<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?>
<rss version="2.0"
	xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/"
	xmlns:wfw="http://wellformedweb.org/CommentAPI/"
	xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/"
	xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom"
	xmlns:sy="http://purl.org/rss/1.0/modules/syndication/"
	xmlns:slash="http://purl.org/rss/1.0/modules/slash/"
	>

<channel>
	<title>Carta Potiguar &#187; natureza</title>
	<atom:link href="http://www.cartapotiguar.com.br/tag/natureza/feed/" rel="self" type="application/rss+xml" />
	<link>http://www.cartapotiguar.com.br</link>
	<description>Uma alternativa crítica</description>
	<lastBuildDate>Wed, 19 Jun 2013 13:25:16 +0000</lastBuildDate>
	<language>pt-BR</language>
	<sy:updatePeriod>hourly</sy:updatePeriod>
	<sy:updateFrequency>1</sy:updateFrequency>
	<generator>http://wordpress.org/?v=3.5.1</generator>
		<item>
		<title>Resenha: Frankenstein (Mary Shelley)</title>
		<link>http://www.cartapotiguar.com.br/2012/05/09/resenha-frankenstein-mary-shelley/</link>
		<comments>http://www.cartapotiguar.com.br/2012/05/09/resenha-frankenstein-mary-shelley/#comments</comments>
		<pubDate>Wed, 09 May 2012 18:45:38 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Uiara Nunes</dc:creator>
				<category><![CDATA[Artes]]></category>
		<category><![CDATA[Adão]]></category>
		<category><![CDATA[Ciência]]></category>
		<category><![CDATA[criatura]]></category>
		<category><![CDATA[crimes]]></category>
		<category><![CDATA[Frankenstein]]></category>
		<category><![CDATA[John Milton]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura Inglesa]]></category>
		<category><![CDATA[Mary Shelley]]></category>
		<category><![CDATA[monstro]]></category>
		<category><![CDATA[natureza]]></category>
		<category><![CDATA[Prometeu]]></category>
		<category><![CDATA[Resenha Literária]]></category>
		<category><![CDATA[Romantismo]]></category>
		<category><![CDATA[Satã]]></category>
		<category><![CDATA[Uiara Nunes]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.cartapotiguar.com.br/?p=5393</guid>
		<description><![CDATA[A palavra “Frankenstein” certamente chegou à maioria de nós através dos mais variados filmes e desenhos inspirados na obra da escritora inglesa Mary Shelley (1797 – 1851). Ela suscita imediatamente a imagem clássica e já caricaturada de um monstro verde, gigantesco e que, por vezes, pode até ser simpático. E a grande difusão deste personagem, assim [...]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>A palavra “Frankenstein” certamente chegou à maioria de nós através dos mais variados filmes e desenhos inspirados na obra da escritora inglesa Mary Shelley (1797 – 1851). Ela suscita imediatamente a imagem clássica e já caricaturada de um monstro verde, gigantesco e que, por vezes, pode até ser simpático. E a grande difusão deste personagem, assim como da imagem do cientista louco, não foi por acaso. Considerada uma das primeiras obras de ficção científica, “Frankenstein; ou o Prometeu Moderno” (1818) constitui mesmo uma história de horror emblemática para os tempos atuais. Apesar disso, a começar pelo fato de que o nome do monstro não é Frankenstein, e outros tantos pontos importantes, esta obra trágica ainda pode surpreender o leitor moderno.</p>
<div id="attachment_5396" class="wp-caption alignright" style="width: 249px"><a href="http://www.flickr.com/photos/tom-margie/1538953234/"><img class="size-medium wp-image-5396" title="1538953234_f4701cb8af_o" src="http://www.cartapotiguar.com.br/wp-content/uploads/2012/05/1538953234_f4701cb8af_o-239x300.jpg" alt="" width="239" height="300" /></a><p class="wp-caption-text">Imagem: twm1314</p></div>
<p>O jovem Victor Frankenstein, um dedicado estudante de Filosofia Natural, desejava “explorar poderes desconhecidos, e desvendar para o mundo os mistérios mais profundos da criação”¹. Numa busca cega e inconsequente, acaba por descobrir o segredo da vida e criar um monstro a partir de restos mortais de seres humanos. De quase 2,5 m de altura, pele amarelada e insuficiente para cobrir seus músculos, suas feições eram tão horríveis que nenhum ser humano suportaria ver. A criatura e o terror provocado por ela eram inomináveis. Frankenstein, ao dotá-lo de vida, percebe quão abominável era a criação e foge aterrorizado.</p>
