Rio Grande do Norte, sexta-feira, 29 de julho de 2016

Carta Potiguar - uma alternativa crítica

publicado em 19 de janeiro de 2016

Não é chororô

postado por Rafael Morais

economia_151Lendo o Novo Jornal de domingo, me deparei com o texto “Desafios e estratégias”, na coluna Roda Viva, de Cassiano Arruda Câmara. Nela, Cassiano, o “novo Imortal (das letras)” discorre sobre os problemas e a busca desesperada dos municípios potiguares para enfrentar a crise política e econômica que se apresenta em 2016.

“Ainda não é possível dizer se serão bem sucedidos os prefeitos do Rio Grande do Norte em sua estratégia para enfrentar a crise econômica. Apresentados a dificuldades dia após dia, em razão da redução de receitas, eles precisam honrar seus compromissos e tocar a gestão, independente do chororô”.

Essa é uma discussão que pode ser imposta a qualquer nível. No futebol não é diferente. A temporada que se inicia promete ser uma das mais cabeludas dos últimos anos para os clubes natalenses. Os gestores dos dois grandes, ABC e América por exemplo, terão que, assim como os prefeitos, driblar os empecilhos e desafios da crise, buscando estratégias que as minimizem em curto prazo.

São muitos os desafios. Em parte em razão das más gestões de um passado muito recente de mandos e desmandos, que acumulou derrotas, dívidas e rebaixamentos, e outra devido aos efeitos da própria crise, é fato de que as receitas diminuirão.

As cotas de televisionamento do Campeonato Brasileiro da Série B, garantidas em anos anteriores, não existirão, e patrocínios captados através dos setores privado ou público – mesmo sabendo que a Constituição Federal determina que o esporte de alto-rendimento não é prioridade na destinação de recursos públicos – estão cada vez mais escassos. Aliás, outro fator que vai pesar nas contas de ABC e América é a perca de uma fonte de renda fixa advinda da Caixa Econômica Federal, que não concede patrocínios a clubes das Séries C e D.

Conforme escreveu Cassiano Arruda sobre a crise nas Prefeituras, “é preciso reconhecer que há seu valor a estratégia de não esconder os problemas e, mais do que isso, levá-los à opinião pública”. Talvez, penso eu, a melhor estratégia para blindar os clubes de futebol das consequências da crise, seja mostrar que a falta de dinheiro pode comprometer o desempenho dentro de campo. É necessário, nesse caso, abrir a caixa-preta das contas. Não esconder, nem camuflar os problemas, assim como têm feito nossos gestores públicos municipais.

É preciso, então, levar a situação ao conhecimento dos torcedores. A estratégia seria ir além do que determina a Lei 9.615/1998, conhecida popularmente como Lei Pelé, que obriga a apresentação das Demonstrações Contábeis até o último dia útil do mês de abril, do ano subsequente. Bastaria expor dados referentes às receitas e despesas, mês a mês, justificando os investimentos realizados e os, por ventura, não realizados.

É imprescindível mostrar, em tempos difíceis da economia brasileira, que não existem muitas alternativas e que, repito, a falta de receitas e o desequilíbrio orçamentário podem, e muito, comprometer o desempenho em campo.

Ainda mais quando se fala de futebol. É um ciclo vicioso. Incapazes de investirem e formarem times fortes, as vitórias não vêm. Com as derrotas, as torcidas se afastam dos estádios e com eles, se vão, patrocinadores, receitas da Timemania, dos programas de associação e das vendas de produtos licenciados. E mais, o desequilíbrio pode levar ao atraso dos salários e tributos e, devido a regulamentação da Lei de Responsabilidade Fiscal do Esporte – pode levar inclusive a punições em longo prazo – o cumprimento da lei só será exigido em 2017 – como rebaixamentos.

Mais do que nunca, no futebol brasileiro, é necessário manter as contas em dia, mesmo que o clube seja obrigado a reduzir despesas, formando times mais modestos, em conformidade com as receitas possíveis. É preciso manter o equilíbrio orçamentário pra depois, enfim, voltar a conquistar as vitórias e os títulos que o torcedor tanto cobra e almeja.

Entendo que, em curto prazo, a saída é pela gestão transparente e participativa. Compartilhar para poder cobrar participação do torcedor. Como bem disse o jornalista Vicente Serejo, “…nesses tempos de hoje, então, quanto mais transparente, mais forte é qualquer instituição”. Complemento, quanto mais transparente, mais forte, competitiva e mais credibilidade ela terá.

Aqui – no futebol – como lá – nas Prefeituras – há a certeza absoluta de que o ano de 2016 será muito, mas muito difícil. Os problemas, sem dúvidas, superarão as vitórias.

Mas a vida segue, o campeonato já começa sábado que vem e os clubes precisam, de imediato, cumprir suas obrigações. Assim como nas prefeituras, é preciso honrar compromissos e tocar a gestão. Esse também é o desafio.

Não se sabe, na prática, se daria certo, mas é fato de que algo precisa ser feito para que o futebol potiguar não pare. Nesse caso não é chororô, mas sim uma estratégia, a de compartilhar a verdade com quem pode, ainda, ser o respiro da sobrevivência.

Rafael Morais

Comunicador Social pela UFRN. Experiência em assessoria de imprensa esportiva e atuação em televisão. Áreas de interesse: literatura e esportes em geral, com ênfase no futebol como a "teatrialização das relações humanas".

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