Desabafo: UERN e o concurso de 2010

Postado por Daniel Menezes Em 30 - 06 - 2010

Pessoal,

reproduzo o texto retirado do blog do Thadeu (http://blogdothadeu.blogspot.com/). Ele reclama de uma situação que sofreu no último concurso para professor de sociologia da Universidade Estadual do Rio Grande do Norte.

PS.1. É preciso ressaltar antes que também participei desse concurso. A seleção se estruturou, basicamente, da seguinte maneira – passamos por uma prova escrita, por uma didática, aonde ministramos uma aula sobre um tema sorteado; e participamos da prova de títulos. A prova escrita e a didática são eliminatórias (quem tira abaixo de 7 é eliminado) e de título é classificatória, ou seja, ela pode piorar ou melhorar a posição do candidato, de acordo com sua trajetória acadêmica, quantidade de publicações, etc. Porém, não há como mais ser eliminado. A prova escrita tem peso 4, a didática e a de títulos têm peso 3.
Ao participar desse concurso, tive a sorte de pegar o mesmo tema da prova escrita, em que fiquei em primeiro lugar, para ministrar na prova didática. Estranhamente, mesmo dissertando sobre tema idêntico em que fiquei mais de meio ponto a frente do segundo colocado, não consegui tirar nem um 7, sendo, desta forma, eliminado na segunda fase.
Além disso, um membro da banca agiu de modo, no mínimo, estranho, tentando invalidar tudo o que eu falei e me cobrando filiação teórica a uma determinada “escola”, – se é que senso comum intelectualizado pode ser assim denominado – que é tudo, menos sociologia. Achei o sistema de avaliação “exótico”, já que na prova escrita, que é sigilosa, tirei a maior nota do concurso. Já na didática, que é, pela sua própria natureza, aberta a caracterização de quem é o candidato, não consegui nem tirar um 7, falando, basicamente, as mesmas coisas da prova escrita.

É válido notar ainda que já fui aprovado em concurso público para professor substituto da UFRN por duas vezes. Fui professor substituto da UFRN por dois anos e só não fui por mais dois porque abri mão da vaga em prol da bolsa de doutorado. Ministrei também aulas na especialização da uva por cerca de 03 anos.

Além disso, não sei minha nota até hoje. Só sei que não tirei 7. Mesmo tendo sido acordado com a banca que a gente teria direito a saber a nota por telefone, já que, em vários momentos, o edital não foi seguido a risca, ou não continha as informações referentes aos procedimentos de publicação e sorteio dos pontos a serem ministrados nas aulas, nunca consegui saber minha nota. Liguei várias vezes para o número informado pela banca sem sucesso. O edital também impossibilita o questionamento com relação ao procedimento seguido pela banca examinadora nas provas didáticas. Sacraliza a ação da banca na fase em que o candidato é mais exposto e a impessoalidade no julgamento do concorrente é decisiva. E qualquer recurso só pode ser impetrado um dia após da publicação do resultado e deve ser feito pelo próprio candidato pessoalmente na instituição. Não é permitido entrar com recurso, sequer, pela via de um procurador legítimo. Ora, esses pré-requisitos, aliado ao conjunto de procedimentos “não-padronizados” e juridicamente não regulamentados pelo edital, decididos ao sabor do momento, dado que temos pessoas do Brasil inteiro concorrendo e que, após a prova retornam para suas casas, tornam o recurso impossível. A palavra da banca, conforme o próprio arranjo institucional, adquire força divina.

PS.2. A bem da verdade, corroboro a informação dada pelo doutorando da UFRN e Professor universitário Thadeu Brandão que a aula do primeiro colocado foi assistida, estranhamente e apenas esta, por alguém do alto escalão da universidade.

