Rio Grande do Norte, quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

Carta Potiguar - uma alternativa crítica

publicado em 12 de dezembro de 2017

“Black Wednesday” UnP: Reflexões sobre o antes e o depois das demissões em massa de 2017

postado por Carta Potiguar

Reflexões sobre o antes e o depois das demissões em massa de 2017

Na última quarta-feira, 06/12/2017, a Universidade Potiguar (UnP) implementou mais uma de suas ações de demissão em massa. Dessa vez a instituição contemplou professores, com mestrado ou doutorado, e colaboradores de diversos setores. Além de outros profissionais não vinculados à docência.

O número exato de demitidos, contabilizados em dezenas, não foi explicitado pela instituição. O ritual da demissão, segundo relatos de diversos dos professores exonerados, consistiu no recebimento de um telefonema convocando-os para uma “reunião” no dia seguinte. Ao comparecer ao local, o profissional era encaminhado a uma sala onde o(a) coordenador(a) de sua Escola, muitas vezes declarando-se consternado(a) e solidário(a), avisava que a empresa não mais precisaria de seus serviços.

Ouvimos de alguns doutores dispensados após mais de uma década de dedicação à casa, que lhes havia sido alegado que eles seriam “caros para a instituição”, em termos salariais.

Antes do final do dia das demissões a notícia já havia chegado aos alunos que, indignados, começaram a protestar por terem perdido aqueles que, muitas vezes, eram tidos como seus melhores professores. Esses alunos exigiam uma explicação para os cortes e receberam da UnP duas assertivas:

  1. Cabe ressaltar que os desligamentos têm como base o processo semestral de avaliação de desempenho realizado pela Universidade, que leva em consideração a opinião de mais de 75% de seus estudantes, bem como coordenadores de cursos, além de considerar questões administrativas, tais como assiduidade, faltas, atrasos, entre outros.”;
  2. As demissões nada tem a ver com a recente Reforma Trabalhista brasileira.

Será mesmo?

Deste ponto, segundo dados que apuramos, passaremos a explicar alguns fatores que nos levam a entender que, ambiguamente, as demissões não tem APENAS a ver com a Reforma Trabalhista, embora estejam em consonância com a fase em que vivemos no nosso país e com as citadas Reformas. Para entendermos esse processo, voltemos dois anos no tempo…

Em 2015, após a entrada da Laureate Education no mercado de ações, fato que nos leva a questionar sobre o quanto os investidores passariam a exigir números positivos de resultados financeiros à instituição, a UnP anunciou aos seus professores um grande “pacote de inovações” que foi denominado EduAction.

Dentre as mudanças anunciadas estavam a passagem de 20% das cargas horárias de cursos presenciais para a modalidade EAD (Ensino à Distância); A extinção de disciplinas consideradas importantes para cursos específicos; A obrigatoriedade de disciplinas como Empreendedorismo ou Libras (!?!) na modalidade EAD; Redução significativa na carga horária de disciplinas presenciais que passariam a contar com horas contabilizadas para atividades dos alunos em casa (?!?).

Como efeito imediato das “reformas internas” na Universidade, verificou-se a redução da carga horária de professores, o uso de tutores à distância, muito mais baratos do que professores presenciais, nas disciplinas de EAD bem como o estreitamento do tempo que os professores tinham para implementar discussões aprofundadas com seus alunos. Também fizeram parte dessas reformas o “enxugamento” do organograma: antes, cada curso possuía uma coordenação independente e cada escola (composta por vários cursos), um diretor. Após as reformas as escolas passaram a ter uma única coordenação para todos os cursos e, escolas distintas, até dispares em áreas do conhecimento, passaram a ter um único diretor. Foi nesse mesmo ano (2015) que a UnP demitiu mais de cem professores.

O passo seguinte do EduAction foi promover cursos de capacitação que tinham como proposta preparar os professores da instituição para uma “nova forma de ensinar”. Esses cursos foram oferecidos a partir de uma plataforma on-line de treinamento para os professores da casa, denominada EuProfessor. Ocorre que ao fazer os cursos, os professores da UnP se depararam com modelos pautados em uma espécie de “fordismo educacional”, que pregava de forma bem pouco acadêmica, até “messiânica”, que alunos só aprendem se as aulas fossem necessariamente conduzidas a partir de atividades práticas. O modelo de ensino que alega pautar-se nas Taxonomias de Bloom (teorias do ensino surgidas no final dos anos de 1940) vem sendo apresentado nos módulos dos cursos on-line a partir de abordagens “propagandistas” anunciadas sempre por adjetivações motivacionais como “ensino inovador”, ou ainda “vencedores aceitam inovações”. Nos cursos do EuProfessor, muito pouco do que é ministrado demanda leituras e discussão de artigos ou outras publicações acadêmicas. Os procedimentos anunciados como “inovadores” são propostos para cursos radicalmente diferentes entre si, tais como Letras ou Medicina. Nos argumentos apresentados nas aulas on-line, modelos prontos de aulas devem seguir sempre as mesmas etapas propostas e essas etapas precisam previlegiar  dinâmicas, práticas, jogos e metodologias ativas em detrimento de aulas expositivas/dialogadas e leituras densas, aprofundadas.

