Há vários mitos que permeiam as pesquisas eleitorais. Um bastante comum é o que afirma o efeito maléfico das sondagens, na medida em que motivaria muita gente, principalmente o eleitor pobre, de baixa escolaridade e sem “cultura política”, a votar naquele que está ganhando “só para não perder o voto”. A publicação da pesquisa, nesta lógica de pensamento, deve ser regulamentada sob pena de influenciar negativamente o processo democrático, que prevê a consolidação de um ambiente político de escolha no qual o eleitor esteja de posse de informação e livre de interferências externas.
O problema é que este eleitor, teoricamente desinformado, que enxerga a eleição como uma disputa de campeonato futebolístico e usa o levantamento para votar sempre naquele que está ganhando só existe na cabeça preconceituosa da classe média, que acredita ser a única classe portadora de disposições reflexivas. A única que tem inteligência para votar.
Além de partir deste pressuposto impensado, a idéia de regulamentação jurídica das publicações dos levantamentos está intrinsecamente relacionada com o período ditatorial pelo qual atravessou o Brasil. Durante o também chamado período de chumbo, as fraudes eleitorais eram normais, e, dada a correlação de forças estabelecidas, não era possível fazer muita coisa. Qualquer tipo de questionamento era severamente suprimido pelos censores. As pesquisas eleitorais despertaram a ira dos ditadores no momento mesmo em que começaram a demonstrar, através, principalmente, de sondagens de boca de urna, as contradições dos resultados advindos das urnas. Sempre ficava uma questão no ar – como era possível uma sondagem eleitoral, feita no dia da eleição, apresentar dados tão diferentes daquilo que depois sairia das urnas?! Os militares, preocupados em atribuir legitimidade às fraudes eleitorais, desenvolveram toda uma campanha em prol da desqualificação dos levantamentos. Portanto, muito de nossa a desconfiança com relação às sondagens interage com um imaginário social forjado pelos políticos de farda.
O discurso contestador das sondagens, apesar de aparentemente crítico, está, comumente, alicerçado em um preconceito de classe e em um retrospectivo político altamente autoritário.
O fato concreto é que, de um modo geral, as pesquisas influenciam mais os eleitores dos estratos médios e mais abastados, já que são esses que lêem os periódicos aonde, normalmente, as pesquisas são divulgadas. O trabalhador, mais dependente da urgência material e ocupando uma posição na divisão social do trabalho que lhe permite uma menor quantidade de tempo para “refletir sobre a política”, só deixa para conjeturar sobre em quem irá votar, ao contrário dos outros agentes, no momento em que as eleições acontecem de verdade. No instante em que a disputa invade as ruas e a televisão.
Não nos iludamos. O relacionamento do cidadão com a política não tem nada de universal. Este cidadão parte de um ponto de vista e da vista de um ponto. Sua interação, não apenas com a esfera política, mas também com a sociedade como um todo, tenderá a variar de acordo com sua a inserção social sincrônica e a sua consolidação biográfica enquanto um ser que recebeu, através do processo de socialização que atravessou, modos de ser, de fazer e de pensar o mundo no qual ele se encontra enredado.
Portanto, são os sujeitos que acompanham a política “mais de perto” que são influenciados pelos resultados das sondagens. É o eleitor que pode acordar pela manhã e tomar café lendo o jornal que veicula os números da disputa eleitoral, que realmente utiliza as sondagens como recurso cognitivo e, baseando-se nos levantamentos eleitorais, praticam o voto útil e não o suposto e irreal eleitor flamenguista.
Archive for April, 2010
ELEITOR FLAMENGUISTA
FHC: UM DESASTRE PARA A CULTURA
Não sou muito chegado a visão plebiscitária do mundo. Apesar de ter validade enquanto estratégia política para aqueles que a mobilizam, este modo de conceber a realidade não traz ganhos analíticos significativos.
Neste sentido, penso que o governo FHC, mesmo passando longe de ser uma brastemp, teve seus acertos.
No entanto, em matéria de cultura, o governo FHC representou um verdadeiro desastre para os brasileiros. É fato que a cultura nunca foi um pilar estratégico na administração pública brasileira. E aí não dá para culpar uma gestão por aquilo que é o somatório de inúmeros presidentes que passaram incólume.
Ocorre que a gestão FHC, através do Francisco Wefort, então ministro da cultura, criou um modelo regulatório altamente concentrador e excludente.
A Lei Rouanet, promulgada no período Collor, foi centralizada durante a gestão tucana em sua suposta capacidade de captação de recursos pela via da renuncia fiscal, sendo o carro chefe da política cultural do período FHC. A idéia era passar a bola para os empresários, incentivando-os a investir em cultura em troca de subsídios fiscais. Na prática, a escolha de qual projeto deveria ser contemplado pelos recursos passou a ser efetivada pelas empresas.
Resultado: os recursos cooptados pela lei não conseguiam, sequer, sair do eixo Rio-São Paulo. Muito dinheiro para os empresários da indústria cultural e pouco recurso para aqueles que não se enquadravam nesta perspectiva.
O governo Lula representou um verdadeiro salto qualitativo. Apesar de manter a lei Rouanet, criou um conjunto de medidas que desaguaram no Plano Nacional de Cultura, que está prestes a sair do forno. Hoje já é possível encontrar filmes sendo gravados no nordeste e as verbas do estado não são mais um anexo das grandes empresas culturais.
Muito falta a caminhar… Porém, em matéria de cultura, FHC nunca mais!

