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	<title>Carta Potiguar &#187; técnicas do corpo</title>
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	<description>Uma alternativa crítica</description>
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		<title>Sobre escolhas impostas, cachos e pranchas</title>
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		<pubDate>Wed, 28 Mar 2012 11:00:50 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Gilson Rodrigues</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sociedade e Cultura]]></category>
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		<description><![CDATA[Especial para a Série “Da Correção Política à Censura” Não há uma pesquisa que fale de todos os grupos humanos que já existiram e seus modos de viver, no entanto a vasta produção da Antropologia – para falar apenas de uma das diversas áreas voltadas para o estudo do Homem – ao menos permite que [...]]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: right;"><strong>Especial para a Série “Da Correção Política à Censura”</strong></p>
<p><a href="http://www.cartapotiguar.com.br/wp-content/uploads/2012/03/texto7.jpg"><img class="alignleft  wp-image-3236" title="texto7" src="http://www.cartapotiguar.com.br/wp-content/uploads/2012/03/texto7.jpg" alt="" width="240" height="200" /></a>Não há uma pesquisa que fale de todos os grupos humanos que já existiram e seus modos de viver, no entanto a vasta produção da Antropologia – para falar apenas de uma das diversas áreas voltadas para o estudo do Homem – ao menos permite que algumas considerações sejam feitas. Partindo desse pressuposto, afirmo a ausência de notícias sobre grupos humanos nos quais seus membros não tenham desenvolvido técnicas para manipular sua aparência, seja por meio de profundas alterações físicas – como as milhares de plásticas ou as tatuagens maori –; modificações temporárias (maquiagens, pinturas indígenas&#8230;), ou mesmo em relação as modificações realizadas nos cabelos, sobre as quais pretendo dar algum destaque.</p>
<p>Não é necessário muito esforço para nos depararmos com os inúmeros salões de beleza, dos mais variados tipos, direcionados para diversos segmentos da sociedade. Pra mim<strong>,</strong> é sempre difícil saber se é mesmo um salão de beleza ou uma sorveteria. É chocolate, é baunilha e só falta agora eu chegar em um salão desses e encontrar um anúncio: ATENÇÃO, NOVA ESCOVA PROGRESSIVA SUPER-REVOLUCIONÁRIA: NAPOLITANTO. ALISAMOS SEUS CABELOS E AINDA O DEIXAMOS COM TRÊS CORES!</p>
<p>Bem, exageros a parte<strong>,</strong> não dá para ignorar que o desejo por ter os cabelos lisos, assim como a constante busca pelas cirurgias plásticas, devem ser pensados no contexto de uma imposição de um modelo de beleza, quase uma ditadura estética, que é construída a partir de disputas pela hegemonia do belo, isto é, ela se constrói a partir de competições – que muitas vezes nos passam despercebidas – pela exaltação deste ou daquele modelo como sendo mais apropriados, mais bonitos, de mais ou menos bom gosto. Nesse campo se travam batalhas homéricas, e aqueles que não se encaixam no padrão hegemônico são logo apontados como bregas, “sem vaidade”, “mulambentos”, e uma gama de outros termos usados para rebaixá-los socialmente. Nos termos do sociólogo Norbert Elias<strong>,</strong> essas relações conflituosas – também presentes em qualquer contexto cultural – se dão entre <em>estabelecidos</em><em> </em>– grupos que conseguem, em meio as disputas, impor suas perspectivas como melhores – e os <em>outsiders –</em><em> </em>grupos que vivenciam um cotidiano de estigmatizações que, em muitos casos, chegam a ser incorporadas a suas práticas e perpetuadas.</p>
<p>No entanto, é importante ressaltar que tais relações não são dados da natureza, ou evidências de ações e reações instintivas. Muito pelo contrário, tratam-se de relações de disputa e dominação construídas sociohistórica e culturalmente, podendo, portanto, serem questionadas e desconstruídas. Elias aponta que isto pode ser realizado a partir de dois fatores interdependentes: uma percepção crítica das configurações que entrecruzam os sujeitos e que compõem sua realidade e; um sentimento de pertença que os una ao redor de um objetivo comum. Evidentemente que isto não se dá do dia para noite, mas os movimentos sociais, em toda a sua pluralidade, são amostras do quão possível e importante tais reações são. Trabalhadores, mulheres, homossexuais, lésbicas, negros, são apenas alguns dos grupos que vêm historicamente questionando os estigmas e humilhações sociais a si impostos. No caso desses últimos, os negros, a história recente nos dá importantes amostras das lutas implementadas, indispensáveis na construção e acesso aos direitos civis, políticos e sociais.</p>
<p>Atualmente o Movimento Negro, atua em diversas frentes, construindo críticas pertinentes das mais diversas. Uma dessas, sem dúvidas, tem relação com a estética dos cabelos hegemonicamente imposta como mais bonita. Não faltam críticas ao uso de escovas – seja lá do tipo e sabor que forem. Multiplicam-se os cabelos <em>black</em>, as tranças nagô, os <em>dreads</em>, o que, até certo ponto, pode ser visto como fruto de uma desconstrução de ideias como “nêgo não pode ter cabelos grandes”, “cabelo ruim”, “cabelos rebeldes”, e por ai vai, evidenciando que cada uma dessas categorias foram histórica, social e culturalmente concebidas a partir de formas naturalizadas de rebaixamento e humilhação social dos negros.</p>
