Rio Grande do Norte, quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Carta Potiguar - uma alternativa crítica

publicado em 4 de abril de 2012

Renúncia voluntária à condição humana

postado por Madame Borboleta

Escritura Pública

Sísifo, o mais astuto de todos os mortais

Saibam quantos esta pública escritura pública de renúncia virem que, no ano de Nosso Senhor Jesus Cristo de 2012, aos cinco dias do mês de abril do dito ano, nesta cidade da Intolerância, no país da Imbecilidade, em meu cartório perante mim, tabelião Resignado, compareceram como outorgante Madame Borboleta, residente no Twitter, não domiciliada por quanto não cidadã, e duas testemunhas adiante nomeadas e assinadas, todos reconhecidos por mim, do que dou fé. Em presença das mesmas testemunhas, pela outorgante, me foi dito que, de acordo com a lei, cabem-lhe o direito e o usufruto da condição humana; e que não lhe convindo mais compartilhar o ódio e a insensatez do Homem para com seus semelhantes (especialmente daqueles que se dizem “de melhor coração”), vem, pela presente escritura e na forma de direito que lhe convém, declarar, como insistentemente declarado tem, que de livre e espontânea vontade renuncia, por cansaço paralisante, exaustão letárgica, terrível decepção e insuperável angústia, a este seu direito fundamental à condição humana, ainda que até mesmo essa renúncia lhe seja juridicamente vetada, abstendo-se de toda e qualquer vantagem que dela possa advir, inclusive aquelas advindas do direito de dignidade da pessoa humana, ficando ela, Madame Borboleta, outorgante declarada, a salvo de seus encargos como qualquer gato, cachorro, leão-marinho, foquinha etc. a quem não fosse tal condição deferida. E que fica a partir desta data deferida à Humanidade, e a qualquer homem individualmente, desse momento em diante, completa e suficiente liberdade para criticar, ameaçar e ser incoerente no trato com seus semelhantes, pelo que, doravante, ela, Madame Borboleta, outorgante, se eximirá de qualquer opinião ou disse me disse, bem como seus corriqueiros trava-cérebros, dando-se por feliz e satisfeita se a ela forem concedidos os mesmos direitos que hoje se concedem aos animais fofinhos do planeta como moradia adequada, boas condições de higiene, alimentação de qualidade e, principalmente, direito a uma vida digna, ao contrário do que ocorre com aproximadamente um quarto da população mundial, que aos olhos da maioria que goza do direito e usufruto da condição humana, parecem, estes últimos, não existir, declara ainda, a outorgante, que, junto a sua condição humana, renuncia também a suas crenças, convicções e inteligências, renúncia essa que ora o faz sem nenhuma restrição ou condição, apenas para que possa gozar, sem se afligir com a miséria humana, de sua merecida paz de espírito. De como disse, lavrei, em meu livro de notas, esta escritura, a qual foi achada conforme e em seguida assinada por todos, inclusive as duas testemunhas presentes, conhecidas de mim, Resignado tabelião, que, não tendo escolha frente à nobreza da declaração, a escrevi.

Madame Borboleta

Madame Borboleta é um ensaio bailante e quase-pucciniano de Pornopolítica. Especialista em desconstruções filosófico-existenciais, ela está neste mundo apenas pela bebida grátis. Seu hobby é dançar em cima da mesa e, vez ou outra, sambar na cara da sociedade. Contato: @mmeborboleta (Twitter) e mmeborboleta@gmail.com

4 Responses

  1. Walter Horzmann disse:

    E Hanna Arendt se revira no túmulo.

  2. Walter Horzmann disse:

    Admira-me uma “filósofa” não saber quem é a Hannah Arendt é. Ou pela ignorância ou pelo desprezo, mesmo.

    • Mademoseille Borboleta disse:

      Meninos, fico muito feliz com a discussão. Mas acredito que Hannah Arendt está aproveitando sua estada no Paraíso sem se importar muito com o que eu digo. Afinal de contas, eu nem existo! Não briguem!

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