Diante do exposto, muitos professores da UnP passaram a perceber o EuProfessor menos como uma plataforma de capacitação acadêmica e mais como promotor de convencimento para que os profissionais da instituição abracem o pacote de novidades do Eduaction. Dentre as muitas queixas exprimidas por diversos professores desde então, estão a falta de autonomia que modelos prontos de ensino produzem e o desrespeito às especificidades educacionais demandadas por cada curso em sua respectiva área de conhecimento.

Fato é que, para além da Reforma Trabalhista do governo Temer, a UnP vem já há algum tempo fazendo sua reforma interna.

As adequações que essas reformas demandam refletem claros interesses em cortes de gastos que seguem uma lógica de mercado na qual os preceitos acadêmicos de construção de conhecimento são colocados em segundo plano. Tudo isso, é bom ressaltar, vem “embalado” por slogans motivacionais do tipo “pense fora da caixa”, “saia do seu quadro”, incansavelmente repetidos tal qual um jingle que deve “grudar” na mente de seus ouvintes.

Por padrão, nesses semestres de EduAction, professores que se mostram adeptos ao modelo (por adesão ou coerção) tem garantido um tempo a mais de sobrevivência na instituição. Professores que tecem críticas (mesmo que construtivas), questionam pontos do modelo (mesmo quando pautados em bases críveis e estudos reconhecidos), ou simplesmente recusam-se a abrir mão de suas respectivas autonomias na condução do processo de ensino e aprendizagem , tem sido demitidos ao final de cada semestre.

O que há, então, de novidade, de agravante, nas demissões em massa de 2017.2? Vejamos:

  1. Entre 2015 e 2017 a UnP lançou um novo plano de cargos e salários no qual o professor que ingressa na Universidade, independentemente da titulação que possua, será remunerado como especialista e terá que galgar, com o tempo, através de avaliações institucionais semestrais, salários mais adequados às suas tutilações (antes havia valores de hora aula diferenciados para especialistas, mestres e doutores). O novo plano salarial permite, portanto, que um doutor antigo na casa seja demitido e um novo doutor seja contratado por uma hora-aula muito mais baixa;
  2. No último dia 29/11 foi anunciado simultaneamente a todos os professores da Universidade, o pacote “EduAction 2.0”. Dentre as novidades anunciadas estão a padronização nacional das grades dos cursos para toda a rede Laureate; padronização nacional de cada aula a ser ministrada, o que coloca o professor como mero executor de momentos de ensino prontos e impostos; lançamento de disciplinas que servirão simultaneamente a vários cursos de diversas áreas; formação de “superturmas”, compostas pela junção de centenas de alunos de cursos distintos em uma única sala com um único professor; alteração na duração de cada tempo de aula de maneira que pode reduzir sensivelmente a já reduzida carga horária que os professores da casa vinham recebendo.

O resultado não poderia ser outro: para a implantação de um modelo tão “ousado”, professores que se mostravam inadequados, seja por serem “caros” e poderem ser substituídos por profissionais mais baratos, seja por demonstrarem-se críticos à precarização do ensino em seus preceitos acadêmicos e científicos, precisaram ser excluídos dos quadros da empresa.

Curioso é a forma como o processo de cortes foi conduzido:

Dois dias após anunciar o Eduaction 2.0, coordenadores avisaram seus professores, via whatsapp (sem utilizarem, portanto, o e-mail institucional), que o final do semestre letivo precisaria ser adiantado em seis dias. A mensagem foi enviada individualmente para cada professor e não foi postada nos grupos de whatsapp dos cursos ou escolas, o que dificultou qualquer discussão coletiva acerca da determinação que, além de não ter sido justificada em nenhum momento, foi inegociável.

Dois dias antes das demissões, diretores de curso anunciaram que todos os professores seriam excluídos dos grupos de whatsapp administrados por funcionários e coordenadores da UnP. Justificou-se na ocasião que esses grupos seriam reorganizados e voltariam a funcionar após as férias. Ora, sabemos que grupos de Whatsapp não pertencem necessáriamente à instituição. Ainda assim, sabendo do volume imenso de discussões coletivas que as demissões em massa poderiam gerar, a empresa optou por cortar comunicações entre membros de grupos, numa atitude no mínimo questionável no tocante à liberdade de expressão.

Como dissemos no início desse texto, ao ser questionada pelos alunos descontentes com as demissões de seus professores, a UnP, através de sua Assessoria de Imprensa, divulgou nota que dá a entender que foram demitidos professores mal avaliados pelos alunos, mesmo que tenhamos conhecimento de professores demitidos cujas avaliações estiveram sempre acima dos 80% ou 90% de aprovação.

Assim, é possível perceber que a última quarta-feira, o dia das demissões em massa, da “queima geral”, a “Black Wednesday” da UnP não ocorreu apenas como adesão direta às reformas trabalhistas recentemente implantadas no país. Há um contexto interno que precisa ser explicitado e avaliado. Já há algum tempo a UnP e a Laureate tem se preparado para assumir novas formas de proceder com seus profissionais, cursos e alunos, no sentido de padronizar processos, cortar gastos, maximizar ganhos.

