácil, mas de que hoje consigo aguentar me ajuda mais; e não traz ansiedade nem expectativa de nenhum tempo. Lido comigo mesma como se houvesse duas pessoas que, em tempos diferentes, ocupassem o mesmo corpo. E é quase isso realmente.

Há outras duas descobertas mais recentes, e uma foi a constatação do quanto o dia a dia com meus avós faz falta nesses momentos. Cabe a convicção de que, se eles ainda

estivessem vivos, eu enfrentaria esses dias com menos dificuldade, pela simples presença e olhar que eles me davam naturalmente. Sem que eles precisassem saber de nada. Talvez quem tenha seus avós ainda vivos e por perto possa fazer uso desse amuleto. E a minha outra descoberta é a de olhar ou entrar no mar, quantas vezes seja necessário, pelo tempo que seja necessário. Também salva.

Nenhum desses passos resolve nem cura, mas diminuem a solidão e o desespero que invariavelmente estão no ciclo.

Nunca senti necessidade de escrever sobre isso, nem sinto alívio de nenhum tipo agora. Mas se existe algo que tem me doído ainda mais nos últimos tempos é ver pessoas sucumbindo a uma doença que não parece doença, enquanto nós só assistimos, culpados, quase sempre surpresos, ausentes e egoístas com nossas dores, sem saber como ajudar alguém que não só não sabe, mas também não quer fazer nada com a própria vida. Alguns casos não poderão aproveitar nada do que eu disse aqui – se forem mais graves, mais antigos, piores. Mas espero que outros sim. E por isso essa crônica longa demais, feito conversa sincera, feito abraço que tentei dar mas que não sei se consegui muito bem – saiu meio folgado e meio frio.

Mas era isso.

Beatriz Madruga

Bia formou-se em Psicologia, mas até hoje não sabe por quê. É estudante de Letras. Prefere ler e escrever a conversar. Em 2015, publicou "Aos Pedaços, Com Tudo" pela Jovens Escribas.

One Response

  1. Gabriel disse:

    Ótimo texto, Beatriz!

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