Rio Grande do Norte, domingo, 17 de dezembro de 2017

Carta Potiguar - uma alternativa crítica

publicado em 15 de setembro de 2017

“Comunistas Fazem Sexo Melhor?”: sexo em um país dividido

postado por Wilson Ferreira

A oposição entre Capitalismo e Comunismo durante a Guerra Fria não significou somente a divisão entre diferentes modelos econômicos e políticos. Mas também diferentes vidas sexuais em cada lado do muro que dividia a Alemanha. O documentário “Comunistas fazem Sexo Melhor? – Sexo na Alemanha Dividida” (2006) confirmaria décadas depois as teses da chamada Nova Esquerda alemã nos anos 1970 a respeito da exploração da sexualidade pela “indústria da consciência”: enquanto na Alemanha Oriental o sexo era francamente discutido nas escolas e na TV, no Ocidente a chamada “revolução sexual” teria sido apenas uma “revolução de vendas” com a expansão da indústria pornográfica e publicitária.

Quarenta anos depois da publicação do livro de Michael Schneider, Neurose und Klassenkampf (Neurose e Luta de Classes, publicado no Brasil como Neurose e Classes Sociais pela Zahar Editores), marco da chamada “Nova Esquerda” nos anos 1970, eis que em 2006 André Meir dirigiu um documentário para a TV alemã chamado “Liebte der Osten Anders? – Sex im geteilten Deutschland” – “Comunistas Fazem Sexo Melhor? – Sexo na Alemanha Dividida”, confirmando algumas teses de Schneider a respeito da exploração da sexualidade pela “indústria da consciência” – veja o documentário abaixo, com legendas em inglês.

Na Alemanha, a chamada “Nova Esquerda”, corrente teórica antidogmática que pretendia estabelecer uma síntese freudiano-marxista nas investigações sobre a exploração das fantasias, desejos e o inconsciente pela mídia e sociedade de consumo foi representada por pesquisadores como Fritz Haugh, M. Schneider, Dieter Prokop, M. Busselmeir etc. – que alguns chamam de “nova geração da Escola de Frankfurt”.

Todos eles viveram o contexto da chamada “revolução sexual”, principalmente desencadeada pelo anúncio da pílula anticoncepcional nos anos 1960 que, definitivamente, desatrelou a sexualidade das funções de reprodução e dos papéis social do matrimônio e da família. As consequências econômico-culturais foram a expansão da indústria pornográfica e a erotização generalizada da mídia, publicidade e sociedade de consumo. Mas a chamada Nova Esquerda não via em tudo isso um movimento de libertação mas, ao contrário, uma estratégia de “revolução nas vendas”.

Vida sexual sob o capitalismo e o comunismo

Filmes sobre educação sexual na TV
eram comuns na Alemanha Oriental

O documentário explora as diferenças na vida sexual de alemães orientais e ocidentais dentro do período entre o erguimento e a derrubada do Muro de Berlim em 1989, apresentando a tese de que as mulheres comunistas da Alemanha Oriental tinham uma vida sexual melhor que as do Ocidente. O documentário compara os costumes sexuais pós-guerra. Enquanto as mulheres da Alemanha Ocidental eram submetidas aos conceitos de família, feminilidade, os deveres domésticos para com seus maridos e o tabu relacionado à discussão de assuntos sexuais em público ou diante de crianças, na Alemanha Oriental teríamos um cenário totalmente oposto: as mulheres eram membros ativos da força de trabalho, a sexualidade era discutida abertamente na escola e na televisão e o sexo era vinculado muito mais ao amor do que ao casamento.

Historiadores e sexólogos são entrevistados, entre animações bem humoradas, notícias de arquivo e clipes de filmes pós-guerra na Alemanha, proporcionando uma comparação sempre informativa não só entre as duas Alemanhas, mas entre os costumes sexuais capitalistas e comunistas. 

“Em nenhuma área a emancipação feminina avançou tanto quanto na sexualidade. As mulheres davam as regras na cama. Isso era muito típico da Alemanha Oriental”, diz um especialista ouvido no filme. No final dos anos 1960, uma em cada três mulheres trabalhava fora na Alemanha Ocidental; do lado Oriental eram 70%. Historiadores e sexólogos defendem no documentário que este papel protagonista da mulher influía positivamente em sua vida sexual.

Segundo o documentário, quando os Beatles aparecem na Alemanha Ocidental para fazer os célebres concertos em Hamburgo e Paul McCarthney defendeu a utilização da pílula em uma entrevista coletiva para a imprensa dando início à revolução sexual naquele país, o sexo já era um tema aberto e cotidiano na Alemanha Oriental, mesmo em um país fortemente controlado por um Estado policial: a repressão era antes de tudo política e não religiosa (como na Alemanha Ocidental) – livres da religião os comunistas podiam se dedicar aos prazeres sexuais sem culpa em um local onde a temida polícia secreta Stasi não vigiava: a cama.

 

Sexo sequestrado pela indústria do entretenimento

O documentário toca em um ponto nevrálgico da discussão: se a pílula foi uma revelação para as mulheres ocidentais, não foi uma mudança tão radical como a que já existia do outro lado do muro. Principalmente porque no Ocidente a revolução sexual foi rapidamente incorporada pela música, moda e a indústria da Publicidade. Centímetro por centímetro as imagens publicitárias começaram a se aproximar das zonas erógenas. A liberdade sexual oferecida pela pílula foi rapidamente absorvida pelo marketing e revistas pornográficas.

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Wilson Ferreira

Jornalista e professor na Universidade Anhembi Morumbi/São Paulo na área de Estudos da Semiótica. Pesquisador CNPQ do grupo de pesquisas "Cinema e Sagrado no Cinema e Audiovisual e autor dos livros "O Caos Semiótico" e "Cinegnose" pela Editora Livrus. Editor do blog "Cinema Secreto: Cinegnose" sobre confluências entre Gnosticismo e Sagrado no Cinema, Audiovisual e Cultura Pop em geral.

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