<p>Claro que isto não se evidencia apenas na estética dos cabelos, mas nas piadas – que em muitos casos são formas sutis de ‘<em>violência simbólica’</em>, legitimando preconceitos –, em expressões tão corriqueiras que não nos damos conta do tipo de rebaixamento social por elas carregado, como “amanhã é dia de branco”. Nesse sentido, os movimentos negros têm logrado sucesso, dando visibilidade a problemas que normalmente são empurrados para debaixo do tapete. Sob certa perspectiva pode-se até dizer que isto denota um comportamento politicamente incorreto, se por isso compreendermos aquele comportamento que questiona o <em>status quo</em>, gerando necessários constrangimentos, questionando a realidade como um dado da natureza. No entanto, não apenas os movimentos negros, mas as diferentes correntes dos movimentos sociais, ao defenderem suas bandeiras de militância parecem seguir a terceira lei de Newton, reagindo aos estigmas que lhes foram/são impostos de forma equivalente às ações que durante tanto tempo sofreram.</p>
<p><a href="http://www.cartapotiguar.com.br/wp-content/uploads/2012/03/pretas-candangas.jpg"><img class="size-full wp-image-3201 alignright" src="http://www.cartapotiguar.com.br/wp-content/uploads/2012/03/pretas-candangas.jpg" alt="" width="320" height="240" /></a>Qual o resultado disso? Dentre tantos, quero destacar um: a construção de discursos totalitários e, por que não dizer, politicamente corretos. Aqui, podemos retornar a questão dos discursos em defesa dos “cabelos negros”. Se, por exemplo, a referida expressão “cabelo ruim” está carregado de um essencialismo, não me parece menos essencialista e preconceituosa uma postura que condene ao ostracismo uma pessoa autoidentificada como negra que resolve fazer uma escova. Nesse caso é comum ouvir frases – geralmente do militantes, arautos da “estética da raça pura” – como “Essa neguinha só quer ser branca”, “Tadinha, tão alienada”, “Assuma seus cachos” – numa clara alusão do cabelo cacheado como “mais natural”. As críticas à homogeneização estética se tornam tão extremistas que findam por exaltar outra forma de homogeneização tão politicamente correta quanto aquela criticada.</p>
<p>O conhecimento sistemático das exceções em toda sociedade humana é importante, pois nos ajuda a questionar a noção de normalidade como algo imutável, indica que a realidade pode ser questionada e modificada. Também é importante percebermos que nas sociedades modernas ocidentais há uma exaltação da figura dos indivíduos como seres autônomos, aqueles que por mais que<strong> </strong>façam parte de grupos, desejam se fazer exceções, e por mais que componham um grupo, buscando se adequar a eles, também buscam “deixar a suas marcas”, ter o seu “estilo próprio”. Não é difícil notar que em lugares onde a maior parte das pessoas é loira, algumas pintam suas madeixas de preto; em lugares de predominância com cabelos lisos, fazem cachos, e assim por diante.</p>
<p>Oras, curioso que o questionamento de uma imposição de padrões de beleza finde por não gerar a liberdade expressão que se desejava, do contrário, muitas vezes cai-se em uma ditadura estética que gera um isolamento simbólico, capaz de reduzir as expressões estéticas a uma nova padronização. No caso do público negro – o que se potencializa quando se trata de mulheres – parece que o fato de criticarem a imposição do cabelo aparentemente liso as impede de ter a chapinha, escova, ou seja lá o que for, como uma opção possível de manipulação de sua estética. O questionamento das imposições estéticas parece impor outra. Em vez de expandir o leque das expressões e desejos de mudança, criam-se mais mecanismos de controle da expressão da subjetividade do sujeito. O questionamento ao politicamente correto transmuta-se ele próprio naquilo que criticava.</p>
<p>Não se trata de ignorar a importância dos movimentos sociais, suas bandeiras e militâncias, mas de provocar seus representantes, ao conquistar seus direitos, a não caírem no trágico erro de compactuarem com a mesma lógica que outrora lhes foi imposta, se assemelhando ao escravo alforriado que conseguiu comprar um escravo branco para açoitá-lo todos os dias. Ele não percebe que, ao exercer o mesmo papel e tomar as mesmas atitudes que lhes foram impostas, apenas reproduz a lógica dominante e se torna mais uma vez seu escravo. É importante que as conquistas sejam festejadas, mas também o é o não deslumbramento com elas ao ponto de manterem-se as lógicas criticadas.</p>
<p>Dessa forma, não se trata de questionar qual o sabor/tipo das escovas que se tem preferência, mas de pensar acerca das motivações, incentivar as desconstruções, desnaturalizar modelos, construir caminhos que possibilitem expressões subjetivas múltiplas, rompendo com práticas hierarquizantes. O desejo de mudança do sujeito, sejam pranchinhas, escovas, cachos ou <em>dreads</em>, não apontam para um estética mais ou menos natural, mas se dão a partir de construções sociais, circunscritas em diversos contextos que se entrecruzam.</p>
<p>Que as reivindicações por direitos possibilitem a expressões variadas, de todos os tipos, de todas as cores – mais diversificadas que as três da tal escova napolitana!!!</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Entenda a Série:</strong><strong> </strong><a href="http://www.cartapotiguar.com.br/2012/03/26/serie-da-correcao-politica-a-censura/" target="_blank"><strong>Da Correção Política à Censura</strong></a></p>
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