<p>Abandonado à própria sorte, a criatura passa por um doloroso processo de descoberta de si mesmo e do mundo que o circunda. Inicialmente bom e puro, ele descobre paulatinamente que suas feições monstruosas o impedem de ter qualquer contato com o ser humano, que será sempre um monstro solitário, anômalo à natureza e violentamente repudiado até mesmo pelo próprio criador – “Maldito criador! Por que formaste um monstro tão horrível que até mesmo você me deu as costas em desgosto?”¹.</p>
<p>A dor do monstro é a do trágico conhecimento da sua condição. Ele é um excluído que se encanta com a beleza do mundo e dos homens e que, ao mesmo tempo, é tomado pela fúria por ter vedada a entrada naquilo que seria o Paraíso. Este é o conhecimento que vem à tona no seu despertar, o que o faz voltar-se contra o seu criador e levar ambos à danação.</p>
<blockquote><p>Neste sentido, a criatura aproxima-se do Satã do “Paraíso Perdido” (John Milton), como ela mesma afirma para Frankenstein: “eu sou tua criatura; Eu deveria ser o seu Adão, mas eu sou o anjo caído (&#8230;). Em todo lugar vejo bem-aventurança, da qual apenas eu sou irrevogavelmente excluído. Eu era benevolente e bom; o tormento me fez um demônio”¹.</p></blockquote>
<div id="attachment_5398" class="wp-caption alignleft" style="width: 240px"><a href="http://en.wikipedia.org/wiki/File:Frontispiece_to_Frankenstein_1831.jpg"><img class="size-medium wp-image-5398" title="Frontispiece_to_Frankenstein_1831" src="http://www.cartapotiguar.com.br/wp-content/uploads/2012/05/Frontispiece_to_Frankenstein_1831-230x300.jpg" alt="" width="230" height="300" /></a><p class="wp-caption-text">Imagem: Wikipedia Commons</p></div>
<p>Apesar de ser o monstro o autor de crimes terríveis, ele não é o único culpado: “Serei eu a ser o único criminoso, quando toda a humanidade pecou contra mim?”¹. O verdadeiro e maior crime de Frankenstein, além do excesso contra Deus ou contra a Natureza (afinal, ele é o Prometeu), é o de não compadecer-se por sua criatura². Ele que, ao abandoná-la, transformou-a em um demônio – “Você me fez miserável além da expressão”¹. Por isso, Frankenstein também padece com o fardo da culpa. De acordo com Mary Shelley, não há um monstro na obra – “trate alguém mal e ele se tornará mau”, afirmava. Na verdade, faltou em Frankenstein a capacidade de sensibilizar-se, ou seja, faltou nele uma das pedras de toque do movimento romântico (sim, Frankenstein é uma obra romântica).</p>
<p>Além de o monstro estar sempre entre as condições de Adão e de Satã, ele também é comumente interpretado como “a outra metade” de Frankenstein. Uma das ideias mais importantes do Romantismo está expressa nas seguintes palavras do poeta inglês Percy Shelley: “A criação (&#8230;) é uma expansão, é um fluxo da alma direcionado para fora”³. A criação, considerada uma emanação da alma, seria, portanto, a massa caótica e latente das emoções tomando uma forma definida. E como emanação, a criação seria também uma parte solipsista do ser que cria. Por isso, Frankenstein e seu monstro são interpretados como metades do mesmo ser. O monstro seria o poder criativo de Frankenstein encarnado, a sombra do eu².</p>
<p>“Frankenstein; ou O Prometeu Moderno”, embora tenha algumas falhas apontadas pelos críticos, é um bom representante do ideal romântico em que estava inserido. Faz também o leitor revisitar a eterna condição prometéica do homem e condoer-se da tragédia indissolúvel daqueles que são culpados e, concomitantemente, dignos de pena. Por fim, é profético para nossa era cientificista. Da obra, Mary Shelley faz ecoar até os nossos dias um questionamento a todos aqueles que mergulham numa busca cega pela ciência sem limites éticos: “Como te atreves a brincar assim com a vida? (&#8230;) Homem, quão ignorante tu és na tua soberba da sabedoria”¹.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>1 SHELLEY, Mary. <strong>Frankenstein.</strong> Lodon: Penguin Books, 1994.</p>
<p>2 BLOOM, Harold Bloom. Introduction. In: BLOOM, Harold (ed.). <strong>Bloom’s Modern Critical Interpretations: Mary Shelley’s <em>Frankenstein.</em> </strong>New York: Infobase Publishing, 2007.</p>
