Rio Grande do Norte, terça-feira, 21 de novembro de 2017

Carta Potiguar - uma alternativa crítica

publicado em 9 de setembro de 2017

Paint it Red

postado por William Eloi

– Papaai, o céu não é vermelho. Por que você está pintando o céu de vermelho?

Pensamentos são algo realmente muito estranhos. Quando menos esperamos, somos assaltados por imagens que a princípio não nos dizem absolutamente muita coisa, e que ainda assim, são capazes de nos levar rapidamente de um lugar a outro.

Quando Júlia, minha filha, mostrou aquele seu desenho,  pensei na mesma hora em Paint It Black, clássico antibelicista lançado em 1965, pela banda de rock Inglês The Rolling Stones. Na letra, Jagger pinta um mundo de Negro, numa crítica clara a guerra do Vietnã:

Eu olho dentro de mim e meu coração está preto

Eu vejo que minhas portas vermelhas estão ficando pretas

Talvez então desaparecerei e não terei que encarar os fatos

Não é fácil de encarar quando seu mundo inteiro é preto

 Ninguém há de negar: Assim como Jagger, que pintou o mundo de negro nos anos 60 vivemos em tempos estranhos. Outro dia desses, no trabalho, uma colega afirmava que, diante de tamanha violência em nossa Cidade, “até o pastor da igreja de onde congregava, andava armado”. E de modo algum ela estava se referindo “A palavra do Senhor”.

Confesso que na hora me veio logo à cabeça: Se um pastor não espera mais pela providência Divina, apelando para um revólver, o que dizer de nós, homens céticos?

Diante de tanto horror, decidira ele, o pastor, bater-se sobre os filisteus? Ou pior ainda, teria o próprio Deus lhe feito uma revelação, havendo nos abandonados a própria sorte?

Se assim o for, não terá sido essa a primeira vez. Como está escrito em Gênesis 6:6 (“Então arrependeu-se o Senhor de haver feito o homem sobre a terra, e pesou-lhe em seu coração”). Porém, agora, não haverá o dilúvio.

Acredito que Deus está velho demais para isso. Ademais, Ele parece ter encontrado na sua própria criação um defeito de fábrica (ao qual não querendo aceitar por muito, muito tempo, pesando aí Seu orgulho, Sua vaidade de Gênio Criador “Infalível”) que lhe poderá ser útil ao final; poupando uma legião de Anjos e Arcanjos, e a serpente Leviatã para limparem a sujeira toda.

 A criação entendeu que os deuses, do mar negro ao mediterrâneo, assim como grandes em poder, tinham fome. É sobre ossos e sangue que se assentavam. Das crianças queimadas nos altares erigidos a Baal; atraindo súditos e moscas, ao filho de Yahweh, pregado numa cruz romana.

Descobriu também a criação que em cada deus há um instinto parricida latente. Como Zeus, que matou Cronos, como Cronos que matou Urano, a criação também irá aniquilar Yahweh (porque vê a si mesmo como uma espécie de deus) e assim como Ele, criará algo a sua imagem e semelhança.

Esta semana escutamos os seus primeiros murmúrios. Está acordando. Vem da Ásia e tem ecos no novo mundo…

Sua pegada tem a potência de dez milhões de TNT. E quando finalmente esse “novo-deus” abrir seus olhos, encantados com a luz que nos varrerá da face da terra, não poderemos identificar sua íris sem nos queimarmos ou enlouquecermos antes. E é nesse momento, sem os corpos com os quais não mais teremos – sendo apenas uma vaga lembrança- que estaremos estranhamente unidos, como nunca estivemos antes. Num processo o qual os cientistas chamam agora de fusão nuclear….

De repente voltei-me para o desenho. Então dei a Júlia, a explicação que me pareceu mais sensata. A única que poderia dar:

– Júlia, não há mais lápis de cor azul para pintarmos o céu. Pinte de vermelho. Pinte tudo de vermelho!

 

 

 

William Eloi

Escritor e ex-guitarrista da banda de rock Electrilove.

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