Rio Grande do Norte, quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Carta Potiguar - uma alternativa crítica

publicado em 26 de setembro de 2016

Pertencimento, movimentos sociais e “radicalidades”

postado por Loa Antunes

Uma análise possível de ser feita a respeito do florescimento dos movimentos sociais atualmente é a sugerida por Michel Maffesoli, que aponta um crescimento das relações de pertencimento em nossos tempos, indo na contramão do que pensam muitos dos críticos da pós-modernidade, que acusam nosso período de ser disruptivo às relações coletivas de modo geral.
 
Para Maffesoli ao invés de colapso e apocalipse nós temos a primavera dos laços de pertencimento, a multiplicação dos relacionamentos, embora algo fluídos, nunca quantitativamente menores em comparação com outras épocas. Esse não é o único elemento constitutivo de um fenômeno social, mas podemos observá-lo como um propulsor do aumento do número das igrejas evangélicas, na transformação da política institucional em torcida organizada principalmente nas cidades pequenas, nos movimentos de ocupação, e nos movimentos sociais “radicais”, tanto à esquerda quanto à direita.
 
movimentossociais
 
Esses grupos de pertencimento/movimentos têm forte apelo entre jovens e adultos jovens. Numa “etnologia” em um grupo de Whatsapp de extrema-direita fascista um pesquisador descobriu que, não apenas o administrador, tão ávido na defesa daqueles ideais, era menor de idade, como também o eram muitos dali. Certamente, pela idade dos participantes, não se pode crer facilmente que todos tinham ampla leitura na teoria política qualquer que seja, e pelo relato isso se confirma. Portanto, podemos supor que menos do que unidos por conhecimentos metodológicos e discussões acadêmicas, aqueles sujeitos se aglutinavam movidos pelo desejo de pertencer, de se coletivizar (fenômeno observado em todo espectro político). Idéias fascistas são sedutoras, se por todas as razões políticas que poderiam ser elencadas, também por concederem um lugar de pertencimento aos sujeitos. Faz com que estes possam se sentir atados aos outros, seguros na tribo, defendidos de inimigos externos, perderem-se naquela coletividade que Durkheim anunciou. Por isso o fascismo tem como um dos seus caracteres o nacionalismo, o bairrismo, a xenofobia.
 
O que nós estamos vendo, também, é o aparecimento de movimentos sociais, não fascistas, mas impregnados de conteúdos mitológicos de exclusividade e pertencimento a categorias que são fantasmagóricas. Um dos elementos – entre vários – do tipo ideal do fascismo. Assim, no lado da esquerda surgem tribos urbanas/movimentos sociais (a linha entre um e outro anda tênue) com essas idéias de exclusividade de pertença com base no sexo ou em qualquer outro marcador fincado no biológico.
 
Quando tornamos os movimentos sociais exclusivos daqueles que são lidos biologicamente como inferiores, ou seja, daqueles que do estigma sofrem mais diretamente, quando subtraímos sem critérios a fala, a educação e a promoção da equidade pelos sujeitos que, aparentemente, as lutas não dizem respeito, aceitamos interpretar o poder como algo da ordem do natural, naturalizamos os interesses e as formas de ver as relações de poder e portanto as de marcadores. Reafirmamos a existência enquanto essências e imanências dessas diferenças que na verdade são ficcionais-sociais. Tais movimentos se baseiam em análises equivocadas de conceitos, entre eles e principalmente o de poder.
 
