Rio Grande do Norte, sábado, 24 de junho de 2017

Carta Potiguar - uma alternativa crítica

publicado em 20 de abril de 2017

Tirésias

postado por William Eloi

“Eu é um outro”

Carta do vidente- Arthur Rimbaud

 

I

…Eu te amo

…Eu…Eu também te amo…(?)

 

Ao dizer a frase, ela saltou rapidamente da cama, jogou os lençóis, tão logo o sussurro saiu de sua boca. Apesar do tempo, afirmações de amor ainda são, e sempre serão bem-vindas entre dois amantes. Mas o que o homem, que estava deitado ao seu lado, às suas costas, o que ele não havia percebido, talvez pelo sono, ou pelo abandono que acomete a todo corpo quando saciado, era a modulação grave naquele eu também te amo.

Ela, trancada agora dentro do banheiro, procurava desesperadamente as cápsulas. Perdera a noção do tempo enquanto estavam juntos. Já era quase meia-noite, e pela hora que havia tomado a sua “última dose” sabia o que aquilo queria dizer. E não havia mais “cápsulas”.

Amor… algum problema?

Ela escorregou a mão até a genitália e apalpou o que parecia ser duas pequenas glândulas envoltas em uma camada de fina de pele.

Não…é…é…minha  faringite!

                Quando se é adolescente, há uma euforia quando se consegue perceber os primeiros sinais de pelos no rosto, em volta do púbis e a mudança na voz. É a testosterona, através do saco escrotal, que realiza essa mudança nos meninos. É um processo geralmente demorado. Que leva alguns anos. Chama-se puberdade. Mas ali, naquele quarto, ela sabia que essa transformação se daria em questões de alguns minutos.

-Espera pra onde você vai assim?

-Eu tinha uma reunião marcada e havia me esquecido

-…mas, ah essa hora? Amor…espera!

Na garagem, ela entrou no carro, e desapareceu.

 

Meses antes…

 

Vamos lá, qual o mal pode haver nisso? Disse, de si para si, comtemplando a cápsula de STAN[1] em suas mãos. Foi um amigo do seu trabalho que havia lhe apresentado àquela droga. Ele, que sempre fora um homem muito correto, íntegro, que tipo de aventura diria a seus netos? A vida inteira, preso entre as paredes de aço e vidro, dentro de uma corporação.

Como foi seu dia querido?

Ele poderia muito bem deixar gravado com algum robô, dentro daqueles que havia em sua casa, suas insatisfações, seu cansaço e seus sonhos- inalcançáveis- às respostas que dava a sua esposa. Sempre as mesmas.

Além do registro de voz, deixaria também todos os seus afazeres programados dentro desse mesmo robô. Acordar, tomar café. Levar os filhos à escola pela manhã. Ir ao trabalho. Chegar em casa à noite. Assistir as notícias sobre um novo atentado terrorista ou algum roubo de  informações feito por hackers. Contar algumas estórias aos seus filhos, antes de desejar-lhes boa noite. Ir para a cama. Transar com sua esposa ou não. Dormir. Acordar, tomar café. Levar os filhos a escola… Quem sabe se já não sejamos robô? Pensava.

Ele havia aproveitado um dia que estava só em casa. Quando a esposa levou os filhos para passarem o final de semana com a avó, que não viam há algum tempo.

E se de repente eu explodir com tudo?

Não. O seu amigo havia tirado esse ideia de sua cabeça. Passou-lhe um tipo de droga de melhor qualidade, porém, de baixa concentração do que as que você encontrava geralmente pelas ruas. Assim ele não precisaria de um piloto[2]. Foi o que havia lhe garantido.

Ok. Nos primeiros minutos você não sente lá essas coisas. Será que é isso tudo mesmo o que dizem por aí? Apesar de ser algo bastante comum nesses dias, ele nunca havia conhecido alguém que houvesse experimentado. Até que soube desse seu amigo. Conseguiu ascender rapidamente na célula da empresa onde trabalhavam juntos. Estava saindo com a mulher de um dos acionistas, que o tinha em alta conta…Ele liberava feromônios.

Então começa o frio. A febre. O termômetro da sala lhe indica que seu corpo está a quase 40°. Você não consegui se conter. Seus dentes batem e rangem ao mesmo tempo. Sua pele adquire uma coloração ruborizada. Você acha que logo irá entrar em convulsão. Passa algum tempo. Então vem o suor. Geralmente é quando você sabe que a febre foi embora. E outra coisa começa a aparecer. No seu caso, desaparecer. E você começa realmente “a saber” o que é o desespero.

Porque o seu pênis está se dobrando em camadas. E sumindo.

 

 

 

Ele tentou acionar algum serviço de saúde, mas o sistema de chamada não reconhecia a sua voz, que estava como a voz de uma adolescente. O horror lhe impedia de raciocinar, mas ainda assim, procurou respirar fundo. Lembrar-se de alguma coisa do que aquele seu amigo lhe tivesse dito que talvez tivesse esquecido.