<p>3 ABRAMS, M. H. <strong>The Mirror and the Lamp. </strong>London: Oxford University Press, 1953.</p>
<p>TROPP, Martin. <strong>The Monster. </strong>In: BLOOM, Harold (ed.). <strong>Bloom’s Modern Critical Interpretations: Mary Shelley’s <em>Frankenstein.</em> </strong>New York: Infobase Publishing, 2007.</p>
<p>&nbsp;</p>
<div id="attachment_5394" class="wp-caption alignleft" style="width: 160px"><a href="http://www.cartapotiguar.com.br/wp-content/uploads/2012/05/FRANKENSTEIN.jpg"><img class=" wp-image-5394 " title="FRANKENSTEIN" src="http://www.cartapotiguar.com.br/wp-content/uploads/2012/05/FRANKENSTEIN-187x300.jpg" alt="" width="150" height="240" /></a><p class="wp-caption-text">Imagem: reprodução/capa</p></div>
<p><strong>Título: </strong>Frankenstein</p>
<p><strong>Autor: </strong>Mary Shelley</p>
<p><strong>Editora: </strong>L&amp;PM</p>
<p><strong>Páginas: </strong>256</p>
<p><strong>Preço sugerido: </strong>R$ 15, 50</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.cartapotiguar.com.br/2012/05/09/resenha-frankenstein-mary-shelley/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>2</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>Sobre escolhas impostas, cachos e pranchas</title>
		<link>http://www.cartapotiguar.com.br/2012/03/28/sobre-escolhas-impostas-cachos-e-pranchas/</link>
		<comments>http://www.cartapotiguar.com.br/2012/03/28/sobre-escolhas-impostas-cachos-e-pranchas/#comments</comments>
		<pubDate>Wed, 28 Mar 2012 11:00:50 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Gilson Rodrigues</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sociedade e Cultura]]></category>
		<category><![CDATA[análise crítica]]></category>
		<category><![CDATA[cabelereiro]]></category>
		<category><![CDATA[Ditadura]]></category>
		<category><![CDATA[ditadura da beleza]]></category>
		<category><![CDATA[ditadura estética]]></category>
		<category><![CDATA[escovas]]></category>
		<category><![CDATA[essencialismo]]></category>
		<category><![CDATA[estabelecidos e outsiders]]></category>
		<category><![CDATA[Movimento Negro]]></category>
		<category><![CDATA[Movimentos sociais]]></category>
		<category><![CDATA[naturalização]]></category>
		<category><![CDATA[natureza]]></category>
		<category><![CDATA[Norbert Elias]]></category>
		<category><![CDATA[pranchinha]]></category>
		<category><![CDATA[preconceito]]></category>
		<category><![CDATA[rasta]]></category>
		<category><![CDATA[sentimento de pertença]]></category>
		<category><![CDATA[técnicas do corpo]]></category>
		<category><![CDATA[tranças]]></category>
		<category><![CDATA[violência simbóllica]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.cartapotiguar.com.br/?p=3117</guid>
		<description><![CDATA[Especial para a Série “Da Correção Política à Censura” Não há uma pesquisa que fale de todos os grupos humanos que já existiram e seus modos de viver, no entanto a vasta produção da Antropologia – para falar apenas de uma das diversas áreas voltadas para o estudo do Homem – ao menos permite que [...]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: right;"><strong>Especial para a Série “Da Correção Política à Censura”</strong></p>
<p><a href="http://www.cartapotiguar.com.br/wp-content/uploads/2012/03/texto7.jpg"><img class="alignleft  wp-image-3236" title="texto7" src="http://www.cartapotiguar.com.br/wp-content/uploads/2012/03/texto7.jpg" alt="" width="240" height="200" /></a>Não há uma pesquisa que fale de todos os grupos humanos que já existiram e seus modos de viver, no entanto a vasta produção da Antropologia – para falar apenas de uma das diversas áreas voltadas para o estudo do Homem – ao menos permite que algumas considerações sejam feitas. Partindo desse pressuposto, afirmo a ausência de notícias sobre grupos humanos nos quais seus membros não tenham desenvolvido técnicas para manipular sua aparência, seja por meio de profundas alterações físicas – como as milhares de plásticas ou as tatuagens maori –; modificações temporárias (maquiagens, pinturas indígenas&#8230;), ou mesmo em relação as modificações realizadas nos cabelos, sobre as quais pretendo dar algum destaque.</p>
