O que representa a civilização e o progresso não é o livro, o telefone, a Internet ou a bomba atômica. A privada, sim. Onde os seres humanos esvaziam a bexiga e os intestinos é determinante para saber se ainda estão mergulhados na barbárie do subdesenvolvimento, ou se já começaram a palmilhar um caminho mais próximo ao El Dorado. As conseqüências desse fato simples e transcendental ao cotidiano das pessoas são vertiginosas.
No mínimo, um terço da população do planeta – uns 2,6 bilhões de pessoas – não sabe o que é um sanitário, uma latrina, uma fossa séptica, e faz suas necessidades como os animais, no mato, à beira de córregos e mananciais, ou em sacolas e latas que são jogados no meio da rua. Na Comunidade do Maruim, na zona portuária de Natal, não é diferente. Com pouco mais de 100 famílias morando no local, é generalizado o sistema das chamadas “privadas voadoras”.
Em outras palavras, trata-se de sacolas de plástico em que as pessoas fazem suas necessidades para em seguida atirá-las na rua (daí o nome). A prática eleva as doenças infecciosas no bairro a níveis altíssimos. E os principais atingidos são as crianças e as mulheres. Por quê? Porque cabe a elas cuidar da limpeza doméstica e do transporte da água, e com isso se expõem mais ao contágio do que os homens.
Morando num casebre que não chega a ter dois metros de largura, por dois de comprimento, a catadora de lixo, Ana Augusta Ferreira, ainda conserva um sorriso no rosto. Sua “casa” se resume a uma cama de solteiro, que ela divide com o marido, dois ventiladores quebrados, uma muda de roupas, alguns fios de viral, o berço da filha de um ano e dois meses que ela achou na rua e mais uma meia dúzia de bugingangas. Perguntei onde cozinhava e a resposta veio limpa e seca. “Não cozinho. Não tenho fogão por que não tenho comida”. Simples como um axioma. Além das ausências de comida e fogão, um banheiro, ou melhor, uma privada não se faz presente. “Necessidade a gente faz aqui, dentro de um saco e joga pela janela”, resume Augusta.
Para tomar banho, o procedimento é tão mambembe quanto o ato de atirar os excrementos porta a fora. Um balde e um pano úmido resumem todo o ritual. “Tem gente que ainda tem uma bica dentro de casa. Mas aqui é desse jeito. Ninguém o que é pior, tobar banho desse jeito ou tomar banho nesse rio poluído”, compara Ana Augusta. Paradoxalmente, a questão da água, indissociável da questão do saneamento, é talvez o principal problema que mantém homens e mulheres prisioneiros do subdesenvolvimento. Quando os pobres têm acesso à água, trata-se em geral de águas com todo tipo de bactérias, de males que os contaminam e matam.
Basta lembrar dos moradores que vivem no final do canal do Baldo, já próximo ao rio Potengi. Além da chuva, do esgoto e mais toda sorte de revés, a comunidade convive com a falta de creche e escola para os filhos. Sem terem lugar para ficar, muitas crianças ficam brincando na rua. Numa reportagem recente que fiz para O Jornal de Hoje, flagrei pelo menos cinco crianças tomando banho no final do canal do Baldo. O lugar recebe esgoto in natura. Eis tudo. “É uma tristeza essas crianças aqui. Os pais saem para trabalhar e o divertimento que eles têm é esse. Ficar tomando banho nessa água imunda”, comenta Maria Gorete, moradora do local há mais de 30 anos.
Em “Os miseráveis”, Victor Hugo escreveu que “os esgotos são a consciência da cidade”. Numa dessas digressões do narrador que pontuam o romance, enquanto Jean Valjean chapinhava na merda com o desmaiado Marius às costas, arriscou uma curiosa interpretação da história a partir do excremento humano. Sem a poesia nem a eloqüência do grande romântico francês, Gorete produz um verdadeiro haicai. “A chuva também derrubou a creche. Estamos esquecidos aqui”. A verdade é que viver em meio à sujeira é nefasto não apenas para o corpo mas também para o espírito, para a mais elementar auto-estima, para o ânimo que permite erguer a cabeça contra o infortúnio e manter viva a esperança, motor de todo progresso. “Nascemos entre fezes e urina”, escreveu Santo Agostinho.
Postado originalmente no Blog do Lado[R] por Felipe Mamede