Isso não vai te matar. Relaxa. A dose é muito pouca. E o efeito é só por algumas horas. No seu caso, talvez uma meia-hora.

Correu para frente do espelho. Tirou a roupa.

O pênis retraiu-se por completo, de modo que ali, onde antes era seu lugar, agora havia uma cavidade. Sim, estava se tornando uma mulher.

Sentiu o corpo contorcesse por dentro; útero, ovários, trompas, sendo criado.

Sentiu os ombros diminuírem de comprimento, os maxilares, ao mesmo tempo em que as ancas desenvolviam-se na parte lateral do glúteo, parecendo partir qualquer coisa no corpo. Os pelos tornarem-se rentes a pele, num tamanho adequado ao tipo naquele momento. Sentiu o pomo de Adão desaparecer, e por fim o nascimento de “seios”.

Completada a metamorfose, ficou no espelho observando-se. E, passado todo o susto, viu uma linda mulher. Linda e atraente.

II

Que tipo de transformação poderia ter acontecido a seu esposo? Perguntava-se. Como, nesses últimos meses, tornara-se ao mesmo tempo tão sensível, observador, companheiro? Tão dado a escutá-la? Como se fosse assim, de repente, uma irmã? E como, depois de tantos anos de casados, ainda pudesse lhe surpreender na cama? De uma forma como nunca fizera antes?

O que ela achava ainda mais estranho, e que tanta compreensão venha acompanhada de uma crise de nervos, pela qual seu esposo tenha sido acometido nos últimos meses. Que o levou a especialistas, e pelo qual, ele já tenha gasto muito em “remédios”, que os médicos lhe prescreveram.

Tudo isso começou há alguns meses, com problemas de insônia e de concentração (coisas que ela nunca vira acontecer a seu esposo, depois de muitos anos de casados). Depois vieram as crises nervosas, a irritação… há uma espécie de esgotamento físico e mental, que ele só conseguia administrar com algum tipo de droga prescrita. Ela não sabia o nome, nem quando ele tomava (sempre em sua ausência), mas havia naquilo tudo, quando seu esposo tomava a tal a substância, que lhe tornava um homem melhor. Que a fazia acreditar, quando ele sempre lhe respondia “Acredite, querida, eu sei exatamente como você se sente”.

III

Enfim, a grande aventura!

O seu amigo deveria ter usado a STAN para convencer-lhe tão rapidamente, apesar de suas convicções, a fazer uso também da droga. (O seu dom sobre os feromônios) Mas, enfim. Quem se importa? Ei-la ali, com outra visão de mundo, num corpo diferente do que Deus havia lhe dado.

Mesmo com métodos mais avançados de seu tempo, um trans, completamente modificado, nunca poderá saber o que é realmente estar em outro corpo, da mesma maneira como ela sabia. Gravitar entre os dois mundos. Como ela, talvez só o mítico “Tirésias”, matando as duas serpentes.

“Com licença… eu a estive observando um tempo…você está sozinha?”

Era um homem alto, do tipo charmoso que se aproximava. Que tivera coragem de se aproximar, apesar de que muitos ali, naquele restaurante,  a deseja-se.

Porque não? Pensou…

O seu admirador era um homem, além de charmoso, muito educado e com grande senso de humor, descobriu, ao longo da conversa que tiveram. Do tipo que agradaria a qualquer mulher.

Ela não sabia se era efeito da STAN, das alterações feitas em seu corpo, ou se era mesmo sua percepção; em meio à conversa, observou coisas que nuca havia observado em um homem algum, ou em qualquer outra pessoa.

O formato da boca e o seu sorriso. O formato dos dentes. O traço do rosto, passando potência, ao mesmo tempo em que segurança. O ângulo do queixo quadrado. A voz. O cacho caindo sobre a testa, enquanto afirmava qualquer coisa, balançado a cabeça. O cheiro….

Eles passaram a se encontrar sempre naquele restaurante, naquele mesmo horário. (Geralmente nos dias em que sua esposa ia à casa de sua sogra)

O seu admirador cada vez mais demonstrava mais interesse, e ela brincava com a ideia de estar seduzindo um homem…

Até que um dia eles se beijaram…

Ela não saberia dizer, mas havia algo nesse beijo, na língua que entrou em sua boca, que fez com que seu ventre se tornasse morno e humedecesse o meio de suas pernas. O que lhe causou admiração, quando pediu licença e foi ao banheiro. O fluído translúcido e morno entre os dedos.

Como um capricho, ela dificultou um pouco as coisas- porque a essa altura também estava confusa- até um dia ceder.

                Com o carinho e também a segurança de um homem, ele a despiu. O hálito correndo próximo a sua orelha fez com que os seios se lançassem pontiagudo e convidativos, ao que ele respondeu com sua língua,  entumecendo o bico ao mesmo tempo em que os sugava. Ora um, ora outro.

