Rio Grande do Norte, domingo, 17 de dezembro de 2017

Carta Potiguar - uma alternativa crítica

publicado em 25 de setembro de 2013

Resenha: O Som e a Fúria (William Faulkner)

postado por Uiara Nunes

 

“Amanhã, e amanhã, e ainda outro amanhã
Arrastam-se nessa passada trivial do dia para a noite, da noite para o dia,
Até a última sílaba do registro dos tempos.
E todos os nossos ontens não fizeram mais que iluminar para os tolos
o caminho que leva ao pó da morte. Apaga-te, apaga-te, chama breve!
A vida não passa de uma sombra que caminha, um pobre ator
Que se pavoneia e se aflige sobre o palco –
Faz isso por uma hora e, depois, não se escuta mais sua voz.
É uma história contada por um idiota, cheia de som e fúria
E vazia de significado”.

(“Macbeth”, cena V, Ato V – Shakespeare)

Rejeitado pelas editoras para a publicação do seu terceiro romance, o escritor americano William Faulkner (1897 – 1962) pôde fazer aquilo que mais desejava: “Agora posso escrever. Agora posso simplesmente escrever”. E foi sem as exigências dos editores ou as preocupações de atingir um público alvo que Faulkner conseguiu escrever um dos romances mais incríveis da literatura americana. Uma “história contada por um idiota, cheia de som e fúria”, que foi essencial para que o autor recebesse o Premio Nobel de Literatura e para o desenvolvimento da técnica de fluxo de consciência*.

William Faulkner

William Faulkner

 “O Som e a Fúria” (1929) conta a história da decadente família Compson a partir de quatro narradores diferentes. Através de um complicado fluxo de consciência, de cronologia não linear e sintaxe incompleta, somos inseridos na mente de cada narrador e, assim, acompanhando seus pensamentos e estilos diferentes, podemos ir juntando as peças de um enorme quebra-cabeça. Porém, nada é verdadeiramente narrado. Eles não estão contando suas histórias e, portanto, não há preocupação com uma ordem cronológica mais ordenada ou com o conhecimento prévio do leitor em relação a determinados fatos da narrativa. Somos apenas intrusos nas mentes destes narradores, de onde tentamos obter e juntar as informações necessárias para conhecer a trama.  A obra, em especial a primeira parte, “exclui o primeiro leitor como um intruso, e exige que ele assuma o papel impossível de alguém íntimo, (…) que não precisa de qualquer explicação”¹.  Aqui, a descrição que o poeta americano Arnold Weinstein faz da sensação que se tem ao estar lendo “O Som e a Fúria” é bastante elucidativa: “Pode-se dizer que todos estão agitados, que há acontecimentos misteriosos, súbitas memórias penetrantes, ódio, ciúme, agonia. Todos são genuínos. Acredita-se neles. Mas tudo acontece por trás da impenetrável cortina das palavras. O leitor é excluído disso. Ele fica excitado, mas ele não sabe o porquꔹ.

Como foi dito, são quatro os narradores, sendo três irmãos: Benjy, o “idiota” que não fala e cuja narrativa é marcada pelos sentidos, principalmente o olfato – “Ela pegou na minha mão e corremos pelas folhas barulhentas e cheias de sol. Subimos os degraus, saímos do frio claro e entramos no frio escuro. (…) Caddy tinha cheiro de árvore”²; Quentin, irmão de Benjy e aluno de Harvard, tem como temas principais o Tempo e o amor incestuoso pela irmã – “Porque o pai disse que os relógios matam o tempo. Ele disse o tempo morre sempre que é medido por pequenas engrenagens; é só quando o tempo para que o tempo vive”²; Jason, o irmão desprezível e cheio de ressentimento, que possui uma narrativa mais fácil e luta contra o tempo e a falência; por último, um narrador onipresente. E para as quatro narrativas, há um centro: a menina dos olhos de Faulkner, Caddy, irmã de quem todos, inclusive Benjy, exige o impossível: pureza e inocência.

Numa escala menor, “O Som e a Fúria” parece abordar diversos e interessantes temas: incesto, suicídio, doença metal, família, conflitos raciais, situação histórica do sul dos Estados Unidos, o velho e o novo, e outros. Nesses pontos, há uma grande e divergente fortuna crítica, com interpretações que privilegiam um ou outro tema. Já numa escala maior, acredito que a interpretação da obra como uma “tentativa de comunicação ideal (…), uma luta para superar os limites gramaticais e pragmáticos da linguagem e para aniquilar a distancia entre escritor e leitor”¹ seja bem mais abrangente e apurada.

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William Faulkner

Partindo desse ponto de vista, Caddy seria a tentativa de personificação do leitor ideal. Aquele de quem se exige uma pureza  impossível, no sentido de conseguir alcançar a intenção do autor sem fazer suas próprias inferências, sem “deturpar” o sentido do texto com sua visão de mundo particular, alheia ao autor. Benjy chora quando Caddy usa perfume, ou seja, quando elimina seu cheiro natural de árvore com algo artificial, que não lhe é próprio. Não só isso: Caddy é a única que lhe dedica atenção e que consegue entende-lo com perfeição, sempre adivinhando o que ele quer. Sem Caddy, a comunicação de Benjy é incompleta³, ele não consegue se expressar, está sempre “tentando dizer”².

