Rio Grande do Norte, quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Carta Potiguar - uma alternativa crítica

publicado em 7 de julho de 2015

A Petrobrás e a crise – a corrupção desvalorizou a empresa?

postado por David Rêgo

Por Saulo Loiola Rêgo (Mestrando do curso de Engenharia Elétrica – UFRN)

A Petrobrás passa pela sua pior crise política devido uma série de denúncias de corrupção. Para piorar o problema, enfrenta também uma crise econômica. Suas ações desabaram (atingiu sua pior cotação no final de Janeiro deste ano e apenas em Abril começou a ter alguma “reação”). Os motivo são vários,  mas a principal razão pouco visibilizada: o preço do barril de petróleo. A mídia constantemente fala sobre o problema da corrupção. O que é um sério problema mas que tem tomado os rumos devidos: os envolvidos presos. Porém, é preciso compreender que a crise na Petrobrás não é apenas política, mas também econômica, sendo o preço do barril o fator mais agravante. Mostraremos em gráficos como a preço do barril tem afetado a empresa muito mais do que qualquer escândalo de corrupção.

Em meados de 2005 o Brasil descobriu a existência de grandes reservas de petróleo na camada pré-sal, ouro negro suficiente para abastecer o país por décadas ininterruptas. Desde então a Petrobras vêm fazendo massivos investimentos para extrair esse petróleo. Da descoberta desses poços até a extração da primeira gota, passaram-se 3 anos. Gráfico a seguir mostra a produção diária da Petrobras ao longo dos anos:

p1

Figura 1: Produção diária da Petrobras.

Nota-se que em 2008 houve uma queda na produção, isso será explicado posteriormente. O projeto da Petrobras era que em 2020 a produção do pré-sal fosse de aproximadamente um milhão de barris diários. Atualmente (2015) temos uma média de 650 mil de barris diários. O Gráfico a seguir mostra a evolução da produção de petróleo proveniente do pré-sal:

p2

Figura 2: Produção do pré-sal.

A produção vem aumentando exponencialmente, para isso é necessário massivos investimentos no setor de exploração e extração. A lógica é simples, com um preço do barril atrativo, quanto mais produzir, mais lucro a empresa fará com exportação. No entanto a Petrobras e o Brasil sofreram dois atrasos, o primeiro foi na crise de 2008, que assolou principalmente a Europa e os Estados Unidos, o segundo estamos vivenciando agora. Em momentos de crises, a economia é fortemente afetada, em 2008 o Brasil conseguiu, em parte, permanecer forte diante da crise (a famosa crise imobiliária dos EUA). No entanto, atualmente o mundo vem passando por uma crise na área do petróleo, que dessa vez afetou a Petrobras, dentre muitas outras empresas do ramo petrolífero ao redor do mundo (em especial a Rússia, onde possui um alto custo de extração de petróleo). O motivo da atual crise é o fato dos países pertencentes a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP), organização responsável por 40% da produção mundial de petróleo, estarem produzindo muito mais petróleo (em especial a Arábia Saudita) que o mercado consegue absorver (não é conhecido  o motivo exato pelo qual estão produzindo tanto). Com base na lei da oferta e da procura, quanto maior a demanda, menor o preço de um produto. O preço do barril despencou. O gráfico a seguir mostra o preço do barril de petróleo (em dólar) ao longo dos anos:

p3

Figura 3: Preço do Barril de petróleo ao longo dos anos.

Em 2008, como citado, houve uma crise, percebe-se que o preço do barril caiu para aproximadamente 1/3 do valor, em um intervalo de tempo muito curto, questão de meses. Porém, o preço subiu rapidamente, em questão de meses atingindo $80,00, um preço suficientemente atrativo para 90% dos produtores ao redor do mundo. Agora, nota-se que em meados de 2014, o preço voltou a cair, depois de aproximadamente 5 anos de “bons preços”. Nessa segunda queda de preço a Petrobras foi fortemente afetada, pois os investimentos no pré-sal são muitos visando a exportação. Por isso a Petrobras foi tão fortemente afetada nesta crise, além de ter gasto bilhões em investimentos, o preço do barril desaba. Além de gastar dinheiro, não tem como reaver o seu investimento tão cedo.
Os jornais insistem em nos dizer que a corrupção é o grande fator da desvalorização que a empresa vem sofrendo. Quando na verdade isso pouco afeta a empresa. O grande problema é que em momentos de crise normalmente o dólar sobe e preço do barril cai. Estes dois fatores pioram ainda mais a situação, pois os serviços contratados pela Petrobras são pagos em dólar e a arrecadação da empresa com o preço do barril diminui. Gráfico a seguir mostra uma comparação:

Figura 4: Comparação entre ações, preço do barril e dólar.

