Rio Grande do Norte, segunda-feira, 01 de maio de 2017

Carta Potiguar - uma alternativa crítica

publicado em 6 de abril de 2017

Mais de 190 milhões em ação

postado por Rafael Morais

Foto: Weimer Carvalho/O Popular/Folhapress

O Brasil vive uma grande e interminável crise política e econômica e, sem dúvidas, em menor proporção, claro, a sociedade tem parcela de culpa no cartório. Quem aqui nunca vivenciou, seja presencialmente ou virtualmente, por trás das segundas e terceiras telas, algum amigo ou parente próximo apoiando algum político estranho, intransigente e quase sempre contraditório?!

Há quem defenda a ditadura como quase perfeita e incontestável. O único problema é que torturar, sem matar, não é solução. Outros chegam a desejar a morte de um filho querido, a se deparar com ele andando de mãos dadas com um bigodudo por aí ou apaixonado por uma negra. E tem gente que, em pleno século 21, afirme que mulher deve ganhar salário menor, simplesmente porque engravida.

Em 1921, Epitácio Pessoa, então presidente do Brasil, cometeu o atrevimento, se achando o porteiro do céu, de interferir na convocação da Seleção Brasileira. Pessoa assinou o decreto de brancura. Nenhum jogador moreno ou negro, por razões de importância nacionalista, para que nossos atletas não fossem chamados de “macaquitos” e o povo brasileiro não fosse, assim, humilhado, poderia ser convocado para representar o Brasil no Campeonato Sulamericano, em Buenos Aires. A Seleção sem negros perdeu duas das três partidas e foi eliminada na primeira fase.

Galeano, em “Futebol ao sol e à sombra”, disse que “o futebol, metáfora da guerra, pode transformar-se, às vezes, em guerra de verdade. E então a morte súbita deixa de ser somente o nome de uma dramática maneira de desempatar partidas”. E esse desempate metafórico, aparentemente, pode estar mais próximo do que imaginamos.

Se não, vejamos. Quem imaginaria, durante a campanha eleitoral e as pesquisas de votos, que o inconsequente Donald Trump seria eleito presidente dos Estados Unidos?! Penso, paro, reflito, avalio, me desespero, só de cogitar a possibilidade de um Bolsonaro, de qualquer geração, ser eleito um dia presidente do nosso país. Mas porque não, se parece que tudo pode no Brasil?! Comentam pelos corredores que não existe pecado abaixo da linha do Equador.

Aliás, fico aqui imaginando como seria, caso alguém assim, com complexo de Deus, sem ser Deus de verdade, decidisse de uma hora pra outra seguir a cartilha preconceituosa de Epitácio em 1921.

Nossa Seleção Canarinha jogaria armada até os dentes, para torturar nossos adversários até a morte, digo, até entregarem o jogo de mão beijada.

Nosso artilheiro de preferência sexual (ou de gênero) não aceito pelo poder, finalmente poderia sair do armário. Não por bondade do senhor presidente, mas porque fora expulso de campo para se tratar numa clínica de reabilitação cristã.

O ponta esquerda negro, vindo da favela, ídolo da criançada, que fazia a alegria da torcida com seus dribles desconcertantes, deixaria de ser convocado, sob o risco de humilhação coletiva. Nem a proibição de levar bananas ao estádio impediria seu corte da relação. Não somos, e nunca seremos, enquanto ele ditar (cuspir) as regras, uma raça de macacos.

Nosso goleiro, assumidamente de esquerda, perante as câmeras, perdeu espaço. Aquele mesmo que defendeu o pênalti no último minuto de jogo, na final da Copa. O herói do hexa. Pois é, nunca mais vestiu a camisa verde e amarela. Quer jogar? Então que queime a camisa vermelha que usa por baixo. João Saldanha já morreu!

O bailarino magrelo, de barba malfeita, estaria bastante preocupado em tempos atuais. Certa vez, ele disse estar triste com o nível de consciência política da sociedade brasileira. É muito abaixo do normal. “Nos olhamos no espelho e não enxergamos reflexo algum”.

Sinceramente, espero que a sociedade e as autoridades brasileiras acordem desse pesadelo sem lógica. É preciso, com urgência, cortar esse mal pela raiz antes mesmo que ele germine nesse solo castigado pelos mal tratos vindos de Brasília.

É hora de dar um basta. Não pelo risco, até certo ponto de menor relevância, de interferência na Seleção de futebol, até porque isso nunca foi cogitado. Mas sim pelo risco de interferir nas vidas, no presente e no futuro, de toda uma nação. Afinal de contas, juntos seríamos mais de 190 milhões em ação.

Rafael Morais

Comunicador Social pela UFRN. Experiência em assessoria de imprensa esportiva e atuação em televisão. Áreas de interesse: literatura e esportes em geral, com ênfase no futebol como a "teatrialização das relações humanas".

2 Responses

  1. Lilian disse:

    Parabéns Rafael Morais!

  2. Lilian disse:

    Parabéns Rafael Morais! Valeu!

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