Do cume do seio a língua desceu ao abdômen, e uma corrente elétrica percorreu o corpo, e pernas e vagina abriam-se num “abra-te sésamo” sem que percebesse, Indicando algo valioso. E o mesmo líquido translúcido e morno, que surgiu entre suas pernas, quando ele a beijou a primeira vez, encontrava, agora, sua língua quente.

Como explicar, como explicar, quando o teve entre as pernas? A delicadeza quando lhe tirou a virgindade? O medo de se sentir esmagada pelo seu peso, e, ao mesmo tempo, o desejo de tê-lo sobre si. O prazer a invadindo como chama (o querer sempre dentro), mesmo que no fim a tivesse ferido ( Não era assim que se ofereciam as flores ?Quando ainda existiam flores? Não era essa a demonstração de amor no passado, quando se amava alguém? Semeando nos campos para depois cortar?), o prazer, espalhando-se da vagina, ao ânus. Das coxas, a ponta dos pés. E no fim, a mesma solidão e tristeza que acompanha homens e mulheres. Quando gozamos.

IV

Ele a seguiu de lá até aqui. Rastreou o seu carro. Apesar de achar a ideia absurda, havia ficado preocupado como a forma como ela saiu do quarto em que estavam. Então, deixou que a madrugada passasse, e foi até a sua casa (que ela nunca havia lhe revelado) levar seu casaco de couro sintético, que havia esquecido.

Será que ela era casada? Muito provavelmente, pensou. Em frente à residência onde o carro havia entrado um homem saia agora… No mesmo carro que ela havia entrado minutos antes. Mas…de dentro da casa o homem se despedia de uma mulher, que parecia ser sua esposa. Não. Não era ela essa mulher. Ele tinha que tirar essa história limpo. Estava apaixonado.

“Com licença” disse ao aproximar-se do homem, que saia daquela residência.

“É que…uma…amiga esqueceu essa peça ontem à noite. Por acaso o senhor a conhece?” Disse-lhe, dando, em seguida as descrições

A esposa daquele homem, que estava próxima, estranhou a pergunta.

“Não, não conheço ninguém assim” respondeu-lhe com os lábios trêmulos o homem que saia da casa. Os filhos lhe puxavam pela camisa.

“Acho que o senhor deve estar enganado”, completou ainda em seguida.

-É…dever ser…devo “estar enganado”.

V

Ela estava a caminho do trabalho de seu amante. Mas usava a sua forma masculina. Não posso… não posso acreditar…Vinha pensando enquanto dirigia o carro.

Esperou que o amante o recebesse, depois de espera-lo por alguns minutos na recepção. Apertarem-se as mãos cordialmente. Andaram então num longo corredor, em direção a uma sala.

O amante apontou-lhe uma cadeira, próximo a uma mesa que os separava. Sentaram-se. E então começou.

– Perdão, o senhor não me disse o seu nome… disse apenas que eu o conhecia. Sabe, aqui são tantas coisas… Sinceramente… não lembro de onde o tê-lo visto em qualquer lugar…

– Bem…. há algum tempo, um outro dia em minha casa…. o senhor mostrou-me uma peça de roupa feminina…indagou-me se eu conhecia a sua dona…eu não sei por onde começar…mas a dona…a dona da peça sou eu

– Como….como assim? Não entendo… Respondeu o amante, com a expressão retorcida ao levantar-se de sua mesa. Andando de um lado para o outro da sala, ao mesmo tempo em que procurava agarrar-se a alguma coisa. Porque tudo ali parecia rodopiar.

-Sou um viciado em STAN…. Sou um transmorfo de gênero. Eu sou a mulher com que o senhor vem tendo um relacionamento há meses. Eu sei que é difícil escutar isso… Acho que poderíamos resolver isso de forma razoável, como homens. Além do mais… Eu…Eu…o amo. Resolvi dizer tudo isso só agora ao senhor porque… acho …acho …que estou esperando um filho s…

 

BANG!

BANG!

BANG!

BANG!

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Tirésias: personagem  da mitologia grega  que, por ter encontrado duas cobras  venenosas copulando enquanto caminhava no monte Citeron, e por ter matado a fêmea, é castigado e tornar-se mulher. Sete anos depois, encontra novamente outro casal de cobras copulando, e desta vez mata o macho, voltando a ser homem. Zeus e Hera acreditava que Tirésias seria o único que poderia responder-lhes a dúvida sobre quem sentiria mais prazer, dado que ele teve o conhecimento tanto como de ser um homem, tanto quanto ser mulher.

[1]  Droga sintética, de efeito psicossomáticos, que dá habilidades sobre humanas para quem a usa(assim como o vício). Como explicada no primeiro conto da série “Notícias do amanhã ou crônica de um futuro quase-perfeito”, chamado “A maçã de Adão”. 

[2] Pessoa próxima que geralmente ajuda, ou tranquiliza, quem faz uso de STAN.

William Eloi

Escritor e ex-guitarrista da banda de rock Electrilove.

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