Figura 4: Comparação entre ações, preço do barril e dólar.

Nota-se que as ações da Petrobras seguem perfeitamente o gráfico do preço do barril de petróleo. A seguir um gráfico mostrando o preço do barril em comparação as ações da Petrobras, de Março 2014 até Março deste ano (2015):

p5

Figura 5: Comparação ações da Petrobras com preço do barril: Março 2014 – Março 2015

Qualquer semelhança, não é coincidência. Como diversos mercados, o setor petrolífero é auto-ajustável. Quando o preço do barril cai, países começam a cortar sua produção, restringindo apenas para o consumo interno. Com essa queda na produção mundial, o preço volta a subir, ao perceber que o preço do barril está atingindo valores rentáveis, os países voltam a produzir para exportar, até que um preço ótimo seja alcançado. No momento a Petrobras vem fazendo cortes de gastos e segurando a produção e exploração, mas assim que o preço do barril voltar para um valor “interessante”, o Brasil sentirá um forte crescimento, especialmente no setor marítimo, onde há um contingente muito grande de pessoas trabalhando em embarcações que prestam apoio para plataformas produtoras de petróleo. Este “boom” deve ocorrer final deste ano, pois especula-se que já é rentável  para a empresa valores do preço do barril em torno de $70,00.
A Petrobras está pronta para a próxima corrida do petróleo. Quando o mercado externo voltar a aquecer, ela saberá exatamente por onde começar, quais poços perfurar e quanto extrair. A previsão é que nos próximos dez anos, o Brasil esteja produzindo pelo menos 5 milhões de barris diários, o que nos colocaria como um dos 7 maiores produtores do mundo, atualmente o Brasil encontra-se entre a 10ª e 15ª posição.
É de se deixar claro que a imprensa tem um papel importante e positivo para a sociedade:  fazer denúncias de corrupção e auxiliar a punir os corruptos fazendo com que as instituições reergam-se mais forte do que nunca.Porém, a tentativa atual da mídia para rebaixar a empresa tentando deslegitimá-la e desvalorizá-la , sem dúvida alguma, possui interesses que estão para além da justiça social.

 

 

 

Referências usadas:

 

http://exame.abril.com.br/mercados/cotacoes-bovespa/acoes/PETR4/grafico

http://www.gazetadopovo.com.br/economia/primeiro-oleo-extraido-da-camada-pre-sal-e-celebrado-pelo-governo-bk0ilxg0cqaggfvxyfpnluh5a

http://www.macrotrends.net/1369/crude-oil-price-history-chart

http://presal.hotsitespetrobras.com.br/tecnologias-pioneiras/#4

David Rêgo

Sociólogo, antropólogo e cientista político (UFRN). Professor do ensino médio e superior. Áreas de interesse: Artes marciais, política, movimentos sociais, quadrinhos e tecnologia.

3 Responses

  1. Israel Loiola Rêgo disse:

    Ótimo texto. É meu irmão huasuhasuhs. Mas realmente, tem muita gente por aí achando que é só a Petrobrás que está em crise. E com uma mídia tendenciosa como essa nossa, aí que piora a situação, fazendo todo mundo pensar que a empresa é corrupta, triste. Não duvido é nada que tenham interesses por trás para tentar privatiza-la (despenca com tudo o valor para aumentar o desapego á empresa e facilitar a compra).

  2. Carlos disse:

    Deixe tentar adivinhar? Seu desejo deve ser trabalhar na Petro?! Não te condeno, só é outro bom brasileiro que defende o Estado para ser mais um a depender dele (e talvez você não esteja errado, é assim que a banda toca aqui, até o dia que vocês descubram de onde os impostos vêm e que são recursos finitos). Como que obras quase que abandonadas e superfaturas de bilhões de reais não vão quebrar uma empresa? Para não falar aqui da cascata de desemprego que as quebras repentinas de contrato com as terceirizadas provocaram…

    • Matheus Tavares disse:

      O amigo Carlos critica o que no texto?
      Apresente algum argumento concreto com dados e números para contestar tese apresentada.

Economia

União Europeia e Estados Unidos se opõem ao projeto da ONU que pretende obrigar as multinacionais a respeitar direitos humanos

Economia

Crise do Euro e a Metafísica vingam-se da Grécia