Nessa lógica onde a Educação é apenas um negócio, onde as produções acadêmicas e científicas são deixadas em segundo plano, médias são abaixadas, conteúdos são simplificados e banalizados em nome de padronizações que criam facilidades, os alunos que lutam não apenas por um diploma, mas, por formações sólidas e aprofundadas poderão não ser contemplados. Depois da liquidação da ùltima quarta-feira, o saldo apurado foi, entre outros fatores, dezenas de profissionais competentes demitidos, centenas de alunos perplexos, desconfiados e temerosos pelo vem aí nos próximos semestres.

Esperemos, atentos, o teor e o alcance das próximas promoções!

5 Responses

  1. Maria José disse:

    Gostaria de contribuir com essa discussão, colocando algumas reflexões, como professora da UnP e mãe de um aluno da mesma IES:

    – Como professora: sempre me sinto indignada quando vejo colegas de trabalho chegando atrasado e liberando os alunos mais cedo; atrasando digitação de notas; colocando “pontinhos” (……) para burlar o sistema de planos de ensino e cronogramas de aulas para fazer de conta que preencheu; fazendo trabalhos para agraciar alunos e ser bem avaliado, pensando com isso que evitaria ser desligado porque tem uma boa avaliação por ser “legal”!
    Ser professor não é isto!
    Obviamente, não fui desligada! Poderia ter sido, porque sou doutora e sou “cara” para a IES. Iria ser difícil sim, não resta dúvida. Contudo, seria capaz de entender o momento econômico que vivemos e a necessidade de se cortar custos… não estamos fazendo isto em nossas casas? Não está acontecendo isto em todo Brasil? Porque seria diferente no RN, onde a miséria está instalada há bastante tempo?

    – Como mãe: fico ainda mais indignada quando meu filho liga as 15:30h dizendo que sua aula já acabou! E quando pergunto: você não teria aula a tarde toda? Escuto a resposta: “o profe liberou mais cedo”; ou ainda quando está “remanchando” para sair de casa, e alerto sobre o horário do início da aula, e ele diz: “o profe nunca chega na hora”; ou, “o profe não faz chamada”… ou pior: “relaxe, mãe! Certinha só tem você!”.
    Agora, alunos que sempre reclamam desses professores, vem querer fazer movimento em defesa desse tipo de professor?!
    Ora, me poupem!

    Pergunto aos professores que estão insuflando os alunos:
    Que tal se a UnP mostrasse o seu extrato dos diários de classe? Todas as aulas iniciaram no horário correto e terminaram no horário correto? Você finalizou todas as suas aulas? Lançou as notas no prazo? Fez avaliações dignas de aferir bem os resultados dos alunos de acordo com os conteúdos que foram ministrados?
    Que tal se a UnP mostrasse o registro das catracas com data e hora de entrada e saída?
    Que tal se a UnP mostrasse os planos de ensino que elaboram colocando “pontinhos” para fugir da crítica do não preenchimento do sistema?
    Que tal se a UnP divulgasse suas avaliações e reclamações que os alunos enviam para a ouvidoria?
    Permitem que a UnP faça isto???

    A UnP nunca faria isto, porque trabalha pautada na ética e responsabilidade!
    Renovar seu quadro é um direito de qualquer organização, e muito mais quando está fazendo isto em busca de qualidade!

    Como professora e mãe: prefiro que meu filho seja reprovado se não estudar, do que ter aulas com alguns professores que poderiam ter feito seu trabalho bem feito, e agora pousam de justiceiros indignados, instigando alunos que nunca reclamaram quando eram liberados mais cedo, ou quando o professor faltava!

    • José Mário disse:

      Prezada professora.

      é interessante como seu texto consegue reafirmar e reforçar a péssima qualidade da Universidade Potiguar – UnP, ao invés simplesmente de defender suas ações demissionais.
      Quer dizer, então, que além de demitir professores bem avaliados pelos alunos e possuidores de reconhecimento acadêmico para poder contratar outros, num plano de cargos mais barato além de empurrar goela abaixo aos alunos um modelo educacional automatizado e superficial, além de enfiar 300 alunos na mesma sala de aula sob a tutela de um único professor, a UnP ainda passa semestres inteiros terminando aulas mais cedo e permitindo que professores ajam de forma desleixada com os alunos? Quer dizer que a UnP não consegue ser satisfatória em qualidade nem para uma professora da casa que, também, é mãe de aluno e insatisfeita com a instituição?

      Quando li o texto dessa matéria me convenci de que a UnP estava no fundo do poço. Lendo sua resposta, vejo que no fundo desse poço só tem lama.

  2. Bicha disse:

    Texto excelente e reflexão mais que oportuna. Parabéns a Carta Potiguar!

  3. Ildérica Nascimento disse:

    Carta Potiguar com certeza teve um ótimo informante que narrou em detalhes exatamente o que acontece na e com a UnP. Parabéns pelo texto. Parabéns ao ou a informante com conseguir explicar tudo tão bem não esquecendo nadam

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