Rio Grande do Norte, sábado, 19 de agosto de 2017

Carta Potiguar - uma alternativa crítica

publicado em 9 de maio de 2017

Pons Asinorum

postado por William Eloi

“Alea Jacta est”( A sorte está lançada)

Júlio César, ao atravessar o rio “proibido” Rubicon

 

 I

TOC!TOC!TOC!

………Quem….Quem pode ser a essa hora da manhã?

 Pensou ao se levantar com dificuldade, depois de uma noite em claro, regada ao uso de STAN.

O sistema de segurança havia falhado? Os sensores não acusavam nada. Nenhuma presença. Calor, movimento, som.

 

TOC!TOC!TOC!

 

Abra a porta. ”Polícia!”. Sabemos que você está aí!

 

Polícia? Foi isso mesmo que ouviu? Ou era algum tipo de alucinação? Lento de mais para poder se mexer…. Para poder pensar…. Em alguma saída…que não fosse outra dose.

BRUUMMM!!!

 Mãos para cima, você está preso! Você tem direito a um advogado. Se você não tiver dinheiro, o Estado poderá parcelar em até dez vezes para lhe disponibilizar algum defensor. Caso você não consiga quitar sua dívida, o Estado, conforme o artigo 01111254125 cobrará de sua família os custos, podendo ainda alienar seus bens, caso não paguem. Você tem direito de ficar calado!

 Levantar as mãos? Gostaria muito, se primeiro eu conseguisse ficar de pé, pensou.

Mas eles não ligaram muito pro seu estado. Prenderam as suas mãos e o arrastaram do quarto até a entrada de sua sala, onde deveria estar a porta, agora destruída.

– Você sabe por que estamos aqui? Perguntou um dos policiais, que estava de, sobretudo e chapéu tipo fedora[1], que parecia ser o chefe da matilha.

Ele respondeu balançando a cabeça, afirmativamente. Então o homem continuou.

“Se achava muito esperto, hein? Que podia enganar todo mundo. Enriquecendo, como enriqueceu… Manipulando resultados!”

“Cara, você foi longe demais, longe demais. Podia só ficar na sua, ganhado o seu troco só com cassinos. Mas o problema de vocês, viciados nessa merda, é que acham que podem fazer o que quiser. Manipular ações no mercado? Por acaso você não lembra o que aconteceu quando um grupo de Hackers invadiram os sistemas da Megacorp e as ações viraram lama? A quebradeira que deu no mundo? Céus! Como é mesmo o nome que você usava? Jogador? Não, não… Croupier! Não, é? Ah, Ah, Ah, Pois bem, Croupier, quem dá as cartas agora? Vamos, o que é que vai ser? Quantas fichas? Vamos lá! Você pode apostar! Você tem aqui uma bela casa, não? Fruto do seu trabalho. Então, o que é que você quer? Qual vai ser a aposta?”

“…eu…eu.. gostaria de uma última dose”.

“Sargento – Disse um outro policial que estava ao lado- Do jeito que essa cara tá aí, se a gente não fizer nada, ele vai morrer agora mesmo. No nosso turno. Ele pode entrar em choque ou algo parecido. Eu já vi algo assim acontecer e …a gente pode perdê-lo, além do quê o pessoal não ia gostar nenhum pouco.

-Ah, tá bem. Tá bem. Vai lá Croupier, toma tua última dose de merda! Mas sem truques, tá me entendendo?

Ao mesmo tempo em que vociferava, o sargento empurrava em sua boca uma cápsula de STAN que havia apreendido na batida a sua casa. Porque ele não podia levá-la até a boca. Estava com as mãos presas. Atrás das costas.

O efeito é rápido. O bem estar também. Sem febre. Sem cólicas. Sem câimbras.

Apesar de seu revestimento feito em capsula, não leva muito tempo para que o corpo faça a absorção da droga. E já se sentia capaz de se levantar. De pensar. Inclusive de como os sistemas de sua casa não conseguiram detectar a chegada da polícia. Pelo simples fato da divisão do Departamento ter, entre outras coisas, programas capazes de confundir “sistemas de segurança”. Chegar sem ser notado. Sair sem deixar rastros.

Mas há sempre uma probabilidade desses sistemas falharem. Nesse caso, algo em torno de 1,5263225521%. O que os torna quase infalíveis.