Já o amor incestuoso de Quentin seria o “equivalente, em termos de comunicação, a não transmissão da mensagem (do texto) para ‘estranhos”¹, mantendo, dessa forma, a pureza do significado – “foi para isolá-la do mundo barulhento para que o mundo fosse obrigado a fugir de nós”², diz Quentin. E ele quer um amor eterno, imperecível, talvez significando também o amor que se deseja do leitor ideal e a consequente consagração do autor. Por isso seu pai diz: “você não está pensando na finitude está imaginando uma apoteose em que o estado mental temporário se tornará simétrico acima da carne”².

Como terceiro narrador, temos o desagradável irmão Jason e sua inescrupulosa busca por dinheiro. Jason odeia todos e tem um único objetivo: fazer uma pequena fortuna para sobreviver, inclusive extorquindo dinheiro de Caddy. No entanto, Jason tem suas razões. Ele sempre foi o preterido da família e a única chance de ter um bom emprego, Caddy não foi capaz de oferecer (como era esperado): “Eu não preciso de remédio para ficar bom eu precisava era que me dessem uma oportunidade mas eu tenho que trabalhar dez horas por dia para manter uma cozinha cheia de negros (…)”². Se substituirmos Caddy pelo leitor ideal e Jason pelo escritor, temos aqui justamente o triste papel de um escritor que nunca teve “sua chance” através do leitor ideal (aquele que o compreendesse completamente), que nunca foi realmente amado e que, por isso, se ressente de todos e busca sua satisfação apenas no dinheiro.

O problema é que o leitor ideal não existe, assim como a pureza de Caddy : “A pureza é um estado negativo e portanto contrário à natureza. (…) No momento que a gente compreende isso a tragédia é um coisa de segunda mão”². Essa é a tragédia do escritor e também a do leitor. Essa é a tragédia de “O Som e a Fúria”. O choro ininterrupto de Benjy, “devagar, impotente, sem lágrimas; o som desesperado e denso de todo sofrimento mudo que há sob o sol”² não chega puro até nós, leitores reais. Nós “não ouvimos esse som, nós conseguimos esse efeito através de formas verbais”². Assim como também não há uma possibilidade de interpretação exatamente igual à intenção do autor, uma vez que sempre colocamos algo de nós em tudo que lemos. Talvez por isso Faulkner tenha dito que, em “O Som e a Fúria”, ele tentou o impossível e falhou. ²

A leitura de “O Som e a Fúria” exige calma e um leitor mais experiente. É preciso ter paciência com o fato de que nem sempre será possível saber o que aconteceu. Mas isso não significa necessariamente incompetência do leitor ou que a leitura será desagradável. Deixar-se carregar pelo vendaval de pensamentos, imagens, e sensações é o que se pode fazer. O esforço de seguir adiante é extremamente recompensador. E também convidativo para uma segunda leitura, talvez até mais prazerosa, daquelas em que a seguimos dizendo “agora vou ligar os pontos”. Isso não é pedir muito, já que essa pode ser a “história contada por um idiota” mais surpreendente que você tenha a oportunidade de ler.

 

*Fluxo de Consciência é o termo usado para a técnica literária caracterizada pela tentativa de exprimir os processos mentais dos personagens como um fluxo contínuo, com associações mentais, pensamentos entrecortados, sensações e até perda de sintaxe.

 

Fontes:

¹ KUMINOVA, Olga. Faulkner’s ‘The Sound and the Fury’ as a Struggle for Ideal Communication. In: Literature Interpretation Theory. Routledge: London, 2010, p. 41-60.

² FAULKNER, William. O Som e a Fúria. Trad. Paulo Henrique Britto. Cosac & Naify: São Paulo, 2004.

³ DIMOCK, Wai Chee. Hemingway, Fitzgerald, Faulkner. New Haven, Yale University, 2011 (Open Yale Courses). Disponível na internet: http://oyc.yale.edu/courses

Uiara Nunes

Uiara Nunes estuda literatura, é colunista e integrante do conselho editorial da Carta Potiguar. E-mail: uiaranunes@gmail.com

4 Responses

  1. Ariana Cavalheiro disse:

    Perfeito! ficou incrivelmente bom, era tudo o que eu precisava saber antes de começar a ler o livro original.
    Obrigada!

  2. Ivens Matozo disse:

    Parabéns pelo texto!
    Só quem realmente conhece as obras de William Faulkner sabe o quanto elas exigem do seu leitor calma e, principalmente, várias reflexões ao longo da leitura. Achei bem pensado o diálogo intertextual que você colocou com a peça Macbeth, de Shakespeare.

  3. Bruna disse:

    Brigada me ajudou fazer todo meu trabalho sobre o livro muito bom essa pagina

  4. Hugo Char disse:

    boa bosta de livro, só porque é nobel e americano e incompreensivel vêm os intelectuais tentar arranjar algo de interessante naquilo. Francamente, o livro é apenas perda-de-tempo, com tanta coisa boa para ler …

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