Rio Grande do Norte, segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Carta Potiguar - uma alternativa crítica

publicado em 30 de novembro de 2017

Artistas debatem o Teatro Sandoval Wanderley e Alecrim neste domingo, 03

postado por Leonardo Dantas

Na ocasião também será debatida a visita recente dos vereadores ao local no início desta semana

Reprodução

Nesta terça, 28/11, a Comissão de Cultura da Câmara Municipal de Natal realizou uma visita ao Teatro Sandoval Wanderley com intuito de observar as condições do prédio e apresentar à imprensa local um posicionamento inicial acerca da aprovação do Projeto de Lei de autoria da Prefeitura do Natal que autoriza a entrega do prédio público à iniciativa privada. A visita foi anunciada no site da CMN como “visita técnica” ao Teatro municipal, entretanto, aconteceu sem nenhuma iluminação no local, sem a presença de engenheiros, corpo de bombeiros e profissionais técnicos capacitados para emitir laudos infraestruturais válidos.

Interior do Teatro abandonado há mais de 7 anos. (Foto: Verônica Macedo)

A visita dos vereadores juntamente com os técnicos da FUNCARTE no equipamento cultural desativado há mais de sete (07) anos teve, portanto, um caráter político e preocupante. Durante toda a visita, estiveram presentes os vereadores Ubaldo Fernandes (PMDB), Eleika Bezerra (PSL) e Dickson Júnior (PSDB), que apresentaram indignação diante do prédio empoeirado e mofado. À vista das pessoas presentes, entre artistas, assessores, moradores, comerciantes informais e jornalistas, os comentários que o prédio está condenado pelo abandono e a falta de estacionamento foi quase unânime entre os vereadores. Este posicionamento, além de crítico, é nocivo à toda população natalense, que confia nos representantes políticos para defender o uso acessível dos bens públicos além de buscar estratégias resolutivas no que se refere à mobilidade urbana da cidade.

O tom de abandono precisa ser demarcado como uma responsabilidade integral do poder público, que durante anos ignorou atos públicos de artistas e emendas parlamentares aprovadas e sancionadas na Câmara Municipal de Natal para efetivar a reforma do Teatro Sandoval no prédio atual, tais como as emendas da ex-vereadora Amanda Gurgel (PSOL) em 2015 e a senadora Fátima Bezerra (PT) em 2011. Hoje, Natal conta com dois teatros fechados e a permanência destes teatros abandonados é resultado de um descaso político histórico acirrado pela falta de vontade política de representantes políticos e técnicos que ocupam cargos na pasta da cultura todos estes anos.

A visita aconteceu sem iluminação e a presença de de engenheiros, corpo de bombeiros e profissionais técnicos capacitados para emitir laudos infraestruturais válidos. (Foto: Catarina Santos)

Em 2015, o prefeito Carlos Eduardo Alves e o secretário Dácio Galvão prometeram no encontro da Rede Potiguar de Teatro que ocorreu no Barracão do grupo Clowns de Shakespeare com presença da classe artística: a reabertura do Teatro Sandoval Wanderley no bairro Alecrim, a construção de um novo teatro na Zona Norte da cidade e a continuidade de espetáculos abertos e acessíveis à população natalense no fim do ano (Edital Natal Em Cena). Anos depois, o prédio do Teatro Sandoval Wanderley que recebeu Zé Celso em 2006 e é o berço de tantos artistas potiguares está sob ameaça da iniciativa privada, o teatro da Zona Norte não foi construído, escolas de teatro municipais foram fechadas e os editais encerrados.

Instalações do Teatro na época do seu fechamento em 2009. (Foto: Reprodução)

A destruição de um bairro de comércio popular, boêmio e cultural para dar lugar à vontade individual e lucro de empresários de outros locais e países, não pode ser legitimada e incentivada através da posição política de vereadores e da gestão executiva municipal da cidade. O poder público deve garantir o direito do povo à cultura e zelar pelos equipamentos culturais que o município tem ao seu dispor para utilizar como ferramenta de formação de público e educação cultural contínua numa cidade. Atualmente o Alecrim está sofrendo com a investida de diversos empresários e a proposta de transformar o bairro em um shopping não gera lucro à população que ali se encontra durante anos, pelo contrário: os impostos na região irão aumentar e o bairro poderá perder um importante equipamento de movimentação cultural.

(Foto: Catarina Santos)

Refletir sobre a permanência do Teatro Sandoval Wanderley no prédio atual no bairro Alecrim é respeitar a premissa que a cidade pertence às pessoas e que a gestão municipal, composta pela Prefeitura do Natal e a Câmara Municipal de Natal, não é incompetente para gerenciar seus processos administrativos e seus equipamentos públicos de cultura. O argumento da construção de um novo prédio na Ribeira ou em outro local no bairro Alecrim entregue pelos empresários à gestão, utilizado tantas vezes por vereadores em entrevistas, não respeita a meta do Plano Nacional de Cultura que versa sobre a não concentração de equipamentos culturais numa zona da cidade e apenas atende ao pedido do empresário que requer o local ao governo para um fim lucrativo privado.

Neste domingo, 03 de dezembro, haverá uma roda de conversa articulada por artistas autônomos e grupos para debater a questão do Teatro Sandoval Wandeley compondo mais uma atividade da edição da Eco Praça que acontecerá neste fim de semana, a roda tem como tema “A quem pertence a cidade: o Teatro Sandoval e o Alecrim em debate” e ocorrerá na Praça André de Albuquerque, conhecida como Praça Vermelha, 03/11/2017, a partir das 15 horas.

Leonardo Dantas

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