Quase.

Ele gastaria muito tempo explicando essa ponte para burros*, mas mesmo assim, seus amigos ali não entenderiam. É algo que envolveria cálculos complexos. Porém, como professor que fora um dia, buscaria uma forma que chegasse mais simples a seus alunos. Dando exemplos que pudessem ser inseridos no contexto. Que poderia começar mais ou menos assim:

Era uma vez um homem ordinário. Que sonhava em ver o filho, um dia, como um engenheiro Biogeneticista ou um Tecnocirurgião. Essa ideia lhe veio à cabeça quando assistiu a uma palestra na empresa em que trabalhou por anos, como mecânico. Houve um momento que o palestrante disse a frase, “O tamanho de um homem pode ser medido, pela quantidade de seus sucessos!” E por isso, tentava a todo custo passar para o filho esse ensinamento, para que um dia o filho fosse algo que ele nunca havia sido. Alguém bem sucedido.

Assim como tantos outros milhões, este homem fora demitido na “grande crise”, ou crise da bolsa, quando a Megacorp quebrou, doente e sem direito a nenhum crédito em sua conta para sustentar a família, depois de anos de sua vida, dedicados a esta corporação. A mulher o abandonou, a ele e ao filho, pouco depois que havia sido demitido.  Ele não viveu para ver o filho formado. Talvez não tivesse ficado muito orgulho se visse visto como o filho ganhava a vida, dando aulas em uma escola pública para adolescentes delinquentes, num bairro dominado por cibergangs. Porque ao contrário do que sonhava, o filho deste pobre homem terminou sendo um simples professor de matemática; com um dado gosto por filosofia.

Como a maioria dos homens ordinários, esse homem não levou em consideração a Alea, seja a sorte ou o movimento dos dados.

III

 

“Deus é o grande arquiteto do universo”, já pronunciavam antigos teólogos, alquimistas e os gnósticos. Eles não estavam errados. Deus é o arquiteto, ou a mola. Do código genético humano aos filamentos de uma planta, tudo o que conhecemos são números. A questão é entendemos como se distribuem e quando se revelam esses números. Ao pensarmos na frase “O tamanho de um homem pode ser medido, pela quantidade de seus sucessos!” logo nos vem à ideia, aproximada, do tamanho de Deus.

Em toda a história humana, o diabo foi apenas um “grande blefador”. Ou um jogador de “princípios”, apesar do que dizem. E nunca trapaceou com a realidade. Porque que, contrariando Albert Einstein, tanto Deus joga dados com o universo, como seus dados são “viciados”. E é igualmente verdade a máxima “Deus escreve certo por linhas tortas”, uma vez que só conseguimos enxergar os pontos que são perpendiculares a nossa visão.

Houve um momento na história desse planeta, em que o marechal Emmanuel de Grouchy[2], apesar das ordens expressas de Napoleão, avançou com tropas francesas que estavam sobe o seu comando, ao ouvir os canhões, ao longe, nos campos de Waterloo, e assim ajudou a derrotar as tropas do duque de Wellington. Fora agraciado com honras e condecorado.

Nicolau I não hesitou em mandar fuzilar um aspirante a escritor (que havia publicado apenas pequenos romances, como era comum a época) e que conspirava contra governo, reunido com um grupo, chamado o Círculo Petrashevki. E o mundo nunca ouviu falar de um tal “Smerdiakóv Kamarazov”[3], assassino do pai.

Um judeu, chamado Judas Iscariotes, apesar ter dito que entregaria o nome de um agitador por trinta moedas de prata na Palestina há 2200 anos, em um último momento, numa coragem e presença de espíritos incomparáveis, negou-se em entregar o tal subversivo. Fora, por isso, crucificado pelos romanos, e adorado por milhões no mundo e, por isso, chamado de “O Cristo”.

Um outo judeu, enviado a Pôncio Pilatos (governador da província romana da  Judéia) por Herodes Antipas, a fim de ser julgado, foi simplesmente desprezado pelo praefectus, que não entendia tamanha perturbação sobre os sacerdotes causada por aquele judeu, filho dum carpinteiro, chegando a achar graça naquele que se dizia “o filho de Deus”. E tendo Pilatos libertado assim o Galileu, o povo judeu não teve a opção do indulto naquela Páscoa do ano 40, antes de Judas, “O cristo”, sendo Barrabás, o homicida, crucificado.