<p>Não é necessário muito esforço para nos depararmos com os inúmeros salões de beleza, dos mais variados tipos, direcionados para diversos segmentos da sociedade. Pra mim<strong>,</strong> é sempre difícil saber se é mesmo um salão de beleza ou uma sorveteria. É chocolate, é baunilha e só falta agora eu chegar em um salão desses e encontrar um anúncio: ATENÇÃO, NOVA ESCOVA PROGRESSIVA SUPER-REVOLUCIONÁRIA: NAPOLITANTO. ALISAMOS SEUS CABELOS E AINDA O DEIXAMOS COM TRÊS CORES!</p>
<p>Bem, exageros a parte<strong>,</strong> não dá para ignorar que o desejo por ter os cabelos lisos, assim como a constante busca pelas cirurgias plásticas, devem ser pensados no contexto de uma imposição de um modelo de beleza, quase uma ditadura estética, que é construída a partir de disputas pela hegemonia do belo, isto é, ela se constrói a partir de competições – que muitas vezes nos passam despercebidas – pela exaltação deste ou daquele modelo como sendo mais apropriados, mais bonitos, de mais ou menos bom gosto. Nesse campo se travam batalhas homéricas, e aqueles que não se encaixam no padrão hegemônico são logo apontados como bregas, “sem vaidade”, “mulambentos”, e uma gama de outros termos usados para rebaixá-los socialmente. Nos termos do sociólogo Norbert Elias<strong>,</strong> essas relações conflituosas – também presentes em qualquer contexto cultural – se dão entre <em>estabelecidos</em><em> </em>– grupos que conseguem, em meio as disputas, impor suas perspectivas como melhores – e os <em>outsiders –</em><em> </em>grupos que vivenciam um cotidiano de estigmatizações que, em muitos casos, chegam a ser incorporadas a suas práticas e perpetuadas.</p>
<p>No entanto, é importante ressaltar que tais relações não são dados da natureza, ou evidências de ações e reações instintivas. Muito pelo contrário, tratam-se de relações de disputa e dominação construídas sociohistórica e culturalmente, podendo, portanto, serem questionadas e desconstruídas. Elias aponta que isto pode ser realizado a partir de dois fatores interdependentes: uma percepção crítica das configurações que entrecruzam os sujeitos e que compõem sua realidade e; um sentimento de pertença que os una ao redor de um objetivo comum. Evidentemente que isto não se dá do dia para noite, mas os movimentos sociais, em toda a sua pluralidade, são amostras do quão possível e importante tais reações são. Trabalhadores, mulheres, homossexuais, lésbicas, negros, são apenas alguns dos grupos que vêm historicamente questionando os estigmas e humilhações sociais a si impostos. No caso desses últimos, os negros, a história recente nos dá importantes amostras das lutas implementadas, indispensáveis na construção e acesso aos direitos civis, políticos e sociais.</p>
<p>Atualmente o Movimento Negro, atua em diversas frentes, construindo críticas pertinentes das mais diversas. Uma dessas, sem dúvidas, tem relação com a estética dos cabelos hegemonicamente imposta como mais bonita. Não faltam críticas ao uso de escovas – seja lá do tipo e sabor que forem. Multiplicam-se os cabelos <em>black</em>, as tranças nagô, os <em>dreads</em>, o que, até certo ponto, pode ser visto como fruto de uma desconstrução de ideias como “nêgo não pode ter cabelos grandes”, “cabelo ruim”, “cabelos rebeldes”, e por ai vai, evidenciando que cada uma dessas categorias foram histórica, social e culturalmente concebidas a partir de formas naturalizadas de rebaixamento e humilhação social dos negros.</p>
<p>Claro que isto não se evidencia apenas na estética dos cabelos, mas nas piadas – que em muitos casos são formas sutis de ‘<em>violência simbólica’</em>, legitimando preconceitos –, em expressões tão corriqueiras que não nos damos conta do tipo de rebaixamento social por elas carregado, como “amanhã é dia de branco”. Nesse sentido, os movimentos negros têm logrado sucesso, dando visibilidade a problemas que normalmente são empurrados para debaixo do tapete. Sob certa perspectiva pode-se até dizer que isto denota um comportamento politicamente incorreto, se por isso compreendermos aquele comportamento que questiona o <em>status quo</em>, gerando necessários constrangimentos, questionando a realidade como um dado da natureza. No entanto, não apenas os movimentos negros, mas as diferentes correntes dos movimentos sociais, ao defenderem suas bandeiras de militância parecem seguir a terceira lei de Newton, reagindo aos estigmas que lhes foram/são impostos de forma equivalente às ações que durante tanto tempo sofreram.</p>