Pessoas que não estão diretamente vitimadas pelos marcadores de diferença podem e devem lutar contra os estigmas e as relações de opressão, mesmo que elas não lhes atinjam tão rigorosamente. Embora deva ser dito que participar é diferente de subtrair essas vozes oprimidas, mais do que já são. Brancos podem e devem lutar contra o racismo, homens contra o machismo, héteros contra a LGBTfobia, mesmo que sejam privilegiados, mesmo que não sofram disso tão duramente, mesmo que precisem aprender bastante a ouvir, essa gente que sempre foi acostumada apenas a falar. Isso porque, por exemplo, as lutas do movimento LGBT são contra a heterossexualidade obrigatória enquanto regime político, não contra os heterossexuais. O mesmo raciocínio pode ser aplicado ao feminismo e ao anti-racismo. É assim pois a heterossexualidade obrigatória enquanto poder é uma relação, não uma essência encontrada no corpo dos heterossexuais (se existir esse corpo): por isso mesmo pode ser e comumente é (re)produzida por não-héteros, pois não se encontra aqui ou alí, neste ou naquele organismo biológico. E por não se encontrar e emanar dali é que deve e pode ser interompida e combatida por todos, LGBT ou não.
 
Pensando assim, vivência e lugar de fala não anulam participação política múltipla e variada, não são uma cadeia ou prisão da voz de fora, o lugar de fala e a vivência são construções/relações sociais, sua importância se dá em serem fontes significativas de informações negligenciadas e um palco para aqueles que tradicionalmente ficam de fora da emissão da fala e da recepção da escuta, em conferir autoridade sobre a opressão que se sente sempre quando a opressão mesma tenta nos silenciar, mas não é um contrato invertido de exclusividade. Lugar de fala e vivência não anulam conhecimento metodológico elaborado a respeito de fenômenos sociais, como o estigma e as relações de poder, mas são complementares. Devem ser respeitadas como exercício de escuta e promoção das falas subtraídas no jogo dos ruídos.
 
Também o que se chama de privilégio não impossibilita a luta política, tê-lo não anula a participação nas relações de resistência, uma vez que os privilégios são construções do poder, portanto relacionais, não biológicos-essenciais-imanentes. O privilégio deve acabar por meio de sua universalização, que é a igualdade, deve deixar de ser privilégio e ser tratamento generalizado. E essa é uma conquista que diz respeito a todos nós enquanto membros da mesma espécie, enquanto regimes democráticos. A opressão não vai ter fim nas mãos de uma ficcional retirada política ou material dos elementos biológicos da diversidade humana (fim dos homens sonhado por alguéns), ou isolamento autoimposto. Sumir com os homens, trans, héteros, brancos ou qualquer coisa dessa “radicalidade” não é resolução para machismo, racismo e LGBTfobia, uma vez que o poder é uma relação, não uma essência ou imanência dos corpos.
 
Movimentos sociais e/ou tribos urbanas recentes surfam nessa fábula fascista de pertencimento-natural à categorias biológicas, seja para reivindicar superioridade de algum tipo, na direita, seja para promover a violência simbólica e psicológica contra pessoas que “não pertencem” àquilo, na esquerda, como faz o feminismo que se autodeclara radical com as pessoas trans e, às vezes, bissexuais. (aqui não me refiro a promoção da cultura e história negra por parte do movimento anti-racista, por exemplo)
 
Se todo esse cenário político de reavivamento do fascismo nutre tais ideais, também a necessidade de pertencimento o fazem. E o pertencimento deixa de ser positivo sempre que foge ao democrático, a busca pela igualdade, e passa a se enclausurar em noções de superioridade de qualquer tipo, se torna antagônico à diversidade humana de toda ordem ou a produção de conhecimento por qualquer um. Quando ideais e movimentos se apresentam como totais, todos, acabados e criam inimigos externos fantasmáticos para manter queimando a chama do agrupamento. Ou quando entendem o poder de forma naturalizada, como vem sendo feito, uma vez que reforça concepções essencializantes a respeito dos sujeitos e da política.
 
Nesses tempos é urgente e radical promover a democracia nas relações sociais e nos movimentos, ali mesmo onde a democracia parece tão subnutrida.

Loa Antunes

Cientista social pela UFRN. Ciclista, amante de literatura fantástica no geral e mais alguns clichês.

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