IV

A vida terminaria ali. Dentro daquela sala de aula, para aquele matemático. Tendo a sorte de chegar para trabalhar, e sair da sala, em meio à guerra das “Gangs”nas ruas.

A probabilidade era mínima, pela dedução daquela variável. No máximo, se tivesse um pouco mais de sorte, aposentar-se-ia com metade de sua renda. Se chegasse a ficar velho.

Então você começa a mexer, no que, jogadores de xadrez chamam de “abertura”. Uma combinação de movimentos, para desenvolver suas peças no jogo na tentativa de ganhar o centro para então derrubar o rei. Há o risco, sem dúvida, de um lance errado. Mas suas chances aumentam, enquanto avança em sua trajetória.

Seus alunos são um bando de desajustados psicopatas, viciados em uma droga chamada STAN, que lhes dá habilidades extraordinárias, por poucas horas. É uma droga espacialmente mortal e terrivelmente viciante. Há poucas chances de que alguém saia ali daquela escola preparado para algum tipo de futuro, senão a prisão ou mais provavelmente a morte nas mãos de gangs adversárias ou mesmo pelo próprio vício.

E dentro dessas possibilidades, uma variante pouco improvável de sucesso se mostra a melhor saída, e você começa a virar o jogo. Um dia, uma aluna, altamente viciada nessa droga transa com você por créditos. Para poder comprar mais. A partir desse dia, vocês criam um tipo de afeição, passam a transar outras vezes (sem o adendo dos créditos). Você é expulso da escola (ela tem doze anos, a Assistente Social-diretora lembra isso a você, como se ela realmente se importasse com essa menina…) e sua garota lhe apresenta a um conjunto de doenças sexualmente transmissíveis e também tal droga. E você experimenta.

VI

Numa noite de 1921, um empolgado Theodor Kaluza, apresentou a Einstein uma proposta para a unificação da Gravitação com o Eletromagnetismo – um problema ainda em aberto para os físicos -, onde acrescentava uma dimensão espacial adicional a Teoria da Relatividade Geral. Vencida a resistência inicial, Einstein não só gostou da ideia, como também o incentivou a divulgá-la. Nela, Kaluza procurava demonstrar, através de cálculos, que os fenômenos gravitacionais e eletromagnéticos são manifestações de uma mesma força e que não poderiam ser completamente explicados numa primitiva realidade de três dimensões. Nascia assim a quinta dimensão.

Uma parte dos cientistas viram a teoria de Kaluza com ceticismo, pois se apresentava de uma maneira que não levava em conta os efeitos de natureza quântica. Sua formulação chegou ainda a ser modificada pelo sueco Oskar Klein, sendo por isso também conhecida como Teoria de Kaluza-Klein. Ficou um tanto esquecida até os anos 1970, quando os primeiros estudos em teoria das cordas recuperaram a discussão sobre dimensões espaciais extras.

O universo, segundo a tal teoria, seria composto não de três, mas de várias dimensões ou universos, oscilando em frequências diferentes, como cordas vibrantes, em que cada decisão teria uma consequência quântica.

Na virada do século 20, para o 21, através de estudos, de cálculos engenhosos e observações feitas de aceleradores de partículas modernos, passaram a imaginar, o universo então com 11 dimensões. E só depois de mais 50 anos, através de novas evidências, outras vinte dimensões. Mas todos estavam errados. Não há como contar.

O que esses cientistas tentavam vislumbrar, era o que os sábios Hindus já conheciam por volta de 4200 a.C: a representação de  Shiva Nataraja dançando ao som de um tambor, mantendo o universo através do ritmo e da harmonia. E quando se descobre isso, você se sente impelido pela música também a dançar, a cantar. Mas o tom é muito alto ou muito baixo para você. Você transpõe os acordes, e adapta o som de seu instrumento a sua voz, então você canta.

VII

Levando em consideração que os agentes do Departamento disponham de equipamentos avançados para seus fins. Sendo assim, a probabilidade que eles incorram num erro ao deterem um suspeito é de tanto zeros à esquerda quanto à vista alcance; para que então, depois da vírgula, à direita do zero, venha o número um.

