Rio Grande do Norte, terça-feira, 21 de novembro de 2017

Carta Potiguar - uma alternativa crítica

publicado em 7 de novembro de 2017

As 10 revelações gnósticas na série Philip K Dick’s Electric Dreams

postado por Wilson Ferreira

Philip K. Dick escreveu seus contos sob a sombra do macarthismo da Guerra Fria onde a lealdade e confiança eram as principais armas contra a traição e delação de um sistema totalitário. Mas para ele, esse sistema não era apenas político, mas cósmico – obra de um Deus demente, um Demiurgo Criador que nos aprisiona por meio da ilusão moral (culpa) e ontológica (o princípio de realidade). A nova série da rede britânica Channel 4 Philip K Dicks Electric Dreams (2017-) adapta esses contos de ficção científica que conduziram o escritor até a violenta epifania mística em 1974, na qual teve visões, sonhos e revelações místico-religiosas que o levaram ao gnosticismo cristão. Os 10 contos que compõem a primeira temporada da série apresentam não só a atmosfera do anticomunismo da Guerra Fria do momento em que foram escritos. Mas didaticamente nos mostra os 10 grandes princípios da Revelação Gnóstica que orientaram toda a obra do escritor. Por isso Philip K. Dick tornou-se visionário: cada vez mais a realidade atual se assemelha a um conto dele.

O grande confronto digno do homem está entre a Tragédia (a clássica vitória grega do Destino sobre o homem) e o Heróico (moderno e faustiano) – e isso acontece pelo colapso do Tempo e Espaço, satisfazendo a morte em seus próprios termos: você não aproveita porque morre. Mas é a sua morte, não uma morte imposta a você violando sua natureza: é o resultado lógico do que você é, e não do que o mundo e o destino sejam. (The Exegesis of Philip K. Dick) 

O mundo atual está cada vez mais parecido com as visões distopicas para o futuro do escritor Philip K. Dick (1928-1982). Não só pelos temas da ganância corporativa, controle autoritário, inteligência artificial, drogas e tecnologias revertidas contra a própria humanidade.

Notícias recentes como a do novo Iphone que desbloqueia através de um dispositivo de reconhecimento facial, modelos robôs fotografados em editoriais de moda ou o prefeito de São Paulo propondo uma gororoba processada para alimentar os pobres lembrando filmes sci fi distopicos como No Mundo de 2020 (1973), nos faz sentir que a vida mais e mais se parece com um conto de Philip K. Dick (PKD).

Os créditos iniciais da nova série do Channel 4 (rede de TV britânica) Philip K. Dick’s Electric Dreams (2017-) já nos revelam essa atualidade do visionário escritor: um robô debruçado em um laptop Mac se arrasta para trás de um pilar; um quinteto de bebês com cordões umbilicais flutuantes fazem uma roda de mãos dadas; luminosos de neon mostrando uma mulher com quatro seios numa paisagem urbana noturna anunciam serviços sexuais entre outras cenas que revelam o apelo contemporâneo da adaptação de contos de PKD escritos na década de 1950.

Nesta primeira temporada são 10 contos: até aqui já foram apresentados The Hood Maker, Impossible Planet, The Commuter, Real Life, Crazy Diamond, Human Is. Nas próximas semanas: Kill All Others, Autofac, Father Thing, Safe and Sound. 

Nessa antologia de contos percebe-se a atmosfera da época em que foram escritos, momentos do macarthismo e anticomunismo do início da Guerra Fria: Estados totalitários, delações, traições e o valor da lealdade e companheirismo como forças espirituais para enfrentar um universo corrompido e decadente.

Philip K. Dick (1928-1982)

Por que Hollywood adora Philip K. Dick?

Mas por que as visões de PKD tornaram-se atemporais, transcendendo sua própria época? E principalmente: por que, apesar do escritor combinar misticismo com engajamento político, o mainstream do entretenimento adora PKD?

É um dos autores de ficção mais adaptados no cinema e audiovisual: Blade Runner, Total Recall, Minority Report, Paycheck, A Scanner Darkly, The Adjustment Bureau e a recente série Amazon The Man in The High Castle que mostra uma História alternativa na qual a América foi controlada pelos nazistas na Costa Leste e pelo império japonês na Costa Oeste – os nazistas dominaram primeiro a tecnologia nuclear, mudando todo o desfecho da Segunda Guerra Mundial.

Talvez a resposta comece nas críticas negativas feitas ao estilo literário de PKD, para horror dos fãs confessos do escritor: PKD não foi um bom escritor – há uma escassez de prosa e muitos diálogos são desajeitados. Certamente ele não chegou ao talento narrativo de alguns autores da sua geração como Ray Bradbury.

Muitas vezes sente-se que as ideias deveriam estar explodindo na cabeça do escritor a um tal ritmo que ele não tinha tempo para jogos de palavras e meandros de estilo e retórica. Por exemplo, o roteirista Ronald D. Moore (Battlestar Galactica), que adaptou o conto “Exhibit Piece” (na série, o episódio chama-se Real Life), disse que da estória originou pouca coisa restou – mas permaneceu “o coração e o cérebro que originaram o conceito da narrativa”.

