Rio Grande do Norte, sexta-feira, 27 de maio de 2016

Carta Potiguar - uma alternativa crítica

publicado em 25 de fevereiro de 2016

A bomba Genet

postado por William Eloi

“O livro está aqui, no  apartamento…

 extraordinário, obscuro, impublicável, inevitável…”

 Quando, em 16 de Fevereiro do de 1942, Jean-Cocteau* (1889-1963) descrevia, num tom comovente em seu diário, a leitura que fizera do romance de Jean-Genet, Nossa Senhora das Flores (1943), como algo que lhe apresentava mil problemas, que chegava sob os pés do escândalo ( Não seria os pés alados de Mercúrio? Aqui eu me pergunto)o tempo, esse velho sábio, provaria que não estava enganado.

A bomba Genet (Era assim que Cocteau se referia a Jean-Genet em seu diário), continua causando espanto, admiração e repulsa como convém a toda bomba, espalhando seus estilhaços, desde que Genet lera o manuscrito, pela primeira vez, há setenta e quatro anos, para um Cocteau atônito.

genetreflextionFoi com a mesma audácia que viveu (termo recorrente em toda sua obra) que Jean-Genet escrevia seus livros. Criava sua lenda aos moldes de François Villon**. Numa França dominada pelo medo da delação, cercada pelo exército invasor; enquanto a resistência apelava ao espírito patriótico, conclamando o povo francês as armas! Genet gargalhava na escuridão. Desfilava seus tipos sórdidos por uma Paris arrasada pela fome e pela humilhação. E porque deveria se aliar a tal senso de comoção nacional? Era um ladrão desde a mais tenra idade. Sempre esteve à margem.  A mãe não a conheceu. Ouvira dizer que fora prostituta. Havia sido criado por uma família de camponeses em uma pequena comunidade rural no interior da França chamada Alligny-em-Morvan. Acusado injustamente de roubo aos dez anos, fora novamente abandonado, passando um terço da vida entre reformatórios e prisões. E numa dessas idas e vindas à cadeia, conheceu a literatura.

Os canhões de suas tintas não estavam apontados (apenas) as questões de Estado. Mas a todas as formas de instituições organizadas. Como anos mais tarde, deixaria claro na frase “O mundo, como vocês o fizeram, eu o odeio!”. Era sob essa perspectiva que Genet desenvolvia suas tramas. Estabelecendo paralelos entre o mundo do leitor (O choque no gosto médio burguês) e a transcendência através do mal, que vinha sob degeneração de seus personagens (fazendo uso de símbolos poéticos) e nos jogos (homo) eróticos entre Eros e Tanatos.

No universo Genetiano, as coisas guardam suas intenções, dialogando com o autor. Assim a prosopopeia de Genet pode nos falar, com lirismo, da audácia de uma mão que se encontra em repouso ( e que o perturba), ou da maldade do sexo de um de seus amantes, preso dentro das calças.

Com a plena consciência de sua condição de invertido, “suas leis” respondiam a uma gravidade mais densa. Diferentemente de seus antecessores, sem a angustia de um André Gide, por exemplo, o aspecto maior de sua genialidade consistia em apresentar com arrebatada paixão o outro lado do espelho. Elevando, por exemplo, o homossexualismo, o roubo e a traição, a status mais dignos (Aqui encontrando, uma semelhança com o projeto poético de Charles Baudelaire) em seu estranho sistema de valores.

Se a vida havia lhe oferecido tão pouco, o que poderia ser, senão o orgulhoso soberano de seu inferno? A voz dos condenados?

Jean-Genet construiu sua bomba, a quem deu o nome de Nossa senhora das Flores dentro da prisão de Santé, em papéis extremamente racionados (como tudo que havia na França na época, em função da ocupação nazista), que eram entregues aos presos pela administração do presídio, para que ocupassem o seu tempo confeccionando sacolas.

Os tais escritos foram descobertos. Confiscados. Fazendo com Genet começasse pacientemente do ponto inicial. Entretanto, sendo o destino cego e às vezes desatento, fez com que a bomba saísse da prisão de Santé, e caísse, naquele 16 de Fevereiro de 1942, na sala da casa de Jean-Cocteau.

Como nos mantermos a salvo de uma bomba? Como não nos dilacerar?

“Destrua-o”, foi o conselho que deram a Cocteau.

Mesmo numa França de tradição libertária e libertina, que deu ao mundo Sade e Rimbaud, nunca se viu algo tão ousado. E apesar das consequências, do perigo, e de uma súbita inveja, Jean-Cocteau não só ajudou a publicar o livro, como anos mais tarde assinaria uma petição junto aos intelectuais da época, para pedirem o perdão de Jean-Genet por seus crimes. (Que corria o riso de prisão perpétua), garantindo, assim, a França os seus mais belos livros***.

Hoje, passadas tantas décadas desde que Hitler perguntou aos seus generais  “a França está em chamas?” A resposta é  sim. E continua ardendo****.

___________________________

*Jean-Cocteu Poeta, romancista, cineasta, designer, dramaturgo e ator francês

** Poeta e ladrão. Viveu na França da idade média em 1431 e desapareceu em 1463

***Apelo de Jean-Genet  aos seus amigos, para que pudesse lhe libertar. Estava então terminando o seu segundo livro, “O milagre da rosa.(…mas agora é crucial que a minha vida não seja condenada e cortada, pelo menos, não de imediato…se eu falhar em minha realização, que ninguém zombe porque eu quis dar à França vários de seus livros mais belos…)

 

****Jean-Genet escreveu quatro outros livros, três peças, vários artigos, poesia e ensaios. Foi enterrado no Marrocos (Com o túmulo virado para Meca, como gostaria).Teve entre amigos e admiradores, Jean-Paul Sartre (Que lhe dedicou um ensaio de quase quinhentas páginas chamado “Santo Genet : comediante e mártire),Simone de Beavoir, Michel Foucaut, o diretor alemão Fassbinder(Que adaptou o livro Querelle para o cinema),  David Bowie, os beats Jack Kerouac, Allen Ginsberg, William Burroughs,  dentro outros. Dedicou-se ao movimento dos “Panteras Negras”, aos movimentos pacifistas contra a guerra no Vietnã, e nos últimos anos de sua vida, a causa palestina.

Foi laureado, em 1983, com o grande prêmio das letras francesas, dado pelo governo francês. Faleceu em 15 de abril de 1986, aos setenta e seis anos. Em 2010, para celebrar o seu centenário, Michael Stipe, ex- vocalista da banda de rock R.E.M., e Patty Smith, poeta a cantora, organizaram um recital de sua obra.

 

 

 

 

 

 

William Eloi

Escritor e ex-guitarrista da banda de rock Electrilove.

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