<p><a href="http://www.cartapotiguar.com.br/wp-content/uploads/2012/03/pretas-candangas.jpg"><img class="size-full wp-image-3201 alignright" src="http://www.cartapotiguar.com.br/wp-content/uploads/2012/03/pretas-candangas.jpg" alt="" width="320" height="240" /></a>Qual o resultado disso? Dentre tantos, quero destacar um: a construção de discursos totalitários e, por que não dizer, politicamente corretos. Aqui, podemos retornar a questão dos discursos em defesa dos “cabelos negros”. Se, por exemplo, a referida expressão “cabelo ruim” está carregado de um essencialismo, não me parece menos essencialista e preconceituosa uma postura que condene ao ostracismo uma pessoa autoidentificada como negra que resolve fazer uma escova. Nesse caso é comum ouvir frases – geralmente do militantes, arautos da “estética da raça pura” – como “Essa neguinha só quer ser branca”, “Tadinha, tão alienada”, “Assuma seus cachos” – numa clara alusão do cabelo cacheado como “mais natural”. As críticas à homogeneização estética se tornam tão extremistas que findam por exaltar outra forma de homogeneização tão politicamente correta quanto aquela criticada.</p>
<p>O conhecimento sistemático das exceções em toda sociedade humana é importante, pois nos ajuda a questionar a noção de normalidade como algo imutável, indica que a realidade pode ser questionada e modificada. Também é importante percebermos que nas sociedades modernas ocidentais há uma exaltação da figura dos indivíduos como seres autônomos, aqueles que por mais que<strong> </strong>façam parte de grupos, desejam se fazer exceções, e por mais que componham um grupo, buscando se adequar a eles, também buscam “deixar a suas marcas”, ter o seu “estilo próprio”. Não é difícil notar que em lugares onde a maior parte das pessoas é loira, algumas pintam suas madeixas de preto; em lugares de predominância com cabelos lisos, fazem cachos, e assim por diante.</p>
<p>Oras, curioso que o questionamento de uma imposição de padrões de beleza finde por não gerar a liberdade expressão que se desejava, do contrário, muitas vezes cai-se em uma ditadura estética que gera um isolamento simbólico, capaz de reduzir as expressões estéticas a uma nova padronização. No caso do público negro – o que se potencializa quando se trata de mulheres – parece que o fato de criticarem a imposição do cabelo aparentemente liso as impede de ter a chapinha, escova, ou seja lá o que for, como uma opção possível de manipulação de sua estética. O questionamento das imposições estéticas parece impor outra. Em vez de expandir o leque das expressões e desejos de mudança, criam-se mais mecanismos de controle da expressão da subjetividade do sujeito. O questionamento ao politicamente correto transmuta-se ele próprio naquilo que criticava.</p>
<p>Não se trata de ignorar a importância dos movimentos sociais, suas bandeiras e militâncias, mas de provocar seus representantes, ao conquistar seus direitos, a não caírem no trágico erro de compactuarem com a mesma lógica que outrora lhes foi imposta, se assemelhando ao escravo alforriado que conseguiu comprar um escravo branco para açoitá-lo todos os dias. Ele não percebe que, ao exercer o mesmo papel e tomar as mesmas atitudes que lhes foram impostas, apenas reproduz a lógica dominante e se torna mais uma vez seu escravo. É importante que as conquistas sejam festejadas, mas também o é o não deslumbramento com elas ao ponto de manterem-se as lógicas criticadas.</p>
<p>Dessa forma, não se trata de questionar qual o sabor/tipo das escovas que se tem preferência, mas de pensar acerca das motivações, incentivar as desconstruções, desnaturalizar modelos, construir caminhos que possibilitem expressões subjetivas múltiplas, rompendo com práticas hierarquizantes. O desejo de mudança do sujeito, sejam pranchinhas, escovas, cachos ou <em>dreads</em>, não apontam para um estética mais ou menos natural, mas se dão a partir de construções sociais, circunscritas em diversos contextos que se entrecruzam.</p>