Governos e grandes corporações pagariam o equivalente ao PIB de um pequeno país para obter essa informação. Também não há dúvida que mataria muito rapidamente se soubessem sobre quem detivesse o tal “poder”. Há boatos que governos e as corporações fazem teste sobre cobaias humanas, com STAN, a fim de descobrir esse dom em algum viciado, para poderem manipulá-lo. A probabilidade é muito pequena de conseguir algum sucesso, haja vista que o dom, manifestasse em cada viciado de forma diferente, porque é uma manifestação psicossomática e por isso única. Porém, as pesquisa continuam.

Sabendo disso ele fazia uso de seus poderes de forma moderada, para não ser rastreado, a princípio. Porém, como qualquer outra droga, quanto mais você usa STAN, mais você precisa. E você precisa pagar. E ele só podia comprar, fazendo uso de seu “dom”. Manipulado resultado. Em cassinos, loterias. Depois passou a usar um linkname, Croupier, para vender seus serviços. E há outra coisa também, a saber, sobre esse dom. Cada vez que ele o usava, alterando os fatos, ele causava uma perturbação no tecido das realidades. Seria como se de repente, um homem descobrisse, que de posse de um revólver antiquíssimo, ao colocar uma bala e rodar o tambor, por algum motivo, a bala irá emperrar em sua arma, depois de esgotadas todas as possibilidades, apertando o gatilho inúmeras vezes.

E é por isso que qualquer outro homem, o número um, solitário, depois daquela vírgula, numa infinidade de zeros, não quer dizer nada. Mas não para um matemático.

Aquele um solitário (ao qual ele se agarrava, como qualquer homem em desespero) queria dizer que, em algum lugar, um hacker poderia ter invadido o sistema do Departamento. Poderia ter colocado informações falsas a respeito da verdadeira identidade do Croupier, a fim de confundir a polícia. Queria dizer também que alguém no Departamento, sendo humano, e por isso mesmo, sujeito a distrações, poderia ter errado no momento que coletava aqueles dados….

“ Êêêêê…. sargento.? ….Acho…. que houve algum engano”

“Engano? Como assim? O que você está querendo dizer com isso?”

 Na antiguidade, vários rituais eram realizados a fim de que a vontade do indivíduo fosse soberana sobre os desígnios da natureza. Àquilo, davam o nome de magia. Outros dão a esse fenômeno o nome de “fé”.

“Eu acho que esse homem não é o homem que procurávamos…. Não sei como explicar…parece impossível, mas o nosso sistema estava errado. Acho…Acho…que nós devemos um pedido de desculpas”.

 

Para quem “dá as cartas”, é apenas sorte.

___________________________________________

*Pons Asinorum é uma expressão latina que quer dizer “ponte para os burros”. Uma metáfora usada pelo matemático grego Euclides, na obra “Os Elementos” (300 a.C), para afirmar um pensamento, ou uma proposta, que, apesar de perfeitamente demostrado, é mal compreendido.

[1]Chapéu muito famoso na década de 1920, principalmente por ser o preferido do gangster Al Capone. Recentemente, havia voltado à moda.

[2]Napoleão deu ordens expressas para que De Grouchy, permanecesse a espera de seu sinal, para então surpreenderem as tropas do duque de Wellington pelos flancos. Apesar do apelo dos outros generais franceses, ao escutarem os tiros de canhão, De Grouchy permaneceu parado com a tropa, esperando o sinal de Napoleão. Foi “surpreendido” pelos prussianos, que se juntaram aos ingleses e lhe atacaram, perdendo, assim, a guerra .

[3]O escritor Dostoiévski, num último momento, recebeu um indulto do Czar Nicolau I, poupado do fuzilamento, sendo a pena por “traição”, transmutada em cinco anos de trabalhos forçados na Sibéria. Evidentemente, Ivan Pavlovitch Kamarzóv, personagem de Dostoiévski na novela “Os irmãos Kamarazóv”, não deu a Smerdiakóv o seu “nome” de família, Kamarazóv. Simplesmente porque Smerdiakóv era um filho ilegítimo. Aqui usei como licença poética.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

William Eloi

Escritor e ex-guitarrista da banda de rock Electrilove.

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