PS.3. Acho que não devemos nos calar mais diante dessas situações. A propalada “ética do silêncio”, que diz que é melhor ficar calado para não ser perseguido em concursos posteriores, deve ser rompida em prol do melhoramento dos sistemas de avaliação dos quadros universitários. Até quando teremos de aceitar sem questionamento essas coisas? Ao contrário do que o senso comum pensa, os concursos para docentes figuram, do ponto de vista da sua execução, como, sem dúvida, um dos mais atrasados, se comparado as outras áreas profissionais (enquanto temos outros concursos norteados pelo princípio da impessoalidade, da publicidade e da isonomia, o sistema de avaliação docente fica totalmente a mercê da “subjetividade” dos avaliadores).

Thadeu também passou por situação parecida, sendo que ele tem 10 anos de sala de aula!

PS.4. Não quero contestar, e é preciso que isso fique bem claro!, a idoneidade da banca. Apenas acho que é necessário estabelecer os critérios de seleção mais impessoais e objetivamente compartilhados para que não paire nenhum tipo de dúvida com relação ao modo como a banca procedeu.

Segue o texto de Tahdeu Brandão:

Existem várias formas de preconceitos na academia: racismo, machismo. Mas também há outra modalidade de preconceito: a acadêmica e intelectual. Se você não faz parte da panelinha no poder ou não se coaduna com as “teorias das perplexidades” em moda, você não vale nada.
Sofri, juntamente com outros colegas, isso no recente concurso para a cadeira de sociologia da UERN. Uma banca que, sem condições de julgar teoricamente e academicamente, julgou na panelinha.
A primeira colocada, pasmem, teve sua aula assistida pelo vice-reitor da UERN. Indo de encontro ao próprio edital do concurso. Estranho?
Professores com anos de sala de aula e já balisados e reconhecidos como excelentes em sua didática, obtiveram nota abaixo de 7 apara que não pudessem nem ser classificados. O que se dizer? Nada. Males eternos de uma instituição que se diz pública, mas é draconiana e patrimonialista. E de departamentos que nada produzem, a não ser empregos e conchavos.

1 resposta to “Desabafo: UERN e o concurso de 2010”

  1. kaká says:

    Esta ilegalidade, esta corrupção, esta falta de vergonha e de respeito ocorre em praticamente todas as academias, notoriamente nas locais, aqui do RN: UERN, UFRN são, nacionalmente, sinônimo de concursos docentes viciados. Os motivos são variados: cumpadrios, parentescos, interesses sexuais, cumplicidades ideológicas, politicagem (tudo por um voto!), etc. Incrível? Quem duvidar, pague para ver do que é capaz a “elite intelectual” local. Estes meus olhos drummondianamente cansados já viram muita coisa… há golpes tão ousados que beiram o surrealismo: cola na prova, sedução, favores sexuais, nudez, cantadas, cpf copiado na palma da mão, desrespeito ao edital, sorteio viciado, violação de prova, falsificação de currículo, inversão de notas por “engano”, telefonemas “inocentes” de pressão, “esquecimentos”, jogos psicológicos… e por aí vai. Mais absurdo do que tudo isto, só a inconsistência de “critérios” de avaliação nas provas didáticas. Só digo mais uma coisa: ter a coragem de contar tudo e protestar não basta. A coisa só vai melhorar quando alguém conseguir, pela via judicial e/ou parlamentar, as mudanças necessárias. Até lá, trocar conhecimentos sobre as armadilhas mais comuns ajuda a ficar esperto para não pecar por ingenuidade. Por exemplo: vc sabia que a falta de transparência e de publicização do processo, a quebra de protocolos, as comunicações apenas verbais, a “flexibilização” do edital, datas e horários, a “informalização” são fortes indícios de corrupção em concursos? Além de serem ilegalidades!!! Vc, candidato, deixe de lado a permissividade cultural e não permita que as pequenas “informalidades”, os “pecadilhos”, ocorram; o perigo mora nos detalhes, mesmo que aparentemente “inocentes”, “inofensivos”…

Comente

Acompanhe