<p>Que as reivindicações por direitos possibilitem a expressões variadas, de todos os tipos, de todas as cores – mais diversificadas que as três da tal escova napolitana!!!</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Entenda a Série:</strong><strong> </strong><a href="http://www.cartapotiguar.com.br/2012/03/26/serie-da-correcao-politica-a-censura/" target="_blank"><strong>Da Correção Política à Censura</strong></a></p>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.cartapotiguar.com.br/2012/03/28/sobre-escolhas-impostas-cachos-e-pranchas/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>1</slash:comments>
		</item>
		<item>
		<title>A orgia humana &#8211; parte 1</title>
		<link>http://www.cartapotiguar.com.br/2011/04/14/a-orgia-humana-parte-1/</link>
		<comments>http://www.cartapotiguar.com.br/2011/04/14/a-orgia-humana-parte-1/#comments</comments>
		<pubDate>Thu, 14 Apr 2011 18:26:34 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Thiago Leite</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sociedade e Cultura]]></category>
		<category><![CDATA[adoção]]></category>
		<category><![CDATA[adultério]]></category>
		<category><![CDATA[bigamia]]></category>
		<category><![CDATA[bonobos]]></category>
		<category><![CDATA[casa]]></category>
		<category><![CDATA[casais]]></category>
		<category><![CDATA[casal]]></category>
		<category><![CDATA[casamento]]></category>
		<category><![CDATA[divórcio]]></category>
		<category><![CDATA[Druuna]]></category>
		<category><![CDATA[endogamia]]></category>
		<category><![CDATA[estupro]]></category>
		<category><![CDATA[exogamia]]></category>
		<category><![CDATA[Família]]></category>
		<category><![CDATA[filhos]]></category>
		<category><![CDATA[fornicação]]></category>
		<category><![CDATA[Gênero e Sexualidade]]></category>
		<category><![CDATA[heterossexualidade]]></category>
		<category><![CDATA[Homo sapiens]]></category>
		<category><![CDATA[homofobia]]></category>
		<category><![CDATA[homossexualidade]]></category>
		<category><![CDATA[incesto]]></category>
		<category><![CDATA[masturbação]]></category>
		<category><![CDATA[monogamia]]></category>
		<category><![CDATA[natureza]]></category>
		<category><![CDATA[orgia]]></category>
		<category><![CDATA[Paolo Eleuteri Serpieri]]></category>
		<category><![CDATA[Pedofilia]]></category>
		<category><![CDATA[poligamia]]></category>
		<category><![CDATA[Prazer]]></category>
		<category><![CDATA[Serpieri]]></category>
		<category><![CDATA[Sexualidade]]></category>
		<category><![CDATA[sodomia]]></category>
		<category><![CDATA[tradição]]></category>

		<guid isPermaLink="false">http://www.cartapotiguar.com.br/?p=4161</guid>
		<description><![CDATA[Da Teia Neuronial &#8211; Diante das mudanças na aceitação das uniões homoafetivas e das demandas cada vez mais fortes por direitos e combate ao preconceito, o discurso reacionário reage como pode. &#8220;Dois homens morando juntos não são um casal. Dupla pode ser, mas casal é só homem e mulher. Eu até respeito a opção de dois [...]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Da <a href="http://teianeuronial.com/a-orgia-humana-parte-1/" target="_blank">Teia Neuronial</a> &#8211; Diante das mudanças na aceitação das uniões homoafetivas e das demandas cada vez mais fortes por direitos e combate ao preconceito, o discurso reacionário reage como pode. &#8220;Dois homens morando juntos não são um casal. Dupla pode ser, mas casal é só homem e mulher. Eu até respeito a opção de dois homens conquistarem a união civil, mas é um crime eles adotarem uma criança&#8221;.</p>
<p>Muitas vezes esse discurso se acompanha de frases do tipo: &#8220;Isso é uma afronta contra Deus&#8221;. De certo modo, equivale a dizer que a homossexualidade é antinatural, ou seja, vai de encontro aos ditames da natureza. Dentro dessa perspectiva, parte-se do pressuposto de que a pessoa que se relaciona com um parceiro do mesmo sexo escolhe sua orientação sexual, escolhe &#8220;pecar&#8221;, e poderia facilmente seguir o caminho &#8220;natural&#8221;, se quisesse.</p>
<h3>A natureza para justificar a tradição (argumentos quase lógicos)</h3>