Por isso, por trás do estilo cru e direto de PKD está aquilo que atualmente Hollywood mais busca: conceitos, ideias, visões.

Visões de PKD

E essas visões sempre foram a de um homem que sempre teve a sensação de que a realidade, como costumamos percebê-la, é uma mera fachada. PKD sempre sentiu que havia algo de moralmente errado em um universo no qual, por exemplo, um inocente gato poderia ser alegremente atropelado por um carro. Por isso, seus romances sempre abordaram o tema do homem prisioneiro de maquinações de um poder além do seu controle.

Portanto, ele era essencialmente gnóstico. Até culminar na sua revelação (gnose) em 1974 quando, a semelhança do episódio “Real Life”, teve visões hipnagógicas, audições, sonhos tutelares, e toda a visão de milhares de gráficos coloridos lembrando “a pintura não-objetiva de Kandinsky e Klee”, como descreveu – sobre isso clique aqui.

Seus contos e livros foram a preparação para essa gnose brutal de 1974, “a morte antes de você morrer”, como afirmou. Podemos encontrar na obra do escritor 10 princípios da “revelação gnóstica”, como PKD mostra no livro The Exegesis of Philip K. Dick, 2011.

Até aqui, desde o Gnosticismo Pop de Matrix e Show de Truman, Hollywood tem se sentido atraída por essas revelações: são icônicas, misteriosas, um verdadeiro thriller místico-religioso, que parece ir ao encontro da percepção generalizada dos espectadores nesse mundo em que vivemos: há algo não só muito errado – mas também perigoso e mortal.

Portanto, a chave de compreensão da série Philip K. Dick’s Electric Dreams, isto é, o sentido que une os 10 contos da primeira temporada, é entender como cada um dos episódios se conecta com essas revelações.

Revelações de PKD na série

Revelação 1: O Criador deste mundo é demente

A Criação é uma imensa máquina perversa de um Demiurgo dividido em diversos planos governados por Arcontes. Mesmo depois da morte, o desafio para a alma é navegar entre essas autoridades cósmicas sem ser ludibriado pelas ilusões. O Estado totalitário do primeiro episódio “The Hood Maker”; a corporação especializada em criar ilusões para turistas em tour espaciais em “The Impossible Planet”; uma outra corporação que fábrica “consciências quânticas” para androides terem “élan vital” em “Crazy Diamond” ou uma misteriosa cidade que vicia as pessoas em versões alternativas “felizes” para suas vidas.

Em cada episódio há algum tipo de Demiurgo, auxiliado por seus Arcontes, em algum plano da existência criando realidades para iludir e explorar. São entidades amorais, isto é, moralmente irresponsáveis onde os fins justificam os meios.

 

Revelação 2: O mundo não é o que parece. Um véu de ilusão é criado a fim de obscurecer a natureza demente do Criador.

Os discursos dos Criadores Demiurgos são sempre altruístas e positivos, nos quais a distância entre os meios e os fins praticamente inexiste. Em “Real Life” o dispositivo neural é para “tirar férias da própria vida”, embarcando em uma realidade alternativa virtual; a leitura telepática usada pela polícia da União sob o pretexto da segurança e democracia que vira um poder autônoma e descontrolado no episódio “The Hood Maker; ou como em “The Commuter” no qual uma entidade metafísica aparentemente altruísta criando realidades alternativas felizes, atropela o livre-arbítrio e o amor. A suposta felicidade vira vício e escravidão.

Em cada episódio há uma ilusão que encobre a falha da Criação: entropia, morte e “reversibilidade irônica”: felicidade vira escravidão, democracia vira totalitarismo e o amor pela vida cria a morte – como em “Crazy Diamond” onde as “consciências quânticas” (“jacks” e “jills”) têm uma vida breve e começam a falhar (dispositivo corporativo de “obsolescência planejada”) e, como nos replicantes em Blade Runner, uma “CQ” luta para viver mais.

 

Revelação 3: Há um Reino melhor, acima dessa Criação, e todos os esforços devem ser dirigidos para: voltar para lá; trazê-lo para cá.

Invariavelmente, os protagonistas são “estrangeiros” – vivem relações de alienação e estranhamento em seus ambiente familiares ou cotidianos. Sentem- se como exilados, como se aqueles planos da realidade em que vivem não fossem as deles. “Real Life” temos dois personagens, cada em planos virtuais intercambiáveis, sem saber a que mundo pertencem.

Há perda de memórias, fragmentos de lembranças, déjà vus. Há sempre alguma reminiscência de algum lugar distante no tempo e espaço.

“Real Life” é o episódio que melhor explora essa tensão entre o “lá e cá”.

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Wilson Ferreira

Jornalista e professor na Universidade Anhembi Morumbi/São Paulo na área de Estudos da Semiótica. Pesquisador CNPQ do grupo de pesquisas "Cinema e Sagrado no Cinema e Audiovisual e autor dos livros "O Caos Semiótico" e "Cinegnose" pela Editora Livrus. Editor do blog "Cinema Secreto: Cinegnose" sobre confluências entre Gnosticismo e Sagrado no Cinema, Audiovisual e Cultura Pop em geral.

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