<p>Recorrer à &#8220;natureza&#8221; é uma das formas de argumentar no sentido de defender as tradições. Mas esse recurso é muito falho, se estivermos dispostos a um olhar científico e crítico sobre a realidade humana.</p>
<p>Um dos contra-argumentos preferidos daqueles que defendem a liberdade de orientação sexual é o de que há muitos animais que formam pares do mesmo sexo e que até copulam. Este argumento é importante para desmitificar a crença de que os animais bissexuados sempre só copulam heterossexualmente e sempre só formam casais heterossexuais.</p>
<div id="attachment_5120" class="wp-caption aligncenter" style="width: 596px"><img class="size-full wp-image-5120" title="Leões homossexuais" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/lion-041.jpg" alt="Leões homossexuais" width="586" height="390" /><p class="wp-caption-text">Alguns leões machos formam parcerias que incluem a prática do sexo</p></div>
<p>Dessa forma, não adianta recorrer a supostos comportamentos &#8220;naturais&#8221;, já que muitas espécies servem de contraexemplos à ideia de que o &#8220;normal&#8221; é a heterossexualidade. Além disso, a masturbação, também condenada pelos guardiães da tradição, é uma prática comum em todo o reino animal. Porém, pode-se considerar que, não obstante o comportamento de espécies não-humanas, o <em>Homo sapiens</em> tem seu próprio comportamento sexual, que não pode ser reduzido a outros exemplos específicos.</p>
<div id="attachment_5119" class="wp-caption alignright" style="width: 310px"><img class="size-full wp-image-5119" title="Bonobos" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/photo.jpg" alt="Bonobos" width="300" height="157" /><p class="wp-caption-text">Bonobos têm uma sexualidade parecida com a humana</p></div>
<p>Um possível sinal de que o ser humano é &#8220;suscetível&#8221; a comportamentos sexuais variados são os grandes antropoides, especialmente os bonobos (também conhecidos como chimpanzés-pigmeus). Estes não fazem sexo apenas para procriar (e quando o fazem, normalmente assumem a posição &#8220;papai-mamãe&#8221;, que costuma ser pensada pelos ocidentais como o modelo para os humanos). Não há entre eles tabus em relação à idade, sexo ou parentesco na prática sexual, que pode ocorrer grupalmente (como numa orgia) e serve para apaziguar os ânimos em conflitos dentro dos grupos.</p>
<p>Entretanto, mesmo com a proximidade genética com os humanos, os chimpanzés, gorilas e bonobos são espécies diferentes da nossa. Mas há outros elementos a ser considerados, especialmente no âmbito estritamente antropológico da questão.</p>
<p>É consenso entre os cientistas sociais a não-determinação genética dos comportamentos humanos. Os costumes, hábitos e culturas humanas são resultado muito mais da história, do aprendizado e da tradição do que dos genes e dos instintos.</p>
<p>Tanto é assim que, ao longo da história, as diversas culturas humanas adotaram diferentes formas de estabelecer suas relações interpessoais. Existem povos endogâmicos e exogâmicos, monogâmico, bigâmicos e poligâmicos. Cada povo considera que sua conduta é a natural, e não podemos considerar que o nosso modo de estabelecer o casamento é o que reflete com mais proximidade os &#8220;ditames da natureza&#8221;, pois ele é fruto da cultura.</p>
<p>Mesmo assim, quando se trata de considerar a saúde, o bem-estar e a formação das crianças, o discurso reacionário pode desconsiderar toda essa argumentação, alegando que a formação de um casal tem como objetivo básico a procriação, e dessa forma o &#8220;natural&#8221; é que um homem e uma mulher se unam para ter filhos e viver juntos.</p>
<p>Todavia, se recorrermos novamente aos animais não-humanos, veremos que muitas vezes a procriação não coincide com a formação de casais. Os babuínos, por exemplo, são poligâmicos, um macho insemina todo um harém de fêmeas, ficando outros babuínos machos excluídos do ciclo procriativo. Há espécies, como as tartarugas marinhas, que copulam apenas para procriar, e os progenitores de uma ninhada se separam e talvez não voltem a se encontrar nunca mais.</p>
<div id="attachment_5143" class="wp-caption aligncenter" style="width: 596px"><img class="size-full wp-image-5143" title="Harém de babuínos" src="http://teianeuronial.com/wp-content/uploads/babuinos.jpg" alt="Harém de babuínos" width="586" height="390" /><p class="wp-caption-text">Harém de babuínos</p></div>
<p>Mas se for necessário recorrer à Antropologia, vemos que nem sempre o casal progenitor corresponde ao casal paterno. Nas Ilhas Trobriand, cuja cultura foi estudada por Bronislaw Malinowksi, o homem que procria não tem a mesma responsabilidade que a mulher com quem concebeu. Os verdadeiros <em>pais</em> da criança são a mulher que a concebeu e o irmão desta.</p>
<p>Entre os mosos (também conhecidos como na), uma etnia chinesa, não existe nem mesmo o papel de marido. O progenitor, para eles, não tem nada a ver com a criança gerada, e todos os pequenos são criados coletivamente. A única figura de autoridade paterna reconhecida é o irmão da mãe, como acontece entre os trobriandeses.</p>
<p>Apesar de tudo, a mentalidade tradicionalista e conservadora cristã pode argumentar que toda essa variedade no mundo animal e nas culturas humanas não corresponde ao que Deus planejou para a humanidade, sendo o &#8220;correto&#8221; aquilo que está preconizado nos ensinamentos bíblicos e na tradição ocidental cristã.</p>
<p>Mas o deus cristão é só um de tantos milhares inventados pelos seres humanos, e a Bíblia é só um entre tantos livros produzidos durante a longa e curta história humana, e está repleto de contradições quanto à preconização das relações humanas, a mais notável sendo a oposição entre relações poligâmicas no Velho Testamento e as monogâmicas no Novo. Mesmo assim, não são ditames, são apenas descrições das relações. A tradição monogâmica surgiu independentemente da Bíblia. Os mórmons, por exemplo, que são uma seita cristã, praticam a poligamia.</p>
<p>Se quisermos recorrer à &#8220;natureza&#8221; para justificar as condutas humanas, temos que admitir que uma imensa lista de comportamentos é perfeitamente aceitável para o <em>Homo sapiens:</em></p>
<ul>
<li>poligamia (tendo em vista tantas espécies que a praticam),</li>
<li>adultério (macacos fêmeas que copulam com machos fora do harém ao qual pertencem),</li>
<li>pedofilia (na maioria das espécies animais o sexo começa assim que o indivíduo se torna fértil),</li>
<li>divórcio (uma fêmea pode desistir de um macho para ficar com outro, mais forte),</li>
<li>sodomia (há tantas espécies cujos machos fazem sexo entre si),</li>
<li>fornicação (os animais não praticam ritos de casamento),</li>
<li>estupro (muitos machos usam a força para obrigar as fêmeas a copular),</li>
<li>incesto (a consanguinidade não é empecilho para a cópula em muitas espécies),</li>
<li>masturbação (cavalos costumam fazê-lo),</li>
<li>sexo por prazer (os bonobos sendo o exemplo mais proeminente) e</li>
<li>promiscuidade (os gatos fazem sexo com vários parceiros, sem formar laços) entre outros.</li>
</ul>
<p>Nem tudo é eticamente aceitável só porque é natural, nem automaticamente condenável pelo mesmo motivo. As relações humanas se dão com base em acordos entre os indivíduos, e a ética de cada um dita as condutas e a fidelidade para com conceitos como a liberdade (tal qual a liberdade de uma criança não ser estuprada) e para com outras pessoas.</p>
<h3>Fontes das imagens</h3>
<ul>
<li><a href="http://druuna.net/pop-images.htm?CAT_IMG=3&amp;ID_IMAGES=89" target="_blank">Druuna X 2</a> &#8211; Druuna</li>
<li><em><a href="http://www.idstyle.com/safari/animals/" target="_blank">Animals of South Africa</a></em> - IDStyle</li>
<li><em><a href="http://www.skeptic.com/eskeptic/07-08-08/" target="_blank">Bonobos, Left &amp; Right: Primate Politics Heats Up Again as Liberals &amp; Conservatives Spindoctor Science</a></em> &#8211; Skeptic</li>
<li><em><a href="http://abitabout.com/Sacred+baboon" target="_blank">Sacred Baboon</a></em> &#8211; aBitAbout</li>
</ul>
<h3>Link</h3>
<ul>
<li><em><a href="http://www.fabianogomes.com.br/blog/?p=181" target="_blank">Uma Terra sem Pai nem Marido – Saiba quem são mosos, um povo chinês que vive numa das últimas sociedades matriarcando</a></em> &#8211; Fabiano Gomes</li>
</ul>
]]></content:encoded>
			<wfw:commentRss>http://www.cartapotiguar.com.br/2011/04/14/a-orgia-humana-parte-1/feed/</wfw:commentRss>
		<slash:comments>0</slash:comments>
		</item>
	</